“Sobre o teto” 

Deve fazer oito dias, ou talvez nove, que você não pode sair de um espaço de cinco por quatro palmos e um mindinho. Você mesma mediu, cem vezes ou mais, com suas mãos que mais parecem ameixas secas. Mais de cento e noventa horas que não pode se deitar. Por isso dorme sentada, agarrada aos joelhos. Ao lado de uma poça. Se bem que dizer que você dorme é impreciso. Sua cabeça mastiga e mastiga sem descanso. Talvez estivesse a onze mil minutos olhando para o teto. Analisando, no centro de tudo, a mancha. A mancha que se alastra. Um dia, você pensa, ela tomará as paredes para si. Antes de você se fechar, a vida se resumia a rituais cada vez mais complicados. Como quando, aqui dentro, você esfregava de cima a baixo os dentes clareados no verão anterior. Depois, com o fio enrolado nos dedos indicadores, sondava os vãos entre os molares, os incisivos e os caninos ligeiramente encavalados. A cuspida na pia era elegante, talvez recatada demais. Você a repetia até sentir a boca neutra, com gosto de nada. Gostava daquela sensação. A saliva diluída até a falta de gosto, até o nada. Sob a luz amarela misturada à brancura das manhãs, você então prendia seis grampos no cabelo e aparava as pontas que a desagradassem. Você sorria para sua melhor versão. Era bastante dolorido. 

Apressada, você ia à cozinha e se dirigia ao quarto onde funcionava, ao lado da cama, o seu escritório. Assim que você sentava em frente à tela com uma xícara de café de cápsula e um copo de água com gás, alguma força a arrastava dali. Você digitava, abria arquivos e planilhas, anotava as demandas. Checava as tarefas, direcionava e-mails, revisava, emitia relatórios. Delegava ou gerenciava as metas. Sabe lá o que você fazia, mas era bonito de ver. Em algum momento, você se levantava. E voltava para cá.

Você tomava um banho longo. Lavava primeiro os braços. Esfregava os pêlos loiros com um sabonete caro, importado, de lavanda. Fazia o mesmo nas pernas, na barriga, nos ombros e no pescoço. Para o rosto, você usava um líquido viscoso. O banho se completava com bons minutos de água pelando. Dentro do vapor, sem conseguir enxergar seus braços por inteiro, você desligava o chuveiro, esticava a mão e pegava a toalha pendurada. Você se secava, com calma. Primeiro os cabelos, depois o torso e, por último, as canelas e os pés. Em seguida, polia o espelho. De lá seu rosto surgia novamente. Era assim todas as manhãs. Deveria ser assim. Mas para seu azar, no dia em que a porta do box emperrou, você esqueceu da toalha. E aí tentou abrir a porta com força. De novo. E outras vezes. Nada. Você esperou as mãos secarem. Tentou empurrar o vidro. Apelou para os socos até quase fraturar as mãos. Deu joelhadas que renderam calombos e dores latejantes que pareciam durar para sempre. Você chorou, pediu socorro. Bateu palmas o mais alto que conseguia, mas o banheiro, você bem sabia, era isolado por janelas grossas. Nenhum som escapava dali. Mesmo assim você, que vivia sozinha, que passava semanas ou meses sem falar com outras pessoas além daquelas com as quais trabalhava de modo remoto, berrou com a esperança de que pudessem salvá-la. Mas não havia ninguém. Talvez nunca tenha havido alguém capaz de tirá-la dali. Por isso, agora, calcula.

Você não reconhece mais seus pés. Os dedões tortos, para começar. Barrigudos e indiscretos como os homens lá embaixo, na porta dos botequins. Já as unhas, prateadas e irregulares, dão a impressão de diminuírem feito gelos no copo. Raios esparsos de luz atravessam a janela, batem no espelho e machucam seus olhos. O reflexo forma uma auréola sobre o teto. Bem em cima do borrão que não para de crescer. 

De noite, você vê melhor. Um rastro verde, denso, úmido. Poroso como os musgos incrustados debaixo das pedras. É possível notar um padrão: as extremidades percorrem alguns centímetros e se abrem como galhos. Elas se ramificam sobre a parede marcada por bolhas de ar. É bem possível que um cano tenha se rompido. Ou uma trepadeira tenha crescido na umidade entre o seu andar e o de cima. Você encara a mancha. Você a estuda. Tem certeza que ela também analisa seus comportamentos. Que entende, mesmo sem distinguir suas palavras, que quando você gira o registro para a esquerda perto do limite mínimo, o mais quente possível, quase insuportável à pele humana, é para enevoar os vidros do box onde escreverá, com o indicador, sua assinatura, os endereços em que já morou, os números de telefone dos quais ainda se lembra, além de frases esparsas que se dissolvem na água antes que você as memorize. É a isso que você se dedica quando escuta o interfone. A cada toque, sente os dentes baterem uns nos outros. Não tem mais controle sobre eles. Como se os maxilares houvessem se desprendido. Um objeto solto, desparafusado. Você tenta gritar. Desliga o chuveiro e grita enquanto o interfone toca, toca infinitamente, mas a voz não sai. Talvez algo tenha parado dentro de você. Ou rasgado, quem sabe. Acima de você, os galhos atravessam toda a extensão do teto. Hoje, se conseguir, você não fechará os olhos. Quer ver aquilo se mover.

Com dificuldade, você tenta convencer suas mãos a baterem no fundo da embalagem do condicionador. Você não enxagua a cabeça porque ela também não está sob seu comando. Contra sua vontade, você está de joelhos, com seios, coxas e cabelos cheios de espuma. Sua pele, em contato com o vento que penetra os vãos da redoma, se eriça de modo permanente. Ganha a textura da casca de um fruto. De pouco em pouco, você apaga. E acorda por um tempo impreciso. 

Você não pode se mover.

Você apaga.

Você respira.

Você apaga.

Você está aqui.

É possível sentir na nuca a superfície folhosa que desliza por trás da parede. Você se sente lida. Tão árvore quanto criança. Tem pés, memória e tronco. Riachos gelados banham seus pulmões. É esquisito, claro que é. Sente seu passado através dos azulejos. Vê os rostos de amigos perdidos na infância. Reconhece as casas por onde esteve, as muitas casas. Aquela que corre descalça no barranco é você. É pique-esconde, você está na ponta dos pés para não ser encontrada. Está escondida atrás do canteiro e toma cuidado com as plantas espinhentas. Tenha calma. Não faça barulho. Seja gentil. Logo você se integrará às folhas, aos casulos das árvores e à terra preta. 

Enquanto a mancha ocupa os azulejos do box, você lembra. Você entende, um pouco zonza, que os insetos, as ameixeiras, os vagalumes e as bromélias, tudo que você tocou e ouviu quando menina, está dentro de você. Entrando e saindo de você. Dos vincos, da boca. Há flores debaixo das suas unhas. Você sorri. 

Estica o tanto quanto pode o corpo na parede. Sente no peito o voo de um beija-flor e apoia as mãos úmidas nos desertos de sal. Prove. 

Você ainda está aqui. Você, que mata a sede ao lado dos búfalos noturnos. Que alisa as pelagens deles iluminadas pelo manto das estrelas. 

Você está aqui, aqui dentro, sentindo. Você é também uma menina, outra menina, e chora em êxtase ao lado do ralo. Chora porque compreende circular em si uma dor ancestral. Uma dor que não é sua. Que não é tão, ou apenas, humana. 

Você sente a doce aflição de um girassol antes da tempestade. Gosta de estender mais e mais a coluna pela parede mesmo que algo dentro de si pareça se despedaçar. Você torce para que isso não acabe. Você implora àqueles homens que tentam romper a porta de vidro: que continue a doer. Que a deixem ali, com a mancha. Em breve, você diz para ela, estaremos livres.

Sobre o autor

Guilherme Pavarin (foto) é mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela USP. Criou o acervo digital de literatura latino-americana Mutum e foi editor na Vice e nos núcleos de revistas das editoras Globo e Abril. Escreveu para publicações como Piauí e Folha de S.Paulo. Teve contos premiados em concursos da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) e da FFLCH-USP. Definido por Noemi Jaffe como "coletânea de contos perturbadores", "Miragens ao sul" é o primeiro livro de prosa de Pavarin.

"Miragens ao sul"

De Guilherme Pavarin

Jabuticaba

144 páginas

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