“Acreditar nas feras” 

depois de Nastassja Martin 

enquanto mordia minha cara 
vi a escuridão da sua boca 

sem poder penetrar o túnel 
estreito 
e misturar-me 

como Jonas, dentro da baleia 
o animal é a extensão do oceano 

uma fera é também questão de proporção 
e densidade 

um urso que me engolisse seria
 uma fuga temporária 

como Jonas, conhecer o recuo 

diferente da mandíbula do urso 
que se fecha sobre a minha 
dente por dente 

antes deste golpe de faca 
que a rasga novamente 
em grito 

e ele pensa na baleia 
que não sabe de Jonas, mas o retém 
flutuar pelo mundo inconsciente 
das presas que evoca 

apenas abrir a boca

“Batismo” 


Favos elásticos decoram a parte superior do vestido. 

A técnica de bordado desenha pequenas células 
                                                  minúsculos corações 
                   que esticam e voltam 


                 a menina veste sua primeira colmeia 

Abelhinha que zumbe na igreja 

                                     derruba as flores 

confunde os anjos de pedra 

Vai integrar a grande comunidade dos homens 
               que creem e temem 
                           será parte do enxame 

Pequena abelha que ignora, ainda, o trabalho 
que é tramar a própria casa 

para depois purgá-la: 
ungida em mel e em néctar, 
brinca, por enquanto 
zumbe 
junto ao coro 

O mel escorre 
mancha o vestido 
preenche os alvéolos 
            brancos 
          doceamargo 
               inunda tudo

“Outra geometria”  

a partir de Brígida Baltar  

Não espero a chegada da caixa de abelhas. 

O apiário que agora invento, nasce em meu corpo. 
É ele que ofereço como vácuo 

fabrico novas celas e úteros, atraio as abelhas 
que partem em direção ao futuro. 

Sou a colmeia, tateio o que há dentro 
(secreto o mel da ficção de uma casa) 
sinto o ruído branco na vibração dos músculos 

              cada vez mais imóvel: árvore 
                              ossos, flores e mel

“Céu submerso” 


Vira-se para a luz, 
girassol noturno 
mas sabe, persegue estrelas mortas 
que enfrentam a escuridão 
até ela 
reverberar um passado 
anterior à Terra, olha para si 

talvez também seja reflexo 
de algo que já se extinguiu 
ou a origem 
de outra coisa nebulosa 
que vai atravessar 
gerações de humanos 
              e de constelações 

suas pétalas-fantasmas 
o céu é uma composição de tempos: 
corpos extintos, 
sol que se estende na lua futura. 

A luz reaparecerá em algumas horas. 
Olho o relógio, outra estrela se afoga. 

Antes, lança-se para a frente, 
até algum homem distante 
anos-luz de você, de mim 

ele olha o céu. 
Olha para este dia 
como olhamos os primeiros.

SOBRE A AUTORA E O LIVRO


Nascida em 1979 em Belo Horizonte, Mônica de Aquino (foto) publicou os livros “Sístole” (Bem-Te-Vi), “Fundo falso” (Relicário, vencedor do prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2013 e finalista do Jabuti de 2019), “Continuar a nascer” (Relicário) e “Linha, labirinto” (Macondo). Sobre “Tomar parte do enxame”, dividido em quatro seções e integrante da coleção Círculo de Poemas, a autora revela: “Os primeiros poemas deste livro começaram a ser escritos em 2020, dentro das oficinas dos poetas Dirceu Villa e Carlito Azevedo. Agradeço aos dois pelas trocas e pelo espaço tão importante quando estávamos isolados – e a poesia, mais do que nunca, era um caminho de encontro.”

“Tomar parte no enxame”

De Mônica de Aquino 
Círculo de Poemas
104 páginas
R$ 74,90
Lançamento em Belo Horizonte no dia 12 de setembro (sábado), às 11h, na Livraria Quixote.
 
 
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