Wander Melo Miranda - especial para o Estado de Minas
Numa época em que verdadeiro e falso são constantemente colocados em xeque pelos mais diferentes meios de comunicação e informação, a literatura constitui um espaço privilegiado de representação artística desse confronto. Para tanto, coloca a si mesma em questão, muitas vezes exacerbando, propositalmente, seu traço metaficcional, como ocorre com o livro “O escutador”, cuja autoria Carlos Marcelo atribui a Ademir Lins. O pastiche passa a ser a determinante da escrita e da leitura, por meio da apropriação do texto do outro, que passa a ser seu – e vice-versa –, num processo em que o plágio aparece como horizonte derradeiro dessa operação.
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Desde a sobrecapa do livro, que reproduz a capa da pretensa edição original de 1958, da editora Montanhesa, e encobre a edição da Impressões de Minas que estava esgotada e acaba de ganhar nova tiragem, onde se lê o nome de Carlos Marcelo como autor, o jogo de esconde/revela tem início. No texto de abertura – “Sobre a presente edição” –, a explicação dada sobre a autoria mais confunde do que esclarece, ao propor o escritor como mero transcritor do romance de Ademir Lins, cujo acesso ao manuscrito e à primeira edição agradece à sua família e à sua editora, Virgínia Lemos. Afinal, de quem é o livro, quem é seu autor de verdade?
O pacto de leitura assim efetuado supõe entrar e sair do jogo de enganos e pistas falsas como condição necessária de sua possibilidade. Situado numa “cidade dos escritores” cujo nome não é revelado, o relato se apoia em diversos autores, que vão de Herman Melville a William Faulkner, de Cyro dos Anjos a Pedro Nava, aos quais dá cidadania literária e parceria na escrita assumida como ficção, numa sorte de atualização de “O clube dos grafômanos”, de Eduardo Frieiro, onipresente no texto como guia de escrita e leitura.
Amplia-se e se generaliza a tarefa do escutador, figura “encarregada da continuidade e conclusão de narrativas seriadas em caso de algum infortúnio ocorrido durante a atividade laboral do escritor com contrato em vigência”. A manipulação da literatura de massa, fundamental para o andamento da narrativa de Ademir/Carlos, parte da popularidade do folhetim e acrescenta um elemento a mais ou o principal na charada proposta pelo texto, que a epígrafe de Otto Lara Resende sintetiza: “Se eu não escrevesse já tinha desaparecido”.
Se o escritor escreve para não desaparecer, ou melhor, para saber o que é literatura, segundo Ricardo Piglia, o enigma a ser desvendado, no caso de “O escutador”, é sua própria elaboração, que o leitor/escutador acompanha passo a passo e da qual, durante o andamento da escrita, se constitui como “cúmplice”. Nesse sentido, as inúmeras notas ao texto, ora da editora Virgínia Lemos, ora de Carlos Marcelo, atuam como sinalizadores que põem a nu e complementam as estratégias discursivas utilizadas: um guia de leitura que abre vias inusitadas de sentido em vez de reduzi-las ou demarcá-las com precisão. São como ruídos comunicativos que passam a fazer parte fundamental da identidade de quem “vive das histórias dos outros” e faz delas sua im/própria história, o que leva o narrador da redação do jornal ao manicômio, numa escolha consentida, mas que se revela, enfim, imprevisível nas suas consequências.
Assim posto, o “pequeno e perturbador livro” mistura testemunho e ficção cuja dose o leitor não é capaz de precisar com exatidão – eis a cartada decisiva do jogo literário, que se torna a “memória fabulosa (e fabular)” da cidade dos escritores, então submetida a um poder de generalização muito além de seu espaço de circunscrição. Atribuições falsas de autoria e livros inexistentes, à maneira de Borges, contribuem para incrementar movimentos inesperados de sentido que realçam a autonomia discursiva da literatura e fazem surgir novos parâmetros de leitura.
Tramas e personagens, como nos melhores livros de “mistério, faroeste e ficção científica”, aguçam a expectativa do leitor em relação ao “crime” a ser desvendado, mas ao mesmo tempo adiam sua solução, em virtude da performance literária que assume o primeiro plano narrativo. À maneira de “O amanuense Belmiro” (1937), de Cyro dos Anjos, do qual se aproxima ao considerar a vida como literatura, “O escutador” vai mais além ao fazer da hipertrofia do literário sua razão de ser como objeto artístico.
A tarefa principal do escutador se resolve, então, por meio de um acréscimo ou suplemento a uma ou várias narrativas anteriores, como forma de compartilhar a formação ativa de significados e não a recepção passiva deles. Estabelece uma outra ordem de escrita reticular, aberta ao outro como sua condição de possibilidade e de realização efetiva. Ao levar adiante com grande perícia sua proposição, “O escutador” estende ao máximo os limites da expressão literária e se afirma como uma das mais instigantes realizações da literatura brasileira atual.
“O escutador”
De Carlos Marcelo
216 páginas
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