Rafael Fava Belúzio - Especial para o Estado de Minas

Ana Elisa Ribeiro publica de uma só vez três livros de poemas. Reafirma sua estética da multiplicidade. Instruções de objetos, memórias afetivas e conversas sobre arquitetura alargam uma poética de linguagens variadas, que segue abrindo frestas por onde se alastrar.

No tríptico recente está “Não utilizar em pessoas sensíveis” (Editora Impressões de Minas). Apresentando estilo incomum e capaz de arejar ainda mais o percurso da artista, conta com posfácio de Leonardo Villa-Forte. O pesquisador é também autor do estudo “Escrever sem escrever: literatura e apropriação no século XXI” e não é ocasional o diálogo. “Não utilizar em pessoas sensíveis” realiza apropriações na trilha do “ready-made” e lembra debates filosóficos de Arthur Danto, Morris Weitz e George Dickie. Ana Elisa Ribeiro transforma em poemas certas frases de instruções presentes em determinados objetos. Não se trata de textos em que já tenha havido uma intenção poética: são mensagens supostamente funcionais convertidas em poesia.

Algo bastante diferente de “Vaga memória” (Editora Peirópolis). Esse volume pertence à coleção Biblioteca Madrinha Lua, dedicada a obras de poetas brasileiras contemporâneas e coordenada pela própria Ana E. O nome da coleção, ademais, retoma o trabalho de Henriqueta Lisboa; “Vaga memória” revisita o título “Vaga música”, de Cecília Meireles; o prefácio do livro contém reflexões da escritora Mariana Ianelli. Além de associar tais cânones, o tomo está dividido em três seções: “Primeiras décadas” (arquivo marcado por lembranças pessoais, líricos rastrinhos de cristal refinado), “Entrevistas breves” (textos muito dialógicos, cenas domésticas) e “Negativos” (quando a temática ribeiriana da fotografia ganha novos clics).

Já “Instruções para arquitetos: poemas-conversa” (Editora Moinhos) reúne poemas compostos pela belo-horizontina Ana Elisa Ribeiro quando a carioca-mineira Flávia de Queiroz compartilhava com ela versos recém-produzidos. Assim, o leitor tem acesso a uma correspondência fragmentada, tapeçaria alinhavada a intervalos. Notícias imprecisas, fique sabendo. Espécies de ensaios, essas cartas não remetidas a uma amiga. No lugar do poema-piada oswaldiano, o poema-conversa composto anaelisaribeiramente. A orelha do livro – outra forma de edificar tradições – é construída pela poeta e arquiteta Alícia Duarte Penna.

Nessas articulações com os cânones, Ana Elisa Ribeiro vai se consolidando na poesia brasileira contemporânea. Estreia com “Poesinha” (1997) e depois saem “Perversa” (2002), “Fresta por onde olhar” (2008) e “Anzol de pescar infernos” (2013). Desde as safras iniciais, há diálogos com os modernismos, a exemplo dos tons cotidianos de Bandeira e telegráficos de Oswald, bem como há recusas de estéticas masculinas do século 10. A influência dos anos 1960 e 1970 também é densa, especialmente traços de Ana Cristina Cesar, Chico Alvim e Paulo Leminski.

Com “Xadrez” (2015), o ritmo regular dos lançamentos fica em xeque e o projeto literário da mineira diversifica mais sua poética de sete faces. Por sinal, a partir de “Álbum” (2018) e “Dicionário de imprecisões” (2019), ocorre uma virada arquivística, incrementando nuances na trajetória. Aliás, Ana E parece, aqui e ali, se afastar e ironizar a poesia só lâmina de João Cabral, como se vê sobretudo em “Menos ainda” (2022), e preferir as “Luvas de pelica” de Ana C. Seguindo esse prisma, a tradição Ana C/Ana E encontra ecos em escritoras brasileiras muito ligadas ao contexto pós-2013, marcadas por um feminismo intenso, notável em Adriane Garcia, Lubi Prates e Tatiana Nascimento.

Emblematicamente, Ana Elisa Ribeiro é autora de “O ar de uma teimosia: trilhas da publicação em Clarice Lispector, Lúcia Machado de Almeida e Henriqueta Lisboa” (2020). Tal estudo aborda caminhos editoriais dessas literatas, dificuldades e insistências delas para que tenham um lugar ao sol, ou um brilho da Madrinha Lua. Portanto, ao virem a lume três obras ao mesmo tempo, a escritora demonstra o seu próprio ar teimoso vital. Ana E abre frestas estético-políticas entre as trincheiras editoriais visando também arquitetar memórias sobre mulheres sensíveis e incríveis.

RAFAEL FAVA BELÚZIO é doutor em Estudos Literários (UFMG), com graduações em Letras (UFV) e Filosofia (UFMG). Publicou o ensaio “Quatro clics em Paulo Leminski” (Ed. UFPR, 2024) e plaquetes de poemas. É pesquisador pós-doc FAPES/IFES.

“Não utilizar em pessoas sensíveis” 

De Ana Elisa Ribeiro

Editora Impressões de Minas

Lançamento neste sábado (22/8), das 16h às 19h, no Espaço Impressões (Rua Bueno Brandão, 80, Floresta, BH)

“Vaga memória”

De Ana Elisa Ribeiro

Editora Peirópolis

80 páginas

R$ 58

“Instruções para arquitetos: poemas-conversa”

De Ana Elisa Ribeiro

Editora Moinhos

96 páginas

R$ 58,50

Poemas

De “Não utilizar em pessoas sensíveis”

antes de manusear, 

leia a embalagem 

atentamente

fure o plástico

para não acumular

ar quente 

abra a caixa 

[preferencialmente] 

pelo picote 

*

despeje o conteúdo

em água fria 

e mexa(-se) sem parar

*

De “Vaga memória”

Troca

mãe, por que o pai

te trata assim?

assim como, filho?

assim, tão mal, mãe.

é por que às vezes, filho…

mãe, me ouve:

troca de pai.

*

De “Instruções para arquitetos: poemas-conversa”

Drummond visionário

As poetas nacionais

nem sequer se ocupam de saber os nomes

das poetas municipais.

As feministas avisaram

que seria assim, Flávia?

As poetas estaduais estão

a meio caminho entre

as antologias e os livros de capa dura.

As sociólogas da literatura

eram bem mais otimistas.

Onde estamos, querida amiga,

que não nos encontramos

nos saraus da periferia,

nem nos salões da zona sul?

Era importante estar nos livros,

passando pelas mãos

de leitores ávidos, coisa quase

impossível para a poesia,

dizem os editores seletivos.

Mande uma carta para

a poeta internacional, Flávia.

Talvez ela nem sequer

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

entenda mais a nossa língua.

compartilhe