Geraldo Martins - Especial para o Estado de Minas
O Grupo Oficcina Multimédia comemora seus 50 anos de teatro encenando no palco do Centro Cultural do Banco do Brasil de Belo Horizonte (CCBB BH) “O beijo no asfalto” de Nelson Rodrigues, até o dia 5 de outubro. Completa-se assim, a trilogia precedida de “Boca de Ouro” e Vestido de Noiva.
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A tragédia carioca do atropelamento de um homem que, antes de morrer, recebe um beijo do personagem Arandir, já foi motivo de muitas leituras: a misericórdia, o amor, a ruína de um casamento, a crítica à imprensa sensacionalista e a opressão policial. Tudo isso a direção de Ione de Medeiros e de seu assistente Jonnatha Horta Fortes levam em conta na sua montagem. Medeiros, que faz teatro há meio século, sabe que não se pode ser infiel à dramaturgia, mas sabe também que lê-la e girá-la em contínuos deslocamentos e condensações é o que o texto nos pede.
Para isso, Medeiros criou um cenário móvel. São tábuas brancas que ora são mesa de delegacia, ora tela branca de cinema, ora sala de estar. Elas sempre se desfazem caindo no chão feito a queda da falsa verdade dos fatos ditos. A mentira, a deturpação e a ação da polícia em conluio com a imprensa são reveladas aos espectadores na brancura de projeções. Podemos dizer que há 65 anos Nelson Rodrigues já anunciava o perigo das "fake news".
Um figurino em tons de Almodóvar é o modo que Ione e Jonnatha encontraram para mostrar a pulsão violenta das famílias rodriguianas. A peça traz para a cena a ironia que Freud teorizou no seu livro sobre o chiste. A representação do trágico vem pelo seu oposto, a ironia escorrega como uma subespécie do cômico. Ao encenar o texto trágico de Nelson Rodrigues, a ironia fala e representa o contrário do que é falado. É um contradizer, causando um prazer cômico no ouvinte não avisado. Ri-se de sobressalto, de horror do que é mostrado.
Toda a assepsia do cenário, dos ternos de linho claro às cores vibrantes dos vestidos, vociferam um texto de uma moral conservadora que insiste em ficar de pé e resvala ao esgoto da família trágica quando a tampa do recalcado é retirada. O modo impactante do teatro de Medeiros é colocar no palco o duplo dos personagens, mostrando o espelhamento e a fragilidade das identificações do ego.
Desta vez, a função do duplo é a sombra das personagens. O personagem do jornalista, maneirista e bêbado, em uma performance precisa do ator Jonnatha Horta Fortes, oscila entre torturador e usurpador dos fatos: duas faces da mesma moeda.
Com Rodrigues/Medeiros as personagens são desnudadas como pura sombra de si mesmas. O que assistimos é um teatro que lança a miséria humana em direção à plateia. Quando rimos, é a pura confirmação do que reconhecemos em nós mesmos.
Se é assim, o beijo inaugura e termina a peça. Antes do cair das cortinas, o beijo pedido no início da peça desloca-se para um “Bésame mucho”. Fim de cena.
Os artistas do Grupo Oficcina Multimédia constroem um teatro sem igual, um estilo que lhes é próprio. É lindo de se assistir, a despeito da tragédia apresentada. Só me resta, com eles, dizer: MERDA!
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GERALDO MARTINS é psicanalista com formação em Filosofia e Mestrado em Psicanálise e Literatura
