Em 1932, quando terminou de escrever “S. Bernardo”, Graciliano Ramos (1892-1953) enviou uma carta à esposa, Heloísa. “Quem sabe daqui a trezentos anos eu não serei um clássico?”, perguntou. Não era pedantismo, bazófia ou excesso de soberba. Pelo contrário, havia ali uma ironia típica do escritor, que frequentemente desqualificava as próprias obras, chamando-as de “porcarias”, “drogas” ou “desgraças”, conforme registra o professor e escritor Wander Melo Miranda na biografia “Graciliano Ramos – Vida e obra”, da Companhia das Letras. Neste sábado (22/8), às 11h, haverá lançamento em BH na Livraria Quixote.
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Aos 74 anos, Wander é um dos principais especialistas na obra de Graciliano Ramos no Brasil, tendo supervisionado o projeto de reedição da obra do escritor alagoano pela editora Record. Foi diretor da Editora UFMG entre 2000 e 2015 e coordenador do projeto de pesquisa Acervo de Escritores Mineiros.
É professor emérito da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro da Academia Mineira de Letras. Publicou “Corpos escritos” (Edusp, 1992), sobre a obra de Graciliano Ramos e de Silviano Santiago, “Nações literárias” (Ateliê Editorial, 2010) e “Os olhos de Diadorim e outros ensaios” (Cepe Editora, 2019).
Em seu novo livro, Wander apresenta Graciliano como homem metódico, perfeccionista, justo, coerente e dono de um humor refinado, embora tenha ficado conhecido pela aparência carrancuda. Alguns episódios, contudo, ajudam a desmontar o senso comum sobre seu temperamento. Certa vez, foi engraxar os sapatos. O engraxate, sentado aos seus pés, perguntou: “E aí, amizade, qual é a novidade?”. Sério, Graciliano respondeu: “A nossa amizade”.
Na juventude, resolveu dar aulas de italiano. Anunciou que estaria disponível em todos os “dias úteis e inúteis”. Quando dois ex-alunos abandonaram as aulas depois de 15 dias para abrir o próprio curso de italiano, concluiu que professores sertanejos eram formidáveis, “ensinam antes de aprender”.
“Na infância, Graciliano foi a uma casa em que as moças o elogiaram, dizendo que ele vestia um paletó cor de macaco. Era um modo de falar dele sem ofender”, conta Wander, em entrevista ao Pensar. “É aí que ele descobre a ironia”, acrescenta.
O recurso acabaria se estendendo à literatura. “Todo livro de Graciliano é tachado como realista, mas todo livro dele tem uma reflexão sobre o ato de escrever. Tem ironia maior do que essa? Porque o livro realista clássico é aquele que parece não ter nem escritor. Na medida em que você vai lendo e o escritor vai refletindo sobre o livro, falando sobre ele e discutindo o que está escrevendo, isso é um efeito irônico”, explica.
CORPO ESCRITO
“Graciliano Ramos – Vida e obra” não pretende simplesmente repetir o que já foi dito sobre o escritor. Pelo contrário, estabelece um diálogo com os estudos biográficos anteriores e confronta a trajetória de Graciliano com o que já foi produzido no campo teórico e acadêmico. O livro narra a vida do escritor ao mesmo tempo em que mostra como sua dimensão ética se funde à obra, tornando impossível falar de uma sem levar a outra em consideração.
Graciliano, afinal, tem um “corpo escrito”, de acordo com Wander. É um autor visceral, em cuja obra as marcas físicas do sofrimento e os traumas da vida se transformam em matéria literária. Essa relação começa ainda na infância, em um episódio que o próprio escritor jamais esqueceria. O pai dormia em uma rede quando o cinto escorregou para debaixo de seu corpo. Ao acordar e não encontrar o objeto, concluiu que o pequeno Graciliano o havia roubado. Deu uma surra no filho e voltou a dormir. Só depois percebeu que o cinto havia permanecido ali, sob seu corpo, durante todo o tempo. Não pediu desculpas. Anos mais tarde, Graciliano resumiria a experiência na frase devastadora: “Foi o meu primeiro contato com a justiça”.
Já adulto, pisou em falso em um degrau da escada e caiu. O tombo provocou um tumor na fossa ilíaca, que o obrigou a passar por uma cirurgia no Hospital São Vicente de Paulo, em Maceió. Depois da operação, escreveu os contos “O relógio do hospital” e “Paulo”, que tratam da experiência dolorosa e do delírio pós-operatório.
CLARA GEOMETRIA
Os textos de Graciliano têm o que Wander chama de “clara geometria”, em que cada palavra ocupa um lugar exato. Para chegar a esse resultado, ele cortava, riscava e reescrevia inúmeras vezes. O objetivo era retirar tudo o que fosse desnecessário e chegar ao que considerava o “osso da escrita”.
Essa preocupação também foi influenciada pelo trabalho de copidesque exercido por muitos anos. A função, que consistia em revisar e corrigir textos de outros autores, fez com que desenvolvesse uma atenção ainda maior à linguagem. Os manuscritos revelam o tamanho desse rigor. Palavras, frases e até parágrafos inteiros eram eliminados ou modificados até que o texto chegasse à forma que considerava ideal.
“Em uma entrevista que deu ao jornalista sergipano Joel Silveira, Graciliano disse que o ofício de escrever era semelhante ao das lavadeiras, que enxaguam as roupas, torcem, batem, colocam para secar, torcem de novo e batem novamente. Ou seja, é enxugar o máximo possível das palavras”, destaca Wander.
Para o biógrafo, essa contenção também revela muito do próprio Graciliano. O escritor era avesso a exageros e demonstrações grandiosas e levava o mesmo comportamento para a literatura. Seu maior medo era que o texto perdesse a forma e “descambasse para o informe”. A gramática e a sintaxe, embora pudessem parecer limites, eram justamente o que permitia organizar a escrita.
HOMEM POLÍTICO
A passagem de Graciliano pela política é outra dimensão de sua personalidade em que aparecem o rigor e a coerência. Eleito prefeito de Palmeira dos Índios, em Alagoas, em 1927, fez uma administração marcada pela atenção aos problemas concretos da população. Seus relatórios chamaram atenção não apenas pelo conteúdo administrativo, mas também pela qualidade do texto.
Depois de deixar a prefeitura, ocupou outros cargos públicos em Alagoas. Foi diretor da Imprensa Oficial e, mais tarde, diretor da Instrução Pública, função equivalente à de secretário de Educação. Nesse período, promoveu mudanças no ensino, criou grupos escolares e jardins de infância e chegou a cortar pessoalmente o tecido usado nos uniformes dos alunos.
A atuação pública estava ligada, sobretudo, à defesa daqueles que chamava de “desvalidos”, pessoas sem voz ou poder. Essa postura ajuda a entender também sua prisão, em 1936, durante a ditadura de Getúlio Vargas. Graciliano foi detido sem processo formal e passou por diferentes prisões antes de ser levado para a Colônia Correcional da Ilha Grande. A experiência, na qual sentiu na própria pele a violência e a arbitrariedade do Estado, se transformaria mais tarde em matéria literária. Em “Memórias do cárcere” (1953), publicado postumamente, registraria não apenas o que viveu na prisão, mas também as contradições políticas e humanas daquele período.
A relação com a política, no entanto, não se limitava à administração pública. Graciliano tinha uma posição ideológica clara e, em 1945, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro, aproximando-se de Luís Carlos Prestes (1898-1990).
A política em Graciliano nunca se resumiu à militância partidária. Era também uma forma de se posicionar diante do mundo, recusar a neutralidade e defender aqueles que sofriam. A mesma preocupação que o levou a enfrentar injustiças na vida pública aparece, transformada pela literatura, na defesa dos personagens mais vulneráveis de sua obra.
Confira, a seguir, a entrevista de Wander Melo Miranda ao Estado de Minas.
“Graciliano Ramos não acabou, não passou”
Você menciona que a decisão de escrever esta biografia nasceu de uma conversa com Lilia Schwarcz. Como esse diálogo influenciou sua perspectiva?
Eu já vinha trabalhando com Graciliano há muitos anos. Fiz minha tese de doutorado sobre ele, sob orientação da professora Nádia Battella Gotlib. Desde então, tenho orientado teses, trabalhos de pós-graduação e pós-doutorado sobre ele. Passou, então, a ser uma convivência com Graciliano Ramos. Quando a Lilia veio a Belo Horizonte lançar a biografia do Lima Barreto, nós fomos jantar. Comecei a falar do Graciliano. Disse que achava que ele tinha muitos pontos de contato com Lima Barreto, apesar das grandes diferenças. Afinal, eram dois autores preocupados com os desafortunados. Aí, a Lilia perguntou se eu não queria escrever uma biografia do Graciliano para a Companhia das Letras.
Como você lidou com as lacunas e os vazios na vida de Graciliano?
Há certas lacunas, certos vazios que não têm jeito. Mas eu não quis preenchê-los artificialmente. Também não quis fazer uma biografia exaustiva, no sentido de detalhar tudo: falar, por exemplo, o que Graciliano comia, como dormia... Nada disso. Ele tem uma frase que, para mim, sintetiza muito do que ele é: “Só posso escrever o que sou. Se meus personagens se comportam de modos diferentes, é porque eu não sou um só”. É um autor visceral. Ele e a própria obra estão unidos de tal maneira que você não pode falar de um sem falar do outro. Acho que poucos autores brasileiros têm isso. Talvez Clarice Lispector, na qual a escrita não é só um ofício, mas faz parte da vida.
No caso de Graciliano, até o corpo estava intimamente ligado à própria obra...
O corpo dele é escrito. Sempre penso que o corpo de qualquer pessoa é um corpo político. Não é à toa que, durante uma ditadura, a primeira coisa que o regime faz com o sujeito é torturar. Isso quer dizer que o corpo é o lugar em que o poder se mostra com maior força. É quando você recebe uma cacetada da polícia na rua, quando é torturado, quando é preso… Isso está muito presente em Graciliano, porque ele sofreu, inclusive, uma prisão que parece quase com “O processo”, de Kafka. Foi uma prisão sem processo formal. Prenderam-no e pronto. Isso é absurdo. Eu costumo dizer que ele não fica feio ao lado de Camus e de Kafka, porque há um absurdo da existência na obra dele.
Você escolheu narrar a vida de Graciliano Ramos no presente, e não no passado. Foi uma escolha voluntária?
Foi totalmente consciente. Se narrasse no passado, ficaria parecendo que é uma coisa que acabou, que passou. Graciliano Ramos não acabou, não passou.
No livro, você diz que a ironia é a marca registrada de Graciliano. Onde é possível ver esse recurso em obras tão densas como “S. Bernardo”, “Angústia”, “Memórias do cárcere” e “Vidas secas”?
Graciliano era muito irônico na vida. Ele tem isso desde pequeno. Na infância, foi a uma casa em que as moças o elogiaram, dizendo que ele vestia um paletó cor de macaco. Era um modo de falar dele sem ofender. Então, ele descobre que é possível falar uma coisa para dizer outra. Descobre a ironia. No caso da obra literária, todo livro de Graciliano é tachado como realista, mas todo livro dele tem uma reflexão sobre o ato de escrever. Tem ironia maior do que essa? Porque o livro realista clássico é aquele que parece não ter nem escritor. Na medida em que você vai lendo e o escritor vai refletindo sobre o livro, falando sobre ele e discutindo o que está escrevendo, isso é um efeito irônico.
O ofício do avô paterno de Graciliano como artesão de urupemas é descrito como metáfora do fazer literário. O que o neto aprendeu com o avô?
Atenção absoluta àquilo que está fazendo, necessidade de precisão, de exatidão e de entrega absoluta. O avô fazia peneiras de palha e de bambu. E Antonio Candido foi o primeiro que chamou a atenção para o quanto isso servia como metáfora do fazer literário, porque Graciliano vai ter o mesmo comportamento do avô. Vai ter a mesma atenção, a mesma entrega e a mesma precisão. Ele tem de fazer aquilo da melhor maneira possível, sem ornamento e sem enfeite. As peneiras do avô, afinal, não tinham enfeite, nada de beleza nem frescura. Em uma entrevista que deu ao jornalista sergipano Joel Silveira, Graciliano disse que o ofício de escrever era semelhante ao das lavadeiras, que enxaguam as roupas, torcem, batem, colocam para secar, torcem de novo e batem novamente. Ou seja, é enxugar o máximo possível das palavras. Mais para frente, ele é acometido por uma infecção nos olhos. Passou dias sozinho, com compressas nos olhos, só escutando o que era falado em casa e o barulho da rua. Em determinado momento, conclui: “Na escuridão, descobri o valor enorme das palavras”.
O livro relata o episódio do cinturão – quando Graciliano apanhou do pai, injustamente, por causa de um cinto perdido – como o “primeiro contato com a justiça”. Como essa experiência de punição arbitrária na infância influenciou o caráter e a obra de Graciliano?
Moldou fortemente. Depois desse episódio, ele escreveu: “Foi meu primeiro contato com a justiça”. Isso é um soco na cara, não é? É terrível. Graciliano também apanhava na escola. Era uma educação sertaneja muito rígida. Em uma das cartas, disse que vivia numa pequena gaiola. Era um menino com dificuldades no aprendizado da leitura, justamente em razão dessas violências que sofria em casa e na escola. Então, ele era muito tímido, muito fechado para dentro. Não tinha como reagir a essas violências, a não ser projetando essa violência. Não quero psicanalisar, mas isso vai acabar aparecendo em toda a obra dele. Quando vai para a prisão, ele tem uma crise de oftalmia e, ao ler um texto, encontra a palavra “dettera”. Fui professor de literatura italiana há muitos anos. Não existe essa palavra italiana. Talvez a palavra fosse “lettera”, que quer dizer letra ou carta, ou “detta”, que é o dito, do verbo dizer. Ainda pode ser “detta” no sentido de dívida. Acho que Graciliano condensou nessa palavra todas essas questões da infância, da prisão e da arbitrariedade sofrida. Quando está prestes a sair da cadeia, agradece ao diretor e diz: “Vou escrever tudo o que passei aqui, vou pagar a minha estadia”.
Ele pagou escrevendo “Memórias do cárcere”...
Aí você vê o valor enorme da palavra. Antes mesmo de virar comunista, Graciliano já tinha uma percepção refinada de que o mundo é injusto e de que há uma sociedade opressiva, na qual os mais fracos sofrem opressão. Ele vai viver isso na carne na prisão. No episódio do soldado amarelo batendo em Fabiano, em “Vidas secas”, a gente vê que Fabiano está aquém da lei e que só vai ter contato com ela ao sofrer com a mão pesada dela. Isso acontece ainda hoje, quando o Estado entra na favela e mata criança, preto, travesti, homossexual. É o soldado amarelo.
Embora percebesse que o mundo fosse injusto, Graciliano também tinha alguns preconceitos...
Sim, ele tem certos preconceitos, mas busca entender a raiz deles. Por exemplo, ele era homofóbico. Tem aquele episódio da prisão: quando descobre que quem servia a comida era homossexual, fica dias sem comer. Mas, depois, ele se questiona: “Não nasci com isso. Por que eu tenho isso?”. Ele não chega a mudar – imagine um homem naquela idade, nortista, há 100 anos! Não dá para imaginar que fosse superaberto –, mas vai perguntar: “Por que eu tenho isso? Isso me foi inculcado. Não nasci com isso”.
Como foi a passagem dele pela política?
Ele era muito inteligente. Quando foi prefeito de Palmeira dos Índios, passou a multar os donos dos animais que ficavam soltos nas ruas. Chegou, inclusive, a multar o próprio pai. Era muito coerente. E é muito difícil uma pessoa ser coerente.
Como Graciliano equilibrou o fato de ser um “homem de partido” com a “lucidez autoirônica” que impedia sua obra de cair no panfletarismo?
O político que há na obra dele não é panfletário, e sim um mecanismo que serve para dar espaço a quem não tem voz. Quando escreve “Memórias do cárcere”, o Partido Comunista tenta, de toda maneira, censurar o livro, porque há críticas a pessoas comunistas que também estavam presas. Graciliano tem essa capacidade de abrir espaço para o que ele chama de desvalidos, mas em nenhum momento isso vira propaganda política. Se virasse, já teria acabado a importância.
No caso de “Vidas secas”, por que a figura de Baleia é essencial para entender a solidariedade de Graciliano para com “todos os viventes da terra”?
A morte da Baleia é, para mim, uma das coisas mais bem escritas em português que já li na minha vida, em qualquer língua. Em uma carta para a mulher, ele contou que estava escrevendo “um troço difícil, a morte de uma cachorra”. A gente percebe a maestria dele porque não é escrito em primeira pessoa. É a única coisa dele que não é escrita em primeira pessoa, porque as memórias e os outros romances são. Por quê? Porque você não vai botar o Fabiano falando. Se ele quase não fala, ficaria incoerente que fosse o narrador. No entanto, se ele fosse escrever em terceira pessoa clássica, seria muito distante da situação do Fabiano, com a qual ele se solidariza. Então, o que Graciliano faz? Ele faz uma terceira pessoa com um discurso indireto livre, em que caminha ao lado dos retirantes. Usa muito a condicional, que é uma maneira de construir o discurso indireto livre, que é o modo de você se aproximar. Ao mesmo tempo, ele abre esse lugar de fala para o retirante e mostra a distância que há entre o retirante e ele, o letrado. E estende essa preocupação a todos os viventes da terra. A morte da Baleia, portanto, é o momento mais comovente do livro. Se você prestar atenção, ele usa duas ou três vezes o diminutivo. O texto é extremamente comovente, mas extremamente seguro. Não é sentimentaloide.
Por que é importante ler Graciliano Ramos ainda hoje?
Para ter contato com o que é arte em língua portuguesa, o que é literatura em língua portuguesa. Para ter contato com o Brasil, com as questões que afligem o Brasil até hoje. E, mais do que isso, ter contato com as questões que afligem o ser humano: as paixões, o amor, a inveja, a maldade. Tudo isso que caracteriza o ser humano.
O que diferencia Graciliano Ramos de outros autores?
O trato com a linguagem. Graciliano tem um trato extremamente severo com a linguagem. Assim como as vidas de “Vidas secas” são secas, a linguagem dele é seca. Ele não podia ter uma linguagem muito abundante numa região em que nada é abundante, que falta tudo, não é? Então, a linguagem é precisa, só se fala o que é necessário. Com isso, ele fez obras de arte diferentes de outros escritores. Ele talvez odiaria que a gente o chamasse de minimalista, mas ele é uma espécie de minimalista, que diz tudo com o mínimo de palavras possível.
Qual livro de Graciliano indicaria para quem nunca leu a obra dele?
Primeiro “Vidas secas”, depois “São Bernardo”, “Angústia” e “Memórias do cárcere”. Sem esquecer de “Infância”, que é um livro de memória excepcional. Reler Graciliano também é sempre bom.
“GRACILIANO RAMOS - VIDA E OBRA”
l De Wander Melo Miranda
l Companhia das Letras
l 400 páginas
l R$ 119,90
l Lançamento neste sábado (22/8), às 11h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, BH
Capas dos livros de Graciliano Ramos
Graciliano à luz de Wander
Autor da biografia comenta principais livros do escritor alagoano
“S. BERNARDO” (1934)
Trecho
“Sou um homem arrasado. Doença! Não. Gozo de perfeita saúde. Quando o Costa Brito, por causa de duzentos mil réis que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me doente, aludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. Até hoje, graças a Deus, nenhum médico me entrou em casa. Não tenho doença nenhuma. O que estou é velho. Cinquenta anos pelo São Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casaca espessa e vê ferir cá dentro a sensibilidade embotada. Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco!”
“Desconstrução de um amor”
“É a história de um amor. Um latifundiário que se apaixona por uma professorinha do interior, casa com ela e esse casamento resulta em uma reviravolta completa na vida e nos valores dele. Ele não deixa de ser o que é, mas é uma desconstrução dessa relação amorosa. Para quem dava valor só para bens materiais e dinheiro, o amor e a paixão são coisas incontroláveis.”
“ANGÚSTIA” (1936)
Trecho
“Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da rua da Lama. Vivo agitado, cheio de terrores, uma tremura nas mãos, que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram.”
“Fragmentos do passado”
“Acompanha um intelectual que comete um assassinato por paixão. O protagonista se apaixona por uma moça, mas o capitalista da cidade também se interessa por ela. Essa mulher fica grávida do capitalista e é obrigada a abortar. O intelectual descobre e mata o capitalista. O livro é uma forma de esse intelectual rememorar toda essa história. E o mais interessante é que, ao rememorar esse acontecimento, ele rememora também fragmentos do próprio passado.”
“VIDAS SECAS” (1938)
Trecho
“A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de roscas, semelhante a uma cauda de cascavel. Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.”
“Retrato do Brasil”
“É a obra mais esperançosa de Graciliano. Ele vai abrir um espaço de fala — porque os personagens não falam —, um espaço de visibilidade para quem chamava de “infelizes que povoam a Terra”. Graciliano vai dar visibilidade à vida de todos os viventes da Terra. A cachorrinha Baleia entra aí no meio. Com isso, ele faz um retrato do Brasil, um retrato da falta de lugar social do pobre brasileiro. Mostra como ele está fora da lei, como a lei não consegue protegê-lo e, ao contrário, castiga-o. O livro tem essa novidade, a situação atual dos refugiados.”
“MEMÓRIAS DO CÁRCERE” (1953)
Trecho
“O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolhermo-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas idéias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido.”
“Obra monumental”
“É um dos livros mais fortes da literatura brasileira, porque nenhum escritor ou intelectual da altura de Graciliano sofreu uma prisão arbitrária até aquele momento. E nenhum deles escreveu uma obra tão monumental quanto “Memórias do cárcere”. Nesse livro, Graciliano passa em revista não só a própria condição de preso sem processo, vítima de uma prisão arbitrária, mas também toda a questão política e social do Brasil.”
HISTÓRIAS DE UM GIGANTE
Trechos de “Graciliano Ramos: Vida e obra”, de Wander Melo Miranda
Ironia
O pai tem 37 anos de idade e a mãe, 15 anos incompletos, diferença de idade que servirá de motivo para provocações constantes feitas à mãe pelo filho quando adulto. A mãe revidará da mesma forma depois que o filho se casar com Heloísa Medeiros, sua segunda esposa, 18 anos mais nova do que ele:
— Graciliano, você nunca mais me falou de mulher moça e marido velho. A resposta vem rápida e certeira, como é de seu feitio:
— Minha mãe, não se fala de corda em casa de enforcado.
*
O rigor do prefeito
Disciplinado e rigoroso, fiel a seu hábito de limpeza, uma das primeiras decisões que toma é proibir animais – bois, cabras, galinhas – soltos pelas ruas da cidade, sob pena de multa aos donos. Nem o próprio pai escapa. Ao fiscal que reluta em multá?lo, ordena?lhe que lavre a multa, argumentando que prefeito não tem pai. Paga e leva o recibo para o coronel Sebastião Ramos (pai de Graciliano) – “Olhe aqui, veja, hoje encontramos umas vacas suas fazendo footing. Se mandasse lhe entregar a multa, o senhor tinha um ataque do coração”. Furioso, o pai esbraveja, xinga, mas lhe devolve a quantia paga. Tem de aguentar “lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros, que criavam bichos nas praças”.
*
O suplício do cárcere
Parte do Rio de Janeiro com outros detentos de madrugada, num camburão. Graciliano sente inesperadamente uma dor aguda no baixo?ventre, lembrança da penosa cirurgia a que se submetera. A dor na perna o acompanhará sem trégua durante todo o tempo na Ilha Grande. Sente prazer ao perceber luzes pelas frestas do veículo, o asfalto molhado da cidade, pessoas vistas de relance, fragmentadas. A “deslocação vertiginosa das réstias” daria um belo efeito no livro que escreveria, pensa confuso. Desce do carro, entram todos num vagão de trem. Num jornal comprado, lê que o “estado de guerra ia ser prorrogado”. Desembarcam, finalmente, em Mangaratiba – “povoação triste e abafada, com montes em redor”. Aguardam num embarcadouro a lancha que os levará à ilha. Chamam?lhe a atenção mulheres desembarcadas da primeira classe, sentadas em cadeiras de vime no ancoradouro, falantes, alheias de todo à presença dele e dos outros detentos.
O suplício de verdade começa ali. Pede a um soldado que lhe compre maços de cigarro e caixas de fósforo, que recebe quando está descendo com os companheiros para o porão da lancha. Põe as mãos no bolso, sente as folhas de papel “cobertas de letra miúda” e as joga na água: “Representavam meses de esforço, nenhuma composição me fora tão desigual e custosa, mas naquele momento experimentei uma sensação de alívio”, recordará depois.
*
Na alma de uma cachorra
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Em maio daquele ano de 1937, Graciliano dá a Heloísa uma notícia que se mostrará promissora: “Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma de uma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre José Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo somos todos como a minha Baleia e esperamos preás”.
