varda 

Centenária, o que vejo 

não me basta. 

Onde está o espelho 

que deixei diante do mar?

*

van gogh 

Imenso, o descampado 

e o que aprendi me fere. 

Antes dos girassóis, os girassóis 

como o amor antes do amor 

e a estranheza antes da estranheza.

*

drummond 

Regresso de um baile de máscaras. 

Noite calada. Brejo morto. 

Sob a poeira de lua desfeita 

há um anjo que não me enxerga.

*

hilst 

Conheço a aridez do cio, 

a brutalidade do meu corpo 

e os duros olhos dos senhores. 

Sob o sol, há muito 

perdi a santidade dos animais.

*

mendes

Caem os pregos que abriam a carne. 

A tarde, mais uma vez, 

torna-se limite. 

É mais fácil perdoar a morte 

do que a beleza.

*

brecht 

As nossas mães, 

as nossas crianças 

nunca se conheceram. 

Os nossos cadáveres 

dormem distantes. 

Os nossos trabalhos, 

os nossos medos 

são segredos 

e isso basta. 

Conhecemos o mesmo mundo.

SOBRE O AUTOR

Nascido em Ribeirão Preto em 1979, Daniel Francoy é poeta e prosador. Publicou os livros “Identidade” (prêmio Jabuti na categoria poesia, 2017), “A Invenção dos Subúrbios” (semifinalista no prêmio Jabuti na categoria crônica, 2019), “O Ganges Represado”, “O Velho Que Não Sente Frio e Outras Histórias”, “O Livro do Martim”, “Nos domínios do Cerrado” (semifinalista no prêmio Jabuti na categoria conto, 2025). Também tem publicações em Portugal, Uruguai e Argentina.

“Todo nome é escasso”

• Daniel Francoy

• Edições Jabuticaba

• 40 páginas

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