Prisca Agustoni - Especial para o Estado de Minas
Uma das autoras mais lidas da poesia norte-americana contemporânea, até então inédita no Brasil, Mary Oliver (1935-2019) chega finalmente ao público brasileiro com "Pequenas glórias" (Círculo de Poemas), em primorosa tradução da poeta Patrícia Lino. A primeira tradução de Oliver no Brasil é um convite para entrarmos nesta vasta obra, referência no âmbito do pensamento ecologista e da ecopoesia estadunidense das últimas décadas.
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Influenciada poeticamente por Walt Whitman, Edna St Vincent Millay, Henry Thoreau, Elizabeth Bishop e John Keats, Oliver sempre gozou de enorme sucesso de público (o jornal The New York Times chegou a defini-la "sem sombra de dúvida a voz poética americana mais vendida e a mais amada"). Ainda assim, com os primeiros títulos, desde sua estreia, em 1965, com "No voyage, and other poems", teve que enfrentar certo ceticismo por parte da recepção crítica, por apresentar uma escrita que fazia da aproximação do feminino com a natureza seu ponto central. Para os críticos da época, em pleno auge das reivindicações pelos direitos civis e feministas, esta visão representava, se não propriamente um retrocesso, pelo menos certa discrepância em relação às vozes abertamente politizadas, suas contemporâneas, como por exemplo a da poeta e ensaísta Adrienne Rich.
Foi somente em 1984, com a distinção do Prêmio Pulitzer por "American primitive", belíssima coletânea de uma Oliver no esplendor da maturidade como escritora, que a crítica passou a ler com mais atenção seu projeto poético. Projeto que, atrás de uma aparente simplicidade de linguagem e de temas, se constrói a partir de uma visão de mundo e de um ethos de vida centrados na constante observação da natureza como método epistemológico e como iniciação espiritual rumo à dispersão do "eu" no "nós".
Foi exatamente nesse movimento de dispersão entre a fronteira do observador e a fronteira do observado que ela construiu, em "Pequenas glórias" como em toda sua obra, a ponte que leva do eu para o nós, do mundo exterior para a inquietação interior, incorporando nessa visão a herança da vasta tradição lírica moderna do Romantismo: "Me dedico todos os dias a estudar a diferença entre água e pedra. / Olho todos os dias fixamente para o mundo; movo o capim para ver melhor / e fico olhando fixamente para ele". A natureza, como já escrevia com angústia um dos maiores poetas românticos, o italiano Leopardi, em seu livro "Operette morali", é indiferente ao nosso querer, à nossa existência, e os versos de Oliver – agora já sem a angústia romântica – parecem confirmar essa sentença: "Quando regressei ao mar / o mar não estava à minha espera. / Não tinha nem saído do lugar" (p.80).
Nesse lento movimento de dissolução das hierarquias entre o eu e o tu, o humano e o não-humano, outra relação com o mundo, luminosa, pode enfim emergir nos versos, e os outros viventes que o habitam aparecem em seu esplendor como as "pequenas glórias" da existência: "O país do sabiá é invariavelmente onde eu quero estar" (p.83).
As longas caminhadas ao ar livre em Provincetown, em Massachusetts, lugar que Oliver definiu como a feliz "convergência de terra e água e de luz mediterrânea" e onde a poeta decidiu fixar residência, junto com a companheira, a fotógrafa Molly Malone Cook, aliadas a uma vida totalmente afastada da cena pública (é notório que ela se recusava gentilmente a dar entrevistas, porque essas atividades lhe roubavam o tempo precioso que deveria ir para o "verdadeiro trabalho", o da escrita) imprimem em seus versos uma cadência lenta, um tom contemplativo, ainda que coloquial, todo voltado para a reflexão. Caminhar, observar, desacelerar, escrever, abrir-se à existência dos outros seres foi seu gesto de intervenção mais radical em prol de uma percepção "ecológica" do mundo, uma virada ético-estética que tem forte ressonância no Brasil na trajetória pessoal e literária de Leonardo Fróes (1941-2025), com quem seus versos dialogam.
Em "Pequenas glórias" reúnem-se três livros de Oliver, "A folha e a nuvem" (2000), "O que sabemos" (2002) e "Vida longa" (2004). Trata-se de uma publicação que agrega escritos da maturidade literária da autora e evidencia um caráter híbrido no sentido de que incorpora gradativamente a prosa no meio das iluminações poéticas.
O livro segue um andamento cada vez mais lento, ou melhor, se caracteriza por uma abertura progressiva que acolhe o elemento narrativo (na segunda parte, com a presença do poema em prosa) e o elemento abertamente ensaístico, na terceira parte, como facetas de uma percepção expandida da experiência poética. Isso ajuda o leitor brasileiro a se aproximar da obra de Oliver desde perspectivas múltiplas, que se complementam, mas com o coração sempre voltado para a poesia, conforme nos diz Oliver neste fragmento do prefácio a "Vida longa", o terceiro livro do volume, o mais ensaístico: "escrever poemas, para mim [...] é uma forma de louvar o mundo. Neste livro, você encontrará, entre os textos em prosa, alguns poemas. Pense neles como pequenas glórias. Não tentam, como a prosa faz, explicar nada. Existem apenas na página, e respiram. Alguns lírios, ou cambaxirras, ou umas trutas oscilando entre o mistério das sombras, a água fria ou um carvalho em meio à negrura" (p.148).
Cabe sempre à poesia, parece nos sugerir Mary Oliver, abrir as fendas para que possamos escutar o respiro dos viventes. Por isso, ainda que em "Pequenas glórias" a poesia ceda lugar à prosa, para logo acolher o ensaio, Oliver nunca perde de vista aquela verdade íntima e belíssima que só pertence a ela: "O poema não é o mundo. / Não é sequer a primeira página do mundo. / Mas o poema quer ser tão flor como a flor. / É essa a sua única certeza. // Quer se abrir, / como a porta de um pequeno templo, / para que você entre, se refresque, o corpo arrefeça / e você seja menos você – e mais as coisas."
PRISCA AGUSTONI é poeta, pesquisadora, tradutora e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
“PEQUENAS GLÓRIAS”
De Mary Oliver
Tradução de Patrícia Lino
Círculo de Poemas
263 páginas
R$ 99,90
“Do livro do tempo (fragmento)”
7.
Venho pensando nisto
até agora
de como a flor
em uma jarra de água
recorda a vida que tinha
no jardim
de como a flor
em uma jarra de água
recorda a vida de semente
por abrir
de como a flor
em uma jarra de água
para e pensa
em si mesma
há muito tempo
que as raízes apressadas
e o cascalho e a chuva
e o caule brilhoso
e as asas e as lâminas
das folhas se levantam
se debatem e batem
pelo nascer do sol
e o sal das estrelas
o vento coroado
as camas de nuvens
e este sonho azul
são o círculo inquebrável
*
“Poema de verão”
Por exemplo
ao sair de casa
fui ver a pele verde e luminosa
do sapo;
e o véu escorregadio
dos seus ovos;
e os seus olhos
de bordas douradas;
e o lago
com lírios de pé;
as margens quentes
pontilhadas de flores rosa;
abafada, a tarde grande;
e a garça-branca
- uma nuvem caída –
Avançando devagarzinho um passo
parando depois, e avançando mais tarde
outro, para escrever
junto à quietude das águas
um poema sobre dois pés delicados.
*
“Um acordo”
Veja, é primavera. A poeira do ano passado, que andava solta por aí, é agora vida.
As anêmonas surgem tremendo e, devagar, as samambaias levantam os corpos
curvilíneos e pálidos. Os tordos voltaram para casa abarrotados de mistério, tristeza, felicidade, música, ambição.
E eu estou caminhando para dentro de tudo isso sem ter para onde ir e sem nada
de específico para fazer a não ser virar repetidamente as páginas deste mundo tão
belo no mundo da minha cabeça.
**
Assim sendo, passado sombrio,
estou prestes a fazê-lo.
Estou prestes a perdoá-lo.
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