Tarso de Melo - Especial para o Estado de Minas

Tenho tido a sorte de acompanhar a trajetória poética de Fabrício Marques desde o começo dos anos 2000, quando ele lançou "Samplers". De lá para cá, cada um dos seus livros despertou novas camadas de admiração e daquela "surpresa" que apenas os poetas mais inquietos sabem movimentar. Reencontrar agora seus poemas na rearticulação que a antologia "Fora do alcance da memória" propõe, portanto, é uma alegria de muitas pontas: reconheço os poemas na mesma medida em que eles me soam estranhamente novos, por força do contágio com outros poemas publicados durante esses 25 anos, que passam a conviver nessa nova constelação inventada pelo poeta.

É importante notar que, nesse período, Fabrício escreveu seus poemas em meio a uma também admirável atuação no jornalismo cultural (com destaque para o Suplemento Literário Minas Gerais) e nas batalhas editoriais da poesia, como ensaísta e organizador de diversas obras. Basta lembrar aqui, para encurtar a lista, o seu estudo precursor sobre Paulo Leminski, "Aço em flor" (que acaba de ser reeditado pelas editoras da UFMG e da Unicamp), e a organização das reuniões de livros de Maria do Carmo Ferreira (com Silvana Guimarães) e de Adão Ventura, bem como a nova edição da "Antologia mamaluca" de Sebastião Nunes. É uma sorte tremenda para os leitores de poesia ter uma figura assim na praça, que divide sua disposição entre escrever poemas e colocar para circular os poemas alheios que ama. Lá e cá, temos muito a aplaudir e agradecer.

Destaquei acima a palavra "surpresa" porque me parece que ela é fundamental para entrar na poesia de Fabrício Marques. Na maioria dos poemas, o poeta nos coloca diante de algo que parece que conhecemos, as frases soam familiares, as palavras são claras. Não há susto ao entrar nos poemas. Mas, tão logo damos o segundo ou o terceiro passo para dentro deles, tudo vai se tornando estranho e escorregadio. Em 2002, ao ler "meu pequeno fim", Edimilson de Almeida Pereira disse algo que, creio, pode ser estendido à antologia: "sob as coisas ditas com pretensa simplicidade estão armadas as ciladas que fazem de nossa busca pelo sentido um constante desafio".

Exemplar desse "procedimento", se pudermos chamar assim, é "Esgotados", um dos meus prediletos. O primeiro verso é "Meus livros estão esgotados". Até aí, tudo nos leva a pensar apenas no objeto livro e nos seus problemas comerciais. Mas a sequência multiplica absurdamente os sentidos, porque também tios, tias, primos, avós, o melhor amigo, o cachorro e o próprio poeta estão esgotados: "Sentado no sofá, / com as quatro patas de fora / e estrias à mostra / o amor está definitivamente esgotado". E as "surpresas" não param por aí, porque a fuga desse esgotamento generalizado levará o leitor a se deparar com imagens que explodem a prefiguração possível no primeiro verso: "o Mundo Novo", "a Via Expressa", mesas fartas, caminhos também esgotados.

Outra variante dessa poética do atrito, na série "Congresso internacional de frases-feitas" cada poema é escrito por dentro de frases que são nossas velhas — e gastas — conhecidas: "quem tudo quer tudo perde", "aqui se faz, aqui se paga", "o que você vai ser quando crescer", "uma calmaria que precede a tempestade", "perder-se na multidão", "não há nada de novo sob o sol". Aí também, Fabrício parece usar o som familiar dessas palavras para nos atrair para o choque, porque, entre elas, insere o que lhes é mais avesso ("abrindo passagem / para o escândalo / do entendimento"), fruto talvez da desconfiança (mineira?) diante de tudo que tenta se estabelecer como verdade.

Seus poemas estão sempre de olhos bem abertos para o corriqueiro, o superficial, o automático, e a escrita é uma forma de instalar aí, no coração da nossa distração, as mais sutis dinamites. Com pequenos deslocamentos, ele consegue revelar a aspereza de tudo que é impensado nos nossos dias. Com a escuta atenta às muitas vozes do mundo, sabe encontrar a forma mais precisa e corrosiva de desmontá-las. Como se a inteligência e a imaginação fluíssem soltas, livres porque desprezadas num mundo em que "nada do que é humano / é minha humanidade", e se divertissem em rasgar a realidade: devassando-a, ridicularizando-a, como "luz que se move / entre brechas".

A antologia está dividida em seis seções ("Em torno do fogo da vida", "In furore iustissimae irae", "Imposturas", "Associação brasileira de versos circunstantes", "Brincando nos campos do real" e "Sob um sol difícil") e, no fundo, é difícil perceber qual a "matéria de poesia" que sobressai em cada uma delas ou demarcar os campos pelos quais o poeta se desloca. Assim como na "Antologia poética" de Drummond, em que ele mesmo aponta que os poemas poderiam estar em outra ou até em mais de uma seção, é muito interessante imaginar os trânsitos em que os poemas se aventuram.

No caso de "Fora do alcance da memória", de certo modo, esse trânsito até tem algo de mais imprevisível, porque, mais do que "temas" ou "preocupações", os poemas todos dividem a mesma tarefa: desarmar a "máquina de existir". Se em cada um de seus livros já era fácil constatar a habilidade com que Fabrício Marques jogava esse jogo, agora, diante dessa antologia em que poemas de um quarto de século se reúnem e reinventam, tudo me parece ainda mais forte e atual e brilhante.

TARSO DE MELO é poeta, editor do Círculo de Poemas e autor dos livros "As formas selvagens da alegria" (Alpharrabio), "Desdobrar Paulo Leminski" (Impressões de Minas) e "Música do mundo" (Fósforo).

“FORA DO ALCANCE DA MEMÓRIA: 2000-2025”

De Fabrício Marques

Martelo Casa Editorial

208 páginas

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