“Sei que há muito mais livros no mundo do que poderemos ler numa vida intensamente dedicada aos estudos literários”, reconhece Roberto Taddei na introdução de seu mais recente livro, “Ser escritor: liberdade e consciência na criação literária” (Companhia das Letras). “Mas o que precisamos, acima de tudo, é de mais textos autorais (...). Se um país conta poucos autores e autoras, haverá necessariamente poucos leitores e um número proporcional de intermediários”, garante o escritor, tradutor e jornalista paulistano, coordenador da pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, em São Paulo.

Valioso estudo dos percursos da criação literária, “Ser escritor” inclui análises de textos de Virginia Woolf, Anton Tchékhov, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Alice Munro, J.M Coetzee e dos brasileiros Clarice Lispector, Geovani Martins e Cidinha da Silva. Os exemplos reforçam as ideias desenvolvidas em capítulos elaborados a partir de três pontos que o autor explora: liberdade criativa, consciência sobre a escrita e autonomia literária. “Este livro tem como propósito tornar a escrita e a leitura processos mais conscientes e menos solitário”, resume Taddei.

Autor de ótimos romances – o mais recente é “A segunda morte” (2013), Taddei não interrompeu a produção ficcional para finalizar “Ser escritor”. Desenvolveu contos e trabalha em um novo romance. “Não consigo ficar sem a experiência da escrita de ficção”, revela. “Negociar a linguagem e os sentidos nessa experiência contínua da escrita ficcional, na construção de mundos temporários possíveis, é um prazer difícil de explicar. Um prazer que, espero, permaneça de alguma maneira no texto final. O que experimentei com a escrita de ‘Ser escritor’ foi o contrário: mais vontade de continuar escrevendo não-ficção”, complementa. Leia, a seguir, a entrevista de Roberto Taddei ao Pensar do Estado de Minas.

Qual o propósito de “Ser escritor”?

O Brasil precisa de mais escritores. Temos hoje cerca de 30 milhões de pessoas com graduação completa, por exemplo. Um público que, em princípio, deveria ser de leitores. É, com alguma liberdade, mais ou menos o que a Alemanha, a França, a Espanha têm de leitores, só para comparar países com mercados editoriais literários muito mais fortes do que o nosso. Não é pouco. É uma comparação de números diferentes, eu sei. Mas chama a atenção para o tamanho do nosso potencial. Mesmo tendo um público leitor maior do que esses países, o mercado de literatura brasileira é ainda muito pequeno. Temos no Brasil muito menos escritores por habitante do que qualquer país da Europa, do que os Estados Unidos. O resultado é que vendemos poucos livros de autores nacionais, e uma parte significativa do esforço de formação de leitores feito no Brasil acaba servindo aos interesses de editoras estrangeiras, que vendem seus catálogos para tradução por aqui. Dependendo do recorte, o percentual de livros traduzidos no Brasil chega a mais de 70%. Nos Estados Unidos, não passa dos 3%. É uma proporção, não um número absoluto, e é claro que precisamos de todas as traduções que conseguirmos publicar por aqui. Mas a pergunta que não me canso de fazer é: não há escritores brasileiros suficientes para atender à demanda interna? Por que, dos nossos quase 30 milhões de graduados, pouquíssimos leem ficção brasileira? Numa conta por alto, poderíamos dizer que o Brasil tem dez vezes menos escritores por habitante do que a Grã-Bretanha. Essa proporção importa, se quisermos ter um ecossistema literário saudável. Não basta formar mais leitores. Precisamos formar mais escritores. 

Esse é um dos motivos pelos quais escrevi este livro. Sei o quanto é difícil tornar-se escritor neste país, onde tudo age contra quem quer escrever. Falta acesso à cultura, falta tempo livre, falta espaço para criação, falta incentivo e recompensa, falta biblioteca com acervos atualizados e disponíveis. O resultado é que depositamos nos esforços individuais as chances de sairmos do lugar em termos de produção literária, em imaginação do futuro, em construção de narrativas possíveis. E como o país não ajuda, estamos sempre lutando contra forças muito poderosas, mercados muito mais ricos e estruturados. Renovamos sempre a nossa dependência de narrativas que chegam de fora. Nesse sentido, continuamos colonizados. Queria que este livro contribuísse, de alguma forma, para mudar esse desequilíbrio.

Uma das encarnações mais perniciosas desse desequilíbrio aparece em duas frases que cansei de ouvir, em mesas-redondas, em entrevistas, de ler em prefácios, e até na boca de gente famosa: “não se pode ensinar a escrever” e “para escrever é preciso ter talento”. Como aprendi a escrever, e aprendi sobretudo com a ajuda de professores e professoras, senti que precisava oferecer este livro como resposta. É um preconceito que está em todo lugar, inclusive na universidade, sobretudo na universidade pública. Uma coisa muito arraigada, tratada como verdade, e que não passa de um preconceito filosófico de origem muito antiga, repetido ao longo dos séculos: Platão, Horácio, Kant, muita gente. Com honrosas exceções, a história da filosofia ocidental é a história da desautorização dos escritores, de Sócrates e Platão até os dias de hoje. Valoriza-se o texto produzido pelos escritores, mas não se sabe o que fazer com os autores. Daí que é mais fácil dizer que não se pode ensinar, ou que é preciso talento.

Por que liberdade e consciência são essenciais para a criação literária?

Liberdade para fazer o que se quer. Consciência para saber que o que se faz é bom, tem valor, e não precisa ser reconhecido, fazer sucesso ou vender para se provar bom. Esse binômio garante uma coisa: independência e relevância. O que significa autonomia para o escritor, a possibilidade de produzir uma obra íntegra, que não fique tentando agradar os humores do mercado e do público.

Ao longo da história ocidental, muita gente tentou dizer o que era necessário para a criação literária. Horácio falava em engenho e arte. Platão, em inspiração divina e loucura. T.S. Eliot, em tradição e talento individual. Eu proponho um binômio mais acolhedor. A diferença é que, em todas as propostas anteriores, quem julgava se o escritor tinha talento, engenho, arte, se era ou não inspirado, era sempre um outro: um leitor, um crítico, um juiz, um imperador. Na minha proposta, liberdade e consciência só podem ser determinadas pelo próprio autor, pelo escritor que está criando sua obra. É uma proposta, portanto, de independência. Mas não de rebeldia. Uma independência que não é revolta, é consciência. E que se dá em diálogo com a tradição.

Por que considera falha a afirmação “não se pode ensinar a escrever”?

Essa frase é errada em todas as acepções possíveis. A escrita nunca foi uma capacidade inata do ser humano. Pegue um bebê e o largue na selva, criado por lobos. Ele nunca produzirá uma linha. Nem mesmo se for o Goethe. A escrita é um longo processo de aprendizagem. E uma aprendizagem que não acaba nunca.

O processo de ensino depende de muitas coisas, não apenas da relação entre aluno e professor. Aprende-se com os colegas, com os livros. Tudo é aprendizagem. Quem usa essa frase, no geral, o faz por má-fé ou por ignorância. Por má-fé, quando não quer dividir espaço com mais escritores, quer manter o privilégio de ser escritor num país com tão poucos escritores como o Brasil. Por ignorância, quando desconhece os processos pedagógicos por trás do ensino de escrita, questões já muito bem consolidadas na pedagogia, onde esse tipo de afirmação é descabida.

Agora, o que o senso comum costuma atribuir à frase é algo um pouco mais complexo. Entende-se "não se pode ensinar a escrever" como se ensinar a escrever significasse ensinar a ter sucesso, a ter público, a ser uma unanimidade, a ser, para usar um termo que Kant adorava, um gênio. Mas esquecemos de dizer que isso não está à disposição de ninguém em nenhuma área. Quantos engenheiros são formados nas universidades todos os anos no mundo, e quantos deles são mundialmente famosos? Quantos arquitetos trabalhando em escritórios ao redor do mundo, todos formados em universidades, e quantos deles são geniais? Isso se aplica a qualquer profissão, artística ou não. O motivo é que o sucesso e a identificação da suposta "genialidade" dependem das dinâmicas de um público que é imenso, disforme, de humores flutuantes. É um organismo incontrolável.

Muita gente se perde nessa história. Desperdiça uma vida de trabalho e dedicação à arte em troca de reconhecimento efêmero. O mínimo que deveríamos esperar de escritores e artistas com reconhecimento público é a humildade de dizer que, sim, escrever se aprende. Não dá para um escritor famoso vir a público dizer que é preciso ter talento para escrever. Isto é, dizer publicamente que ele tem talento e os outros, que não conseguem ser escritores, não têm. É muita falta de consciência social, para dizer o mínimo, fazer isso num país como o Brasil, onde pouca gente tem acesso a uma educação de qualidade. Escrever se aprende, sim. O resto é sorte. Ou estatística. Quanto mais gente escrevendo, ensinando e aprendendo a escrever, maiores são as chances desse tipo de escritor despontar aqui e ali. É assim que funciona em qualquer outra área do conhecimento ou da expressão humana, do futebol à música erudita, do balé à engenharia.

Como obras de Virginia Woolf e Clarice Lispector contribuíram para as suas reflexões a respeito do fazer literário?

Virginia Woolf é um exemplo interessante para hoje. Ela lutou muito para ser uma escritora reconhecida no início do século passado na Inglaterra. Tinha que lidar com as restrições impostas às mulheres na sua época. Não pôde frequentar a universidade, como queria, por exemplo. E produzia uma literatura radical para o gosto da época. Ela então trabalhou ativamente para formar seu público, escrevendo ensaios e publicando em jornais com bastante frequência, isso enquanto escrevia romances em que fazia muito poucas concessões aos leitores. Já Clarice Lispector é interessante de trabalhar por outro motivo. Nossa percepção mais disseminada no Brasil com relação a ela, hoje em dia, é que era uma escritora muito intuitiva e que seus textos eram sempre pessoais, mesmo quando ela escrevia ficção. Ao analisar sua obra, conseguimos perceber quão consciente ela era, como sabia o que estava fazendo, e como não precisamos conhecer nada a respeito dela para vivermos seus textos. Ela constrói o próprio universo literário com bastante integridade e liberdade. Há um risco enorme no que ela faz, o risco de não conseguir completar um trabalho, de não fazer sentido, de produzir uma obra que não pare de pé, como se diz. E ela consegue esse feito com tudo aquilo que aprendeu, nas escolas que frequentou, nas trocas com seus amigos escritores e escritoras, nas leituras que fazia. Assim como Virginia Woolf, a educação literária das duas se deu em ambientes não formais. E as duas são escritoras muito técnicas, com livros em que achamos que estão completamente perdidas nas flutuações das histórias e na vida das personagens, mas que, quando paramos para analisar, percebemos o controle nas minúcias, em cada detalhe do texto. São, portanto, casos exemplares não de textos, isto é, modelos que devamos copiar, mas sim exemplos de escritoras que sabiam o que estavam fazendo.

Você também analisa contos de Cidinha da Silva. O que se destaca no universo ficcional da escritora mineira?

Não posso falar da obra da Cidinha da Silva como um todo. É uma obra muito vasta, e não é meu interesse no livro fazer crítica literária. O que faço é analisar um conto do livro “Um Exu em Nova York”, que considero um conto muito bem resolvido e que se compara, em termos técnicos e também literários, aos demais contos que discuto no livro. Nele, Cidinha da Silva consegue criar um universo ficcional que hoje em dia a crítica e a leitura tendem a associar a questões identitárias ou pedagógicas, como se fosse um texto que pretendesse ensinar algo aos leitores, ou que fosse “sobre” um certo tema. Mas o que vejo em Cidinha da Silva não é isso. Seu conto é apenas um grande conto, com a história de uma personagem íntegra, que vive um arranjo peculiar de vida e não negocia sua personalidade com valores que não são os seus. É uma personagem que navega pelo mundo com recursos particulares, construídos na sua relação com uma religiosidade de matriz africana. E a maneira como Cidinha da Silva constrói isso no texto é maravilhosa, nos faz perceber como esse modo de viver é tão real quanto qualquer outro. O resultado é um espanto. Desloca nossa percepção do que é o ser humano, aqui, no Brasil, ou em Nova York. Tento mostrar, no livro, como Cidinha da Silva faz isso com consciência. Espero ter conseguido.

“A literatura talvez seja o campo dos conhecimentos e expressões humanas que menos se alterou ao longo dos últimos 2 mil anos.” E no século 21, quais as alterações mais expressivas que a literatura tem enfrentado?

Se em termos brasileiros o cenário é sempre de urgência, em termos da literatura como prática a estabilidade é o que mais impressiona. Não tenho visto muitas alterações expressivas na literatura no século 21. A menos que se possa considerar como expressiva uma volta às grandes narrativas do século 19, o que é também algo cíclico, e que ocorreu em outros momentos da história ocidental, como nos romances de cavalaria, no círculo arturiano, e em outros períodos. Esses ciclos são entrecortados por questionamentos da narrativa grandiosa, por experiências de linguagem e de forma, por metanarrativas, por reflexões e experimentações. Há quem veja os dois ciclos correndo lado a lado na história ocidental, uma vertente associada a narrativas edificantes, outra associada a histórias de picardia, que questionam a ordem dominante. Desse modo, não há muita diferença nos dias de hoje. Até mesmo os discursos catastrofistas sobre o fim da literatura, o fim do romance, tudo isso já aconteceu inúmeras vezes na história ocidental. Os suportes e meios de disseminação da literatura mudaram radicalmente algumas vezes nos últimos três mil anos: da oralidade aos rolos, depois aos códices, depois ao livro impresso, depois aos livros digitais, e agora aos audiolivros. E também não mudou o esforço necessário que as sociedades precisam despender para a formação de escritores e leitores. Pelo menos desde a Atenas da antiguidade isso é marcante como símbolo de civilização no Ocidente, a capacidade de uma sociedade de formar artistas e escritores. Acho que o risco é achar que tudo mudou e que pode ser diferente. O risco de achar que o audiovisual, a inteligência artificial e os celulares poderão ocupar o lugar dos livros nas sociedades quando falamos da construção e circulação de narrativas. O risco de, quando percebermos, já ser tarde demais, e uma ou duas gerações se verem desconectadas da literatura. Mas, se pensarmos bem, nem mesmo isso é novidade. Ao longo da Idade Média, dezenas de gerações viveram sem isso, e nem assim a literatura morreu. A “Odisseia” continua aí até hoje. Mas não podemos ser ingênuos. Porque, quando falamos de literatura, é comum pensarmos na espécie humana como um todo. Mas devíamos pensar melhor em termos nacionais ou linguísticos. É preciso fomentar a escrita literária em português. Sobretudo no português utilizado no país, em todas as regiões. Não podemos esperar que os norte-americanos ou europeus resolvam o problema dos livros e da inteligência artificial, enquanto ficamos aqui lendo nas revistas literárias estrangeiras o que eles estão propondo. Temos que fazer nossa parte. Construir nossos e novos caminhos. Entrar nessa disputa. Se não, estaremos sempre atrasados.

Você afirma que o mundo em que vivemos pode ter se tornado 'borgiano'. Quais as evidências ou sintomas que o levam a fazer essa hipótese?

Até muito pouco tempo atrás, ainda insistíamos na distinção entre realidade e fantasia, entre verdade e mentira. Depois passamos a viver no que veio a se chamar de pós-verdade. O desafio que se coloca à nossa frente é diferente. É um desafio que já tinha sido enfrentado por Borges de maneira literária, e de maneira muito distinta do que tinha sido feito na tradição europeia do século 19, como em Flaubert e Mallarmé. Temos que lidar não com a necessidade de distinção entre uma coisa e outra, entre real e fantasia, entre o mundo material empírico e o mundo das palavras. O que precisamos é encontrar maneiras de navegar pelo mundo sensível e pelo mundo narrativo sem nos perdermos no meio do caminho. E a melhor maneira de fazer isso me parece, de novo com Borges, aceitar que não há distinção radical entre uma coisa e outra. O conto que discuto no livro, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, é um texto em que isso já se dava, em 1941. Ali, não há distinção entre real e fantástico. O conto nos faz experimentar isso, o que é muito mais forte do que simplesmente “entender” isso. Pode parecer um absurdo o que vou dizer, mas precisamos aprender a lidar com o fato de que uma mentira, em alguns casos, também pode ser uma verdade.

O que o incomoda na generalização “hoje em dia há mais escritores do que leitores no mundo”? Precisamos de mais escritores?

Nosso sistema de ensino, desde o início das escolas no Brasil, com os jesuítas, sempre proclamou a formação de indivíduos que pudessem pertencer a uma comunidade leitora. É assim que se entendeu o ensino da leitura e da escrita no Brasil colônia, e que depois se renovou no Império e, por fim, na República, quando se ampliou esse grupo para as pessoas que antes eram proibidas de estudar, como as mulheres e a população escravizada. Hoje todos podem ler. Mas muito poucos podem escrever. Não formamos escritores, que podem dizer o que pensam, que podem publicar, circular suas ideias, criar novos mundos. As escolas e o governo, até pouco tempo atrás, insistiam na formação de leitores, de mediadores, na criação de bibliotecas. Mas ninguém pensava na formação sistemática de escritores como política pública. Isso começou a mudar, ainda de maneira tímida, nos últimos anos, com o avanço dos cursos de escrita no país. Hoje são mais de uma dezena de cursos de pós-graduação em escrita criativa, mais de uma centena de cursos livres espalhados pelo Brasil. E os alunos em muitas universidades públicas brasileiras pressionam os departamentos pedindo pelo aumento na oferta de cursos de escrita. Mesmo que essa mudança seja ainda tímida num país das proporções do Brasil, já foi suficiente para que algumas pessoas identificadas com as antigas classes dominantes brasileiras começassem a dizer que há mais escritores no país do que leitores. Isso é ranço de classe, de quem quer que os subalternos sejam capazes apenas de ler o que a classe dominante escreve. Não mais. É o que desejo para o futuro do Brasil.

Por que afirma que, para se tornar escritor, é preciso atingir o que chama de “liberdade mental”? Como alcançá-la?

O que importa para a tarefa de se tornar escritor não é escrever como fulano ou sicrana, não é se aproximar de um modelo apresentado por algum professor ou crítico. Tornar-se escritor significa utilizar a linguagem de maneira muito pessoal e particular para tratar de um mundo comum a todos. E a única maneira de fazer isso é permitindo-se habitar o mundo com liberdade mental, mesmo quando as outras liberdades nos são tolhidas. É uma provocação que retomo de Virginia Woolf, a ideia de ver o mundo como ele é, de se permitir olhar para tudo e se perguntar novamente, como se fosse uma primeira vez: gosto desse livro, ou não? E desse quadro, gosto dele, ou não? E por quê? Essas perguntas, se forem sinceras e não performativas, colocam em movimento nossa relação com o mundo, uma relação que é constituída pela linguagem. A consequência disso é nos tornarmos autores, é o início de um movimento de emancipação. E esse movimento vai exigir de nós preparação, estudo, leitura, relação com a história, com a tradição e toda uma série de passos fundamentais para o trabalho da escrita. Se vamos ou não escrever e publicar, isso é um desdobramento de tudo o que vem antes, que pode ou não ocorrer, e que vai depender de outras questões, muitas delas materiais.

Poderia dar exemplos de como a afirmação “é impossível ensinar a escrever” é desmentida em sua atividade como coordenador da pós-graduação Formação de Escritores?

Essa frase revela a ignorância pedagógica de quem a pronuncia. E uma certa soberba também. Há uma infinidade de profissionais, escritores e pedagogos, que dedicam seus dias e suas vidas ao ensino da escrita, não apenas no Brasil, mas em todos os cantos do mundo. Como alguém pode considerar justificável desdenhar de todos esses profissionais só porque leu isso em algum lugar? Ou só porque não consegue escrever e se defende dizendo ser impossível ensinar e aprender? Por que não dizem isso sobre jogar tênis? Sobre qualquer outro saber? Há quem diga isso porque, no limite, não sabe ensinar. Digo isso no livro: um mau professor não inviabiliza toda uma matéria humana. Está mais do que na hora de deixar isso de lado, levar o ensino da escrita a sério, e aprender com quem está há décadas pensando nisso, fazendo pesquisas e praticando a sério. O que fazemos na pós-graduação Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz é exatamente isso: estudamos as melhores práticas e reflexões sobre o ensino, e tentamos reproduzi-las. É um campo fascinante, em que aprendemos constantemente com os alunos. E também muito desafiador, porque temos sempre que lembrar a nós mesmos que ensinar a escrever não significa ensinar o que os alunos devem escrever, mas sim ensinar como eles podem escrever aquilo que querem escrever. Às vezes precisamos ajudá-los primeiro a descobrir o que querem escrever. Precisamos ajudá-los a se livrar de um peso normativo que foi imposto a eles desde os primeiros anos da escola.

“O século 20 dificultou muito nosso trabalho, mas também o tornou irresistível”. E quais dificuldades têm sido impostas pelo século 21?

Falo aqui especificamente da escrita de prosa. Até o século 20, ao menos na literatura ocidental, não havia uma profusão organizada de pensamento e reflexão crítica sobre a linguagem e a escrita, como a que veio a se constituir a partir dos anos 1900. Por um lado, a linguística e a teoria narrativa estruturaram o que antes era disperso e se transmitia entre escritores de maneira pouco regular: questões sobre gêneros, sobre narradores, sobre linguagem, ritmo, espaço, personagens. Tudo isso foi abordado e organizado no século 20. Por outro lado, vimos como outras ciências humanas se debruçaram sobre a literatura e procuraram explicá-la, esmiuçá-la, e tomá-la como exemplo de diversas experiências humanas. Isso ocorreu na etnologia, na antropologia, nas ciências sociais, na filosofia, na psicanálise. E tudo isso apenas no século 20. Alguém que nasceu no ano 2001, por exemplo, e que queira escrever hoje, precisa saber disso tudo. Pode até parecer a esse jovem escritor que tudo o que ocorreu no século 20 é antigo e ultrapassado. Mas não, ainda vivemos sob esse regime intelectual. Mesmo que tenhamos momentaneamente voltado a atenção para as grandes narrativas como eram as do século 19, o fazemos agora sem perder a consciência do século 20. É uma grande exigência para quem quer escrever. Mas também uma grande sedução. Pois o que todas as ciências demonstraram ao longo do último século é que, no final das contas, a literatura é a grande obra humana, onde tudo é possível. O difícil, o desafio do nosso século, é voltar a escrever com liberdade, sem as amarras intelectuais do século passado, mas com a consciência que o século 20 proporcionou.

Como alguém se torna um escritor ou escritora, afinal? O que nos faz escritor ou escritora?

Bem, foram necessários trinta anos de estudos, de vida, de leitura, e de prática de escrita. E, depois disso tudo, precisei ainda de muitos anos de sala de aula, e mais alguns para escrever esse livro onde trato desse assunto. Trairia meu próprio esforço se conseguisse resumir em poucas linhas o que nos faz escritor ou escritora. O que posso dizer aqui é que é possível, para qualquer pessoa, tornar-se um escritor ou escritora. E que o caminho para isso é, em boa parte, particular, porque nossa relação com a linguagem é extremamente particular, desde os primeiros meses de vida, desde o berço. Todos os acidentes e eventos da vida, portanto, vão concorrer para nos tornarmos singulares. Mas, por outro lado, outra parte significativa do caminho é comum. Não apenas porque falamos o mesmo idioma num mesmo país, mas também porque somos da mesma espécie. E vivemos um mesmo tempo histórico. Temos corpos semelhantes. Assim, é preciso muita atenção para não confundir o que é comum com o que é individual e pessoal. E o que sabemos é que isso se constitui no tempo e na prática. É preciso viver, estudar e escrever. No livro, trato do estudar e do escrever. Mas, para não tentar transformar o meu percurso num "modelo", num estudo de caso, preferi me debruçar sobre os textos de outros autores e autoras, e tentar desvendar, por meio deles, indícios de que esses escritores estudaram, e muito. O restante, a vida e a escrita, fica implícito, mas não é menos importante, porque quando chegamos aos textos desses escritores, as duas coisas já se deram. A questão é complexa e a simplificação dela é que leva a afirmações preguiçosas sobre a impossibilidade de se ensinar a escrita literária.

Depois de “Ser escritor”, se sentiu mais estimulado para voltar a escrever ficção?

Nunca parei de escrever ficção. Não consigo ficar sem a experiência da escrita de ficção. Negociar a linguagem e os sentidos nessa experiência contínua da escrita ficcional, na construção de mundos temporários possíveis, é um prazer difícil de explicar. Um prazer que, espero, permaneça de alguma maneira no texto final. Fiquei esses últimos anos trabalhando em contos. E também num projeto de romance que vai amadurecendo aos poucos. O que experimentei com a escrita de “Ser escritor” foi o contrário: mais vontade de continuar escrevendo não-ficção.

“Ser escritor – liberdade e consciência na criação literária”

De Roberto Taddei

Companhia das Letras

208 páginas

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