"É preciso parar um pouco a vida para entrar na cadência do poema", acredita Tarso de Melo, no recém-lançado "Música do mundo: introduções à poesia" (Fósforo). "O poema dá um passo em nossa direção, mas temos que andar em sua direção", defende o poeta e editor nascido em 1976 em Santo André, na região do ABC paulista.

Em linguagem descontraída e envolvente, Tarso de Melo compartilha o seu amor aos versos e nos faz refletir sobre o significado da poesia em nossas vidas. "Quando entramos no poema, ou mesmo antes de entrar, porque a feição do poema já nos interpela antes da leitura, muita coisa dentro de nós começa a se mover, em grande parte sem que percebamos", afirma o autor de "Música do mundo".

O título do livro traz uma referência a Octavio Paz (1914-1998). O poeta e ensaísta mexicano comparou, em "O arco e a lira", a poesia a um caracol "onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal".

"Paz escreve com muita convicção, mas no tom de quem profere trivialidades; a cada palavra nos prega uma peça", lembra Tarso, definindo também o tom de seus ensaios, nada sisudos, plenos de convicção, verve e entusiasmo. Os capítulos são recheados de exemplos e análises das argamassas e artimanhas utilizadas pelos poetas ao longo do tempo, em especial os nomes dos séculos 20 e 21.

Doutor em Filosofia do Direito pela USP, Tarso de Melo atualmente realiza pós-doutorado em teoria literária na Unicamp. Ele edita há três anos o Círculo de Poemas, coleção da editora Fósforo. "Por mais que tenha grandes desafios, o Círculo vem mostrando que é difícil, mas há espaço para ampliar o alcance da poesia", afirma, em entrevista ao Estado de Minas.

Antes de "Música do mundo", ele lançou em 2022 "As formas selvagens da alegria" (Alpharrabio) e, em 2025, a sua visão do mais pop dos poetas brasileiros em "Desdobrar Paulo Leminski", no primeiro volume de coleção da Impressões de Minas. "Este livrinho não é uma introdução a Leminski, mas apenas um convite sem cerimônia para que os leitores sigam esses caminhos – percam-se, achem-se – sozinhos", avisa na publicação sobre o paranaense "que passou a vida abrindo acessos diretos entre os leitores e seus poemas".

Autor de "Distraídos venceremos", Paulo Leminski (des)norteia os capítulos de "Música do mundo" com citações de seus poemas e de insights sobre a criação literária. "O Leminski é uma síntese perfeita de muito do que digo sobre as possibilidades da poesia no 'Música do mundo', porque ele usou todos os recursos ao seu alcance para fazer o poema chegar mais longe", acredita Tarso.

Ao incluir cantores e compositores da MPB para justificar a máxima "todos os povos amam seus poetas", Leminski também ajudou Tarso a fundamentar as conexões estabelecidas no livro entre 'poetas do livro' e 'poetas da canção'. "Em termos de criação poética, por trás das diferenças de linguagem entre cada um deles, mais ou menos oral, ao microfone ou no papel, o que Mano Brown ou Chico Buarque fazem ao criar cada faixa dos seus discos é da mesma natureza do que Carlos Drummond de Andrade ou Orides Fontela, Ana Martins Marques ou Augusto de Campos fizeram e fazem em seus livros. Todos estão criando poemas, isto é, criando lugares de encontro com a poesia", defende.

No fim de "Música do mundo", Tarso de Melo cita os decassílabos de Caetano Veloso na canção "Livros" para compartilhar uma das mais certeiras definições para poesia: "E, sem dúvida, sobretudo o verso / É o que pode lançar mundos no mundo", canta Caetano. "É bonito constatar que os livros podem expandir o universo, 'lançar mundos no mundo' e dar mais sentido à vida, essa 'estrada que vai do nada ao nada'", continua o autor, ao professar sua fé nos "encontros e reencontros que a leitura de poesia quer de nós."

Leia, abaixo, a entrevista de Tarso de Melo ao Pensar do Estado de Minas.

Por que decidiu escrever um livro com "introduções à poesia"?

Esse livro tem muito a ver com os trabalhos que tenho feito nos últimos anos, tanto editando o Círculo de Poemas, quanto em oficinas e eventos de poesia. Em parte, eu sentia necessidade de organizar essas ideias que venho recolhendo, espalhando e desenvolvendo desde a adolescência. Por outro lado, o momento que a poesia brasileira vive, com grande qualidade, quantidade e diversidade de vozes, também me parece ser propício para tentar falar com mais leitores, tirando os obstáculos tão conhecidos. E também estava sentindo que várias coisas que eu li e refleti durante essas décadas começaram a se articular melhor, então era o momento de tentar colocá-las no papel como um convite para mais gente se aproximar da poesia. Na verdade, partindo também da ideia de que a poesia (através da música, principalmente) faz mais parte da vida das pessoas do que eles reconhecem. E o resultado, creio, é um livro que oferece "introduções" aos leitores, dizendo algo como "vá direto aos poemas", mas também a mim mesmo, porque quero me embrenhar ainda mais nos tópicos que tratei brevemente no livro.

Como as palavras de Octavio Paz o ajudaram a formular as ideias expressas no livro?

Eu li e reli "O arco e a lira", entre outros livros do Octavio Paz, em diferentes momentos da vida, mas recentemente as ideias dele foram fazendo cada vez mais sentido para mim. Parece que eu precisava ler muitas outras coisas, viver outras experiências etc., para entrar em alguns lugares a que ele me convidava. Quando veio o convite para fazer o livro e comecei a imaginá-lo, rapidamente surgiu essa ideia de que retirei o título: "o poema é um caracol em que ressoa a música do mundo". Porque me parece que essa é a abertura necessária para lidar com a variedade de poéticas existentes, nos mais diversos tempos e lugares. Se o intuito do livro é fazer mais gente "ler" poesia, tornar mais natural o convívio com os poemas, eu não poderia seguir outro caminho. E a paixão com que Octavio Paz escreve sobre a poesia do mundo todo, fazendo conexões incríveis entre poesia e história, mas sempre apontando para uma natureza comum de toda poesia, independente de formas e temas da moda, foi fundamental para me encorajar a escrever sobre tantos temas tão complexos de uma maneira que o leitor não os veja como um empecilho para a leitura, mas sim como um apoio.

Por que afirma, na apresentação, que o poema é um "objeto múltiplo" e se "escreve com tudo que for preciso"?

Esse é um aspecto fundamental do que defendo no livro: a linguagem verbal é apenas um dos ingredientes de que um poema é feito, seja em que época e cultura for. E é muito raro que um poema seja exclusivamente verbal. Na verdade, mesmo o mais "textual" dos poemas conta sempre com elementos gráficos, sonoros, imagéticos etc. que levam a uma experiência que não é estritamente de "leitura". Desde os mais antigos poemas de que se tem notícia, quem os fez sempre buscou os recursos que fossem necessários para expressar com mais força e beleza o que queria. E é muito importante ressaltar isso, porque grande parte da mais sofisticada poesia brasileira chega cantada até nós, com todos os recursos musicais à disposição do poeta, ou seja, o poema nos chega como voz, como violão, como percussão, não apenas como palavra. E mesmo quando ele está sozinho na página, o branco ao redor também nos interpela – também significa. Eu costumo dizer que o livro de poesia, por sua natureza, é mais próximo de um disco do que de outros livros (de ficção, não-ficção etc.). É uma forma de provocar essa relação mais viva e criativa com os poemas, que é fundamental para a fruição da poesia.

Por que acredita na poesia como forma de conhecimento?

Ainda que não se escreva poesia para ensinar nada, é evidente que aprendemos algo com os poemas que lemos. Aprendemos a olhar de modo diferente para o mundo e as pessoas, aprendemos a ouvir nuances das palavras que passam a ser muito significativas para nós, aprendemos a lidar com sentimentos e pensamentos de uma maneira mais complexa, como deve ser. O poema não é uma lição, mas tiramos lições dele. Alguns dos poemas que cito no livro, como "Os justos", do Jorge Luis Borges, entre tantos outros que estão espalhados pelo mundo, mudam algo dentro de nós. Cada poema abre uma janela que nem sabíamos que existia. Nesse sentido, acredito que a leitura de poesia é uma forma de conhecimento, sim. E sempre também uma oportunidade de autoconhecimento.

""Ainda que não se escreva poesia para ensinar nada, é evidente que aprendemos algo com os poemas que lemos. Aprendemos a olhar de modo diferente para o mundo e as pessoas, aprendemos a ouvir nuances das palavras que passam a ser muito significativas para nós, aprendemos a lidar com sentimentos e pensamentos de uma maneira mais complexa.""
por Tarso de Melo

"Música do mundo" traz análises de poemas de Adélia Prado e Francisco Alvim. O que mais o impressiona nos versos dos dois mineiros? Como vê a produção poética de Minas em relação ao Brasil?

Olha, difícil (impossível!) seria fazer esse livro sem citar poetas mineiros! O rio da poesia brasileira não apenas passa por Minas, desde sempre, mas talvez esteja ali sua parte mais caudalosa até hoje. E foi meio natural citar esses mineiros, entre outros como Drummond e Murilo Mendes, Adão Ventura e Ana Martins Marques, porque são alguns dos autores que mais li e releio na vida toda, e eles escreveram os poemas que me vêm à cabeça mais facilmente quando tento exemplificar a força da poesia. A respeito dessas citações no livro, digo também que esse livro contém uma antologia de alguns dos poemas que mais amo e até sugiro ao leitor que comece por eles: leia todos os poemas, depois volte para ler o ensaio. E passeie com calma pela bibliografia.

Por que afirma que uma das grandes conquistas das últimas décadas é que se tornou impossível dizer o que é a poesia brasileira?

Eu afirmo isso num sentido bem particular: era muito comum ler análises da poesia brasileira que restringiam as gerações a meia dúzia de poetas, descartando todos os outros, toda a riqueza de que as diferentes gerações são feitas. Havia sempre alguém disposto a apontar "os poetas que importam" e praticamente apagar a existência de todos os demais, mas agora, com a internet, a maior democratização da universidade e o surgimento de muitas editoras, grandes e pequenas, pelo país, colocando para circular não apenas novos poetas, mas recolocando em circulação obras que haviam ficado de fora do radar, é impossível sustentar que alguma década da poesia brasileira teve apenas cinco ou seis poetas importantes. Quem estuda poesia tem agora o desafio de lidar com cenários mais complexos. E a quem interessa estreitar o mundo da poesia, sua variedade, seu alcance? A mim, não.

Por que a ideia de verso livre é desafiadora?

É uma das ideias mais bonitas e, de fato, desafiadoras da história da poesia, porque os poetas não ficam exatamente "livres". Eles passam a conviver com mais uma exigência, que é definir a forma por inteiro dos poemas, se vão ser longos ou curtos, muitos ou poucos. É diferente de quem sai, de partida, para escrever um soneto: ele sabe o que deve atingir (e eu não estou dizendo que escrever um soneto é fácil!), porque a forma existe antes do poema, ela está pré-definida, por assim dizer, ainda que em seus aspectos mais superficiais. Para o poema de verso livre, no entanto, não há nada pré-definido: o poeta começa a escrever como quem viaja sem um destino certo e vai decidindo o caminho enquanto segue. Ou seja, o que pode parecer uma grande liberdade para o poeta é, na verdade, um empurrão em direção ao vazio: "faz aí o que você quiser e veja se nasce um poema". Poder fazer tudo é tão (ou mais) desafiador do que fazer algo específico, definido.

No primeiro volume da coleção Desdobrar, você afirma que Paulo Leminski é um caso raro de sucesso de 'poeta de livro' e formula uma questão: por que amamos Leminski? Quais pontos desenvolvidos em 'Música do mundo' ajudam a encontrar uma resposta para a pergunta?

Acho que o Leminski é uma síntese perfeita de muito do que digo sobre as possibilidades da poesia no "Música do mundo", porque ele usou todos os recursos ao seu alcance para fazer o poema chegar mais longe. Ele se torna poeta ainda muito novo, com muito orgulho de uma formação erudita precoce, mas na juventude vai se deparar com duas experiências poéticas das mais ricas: de um lado, a poesia concreta; de outro, a Tropicália. Esse misto de visualidade, musicalidade, comunicação etc., que ele aprendia nos livros de uns e nos discos de outros, vai ser o combustível para a elaboração da linguagem que o caracterizou e fez com que ele atingisse um público tão grande desde os anos 1980. E, além disso, Leminski também encontrava formas de falar dos assuntos mais espinhosos da poesia de uma maneira clara, aberta, divertida. Espero ter conseguido ficar por perto dessa lição dele, que é tão importante para mim.

Por que Leminski soube, como poucos, explorar a superfície do poema?

Os poemas do Leminski, a maior parte deles, têm uma camada que é de fácil acesso mesmo para os leitores mais distraídos. A meu ver, ele consegue inverter a lógica da relação entre o leitor e a maior parte da poesia: o poema, em geral, é um "bicho arredio", como digo no livro, que exige que eu vá até ele, chegue com cuidado, faça várias aproximações até que ele se entregue; no caso do Leminski, a forma como ele trabalha a superfície do poema (as rimas, o vocabulário, a clareza e a velocidade dos versos) faz com que o poema vá em direção ao leitor. O poema chama o leitor para dentro e, vencida essa barreira, ele se revela tão complexo e profundo quanto qualquer outro poema, nas suas muitas camadas, mas ele não coloca desafios ao leitor num primeiro contato. Isso talvez explique o fato de sua poesia chegar a tanta gente que não tem o hábito de ler poesia. Ele desarma esse bloqueio inicial, mas essa é também sua armadilha.

O que representa a realização do Círculo de Poemas, com autores de diferentes épocas e tendências? Quais lançamentos da coleção trouxeram particular alegria?

O Círculo de Poemas é uma iniciativa incrível e é uma alegria enorme fazer parte dessa batalha para colocar a poesia em lugares que ela não costumava frequentar. Manter um clube de assinatura, distribuir os livros para todo o país, promover eventos e clubes de leitura em vários lugares... tudo isso tem sido uma experiência muito transformadora mesmo, porque eu vivo, há muito tempo, no meio dos poetas e repetindo as mesmas frases: poesia não vende, ninguém lê poesia, tem mais poetas que leitores, entre outras. Mas o Círculo, por mais que tenha grandes desafios, vem mostrando que não é bem assim. É difícil, sim, mas há espaço para ampliar o alcance da poesia. Sobre os livros, é claro que minha relação com cada livro da coleção varia (serão 120 títulos até o final do ano!), mas eu gosto muito mesmo do que eles estão formando no conjunto: já temos autores de quase todo o país, além de autores estrangeiros muito diferentes entre si, de gente que viveu no século 19 até alguns que nasceram já na chegada ao século 21. Não quero falar nomes para não ser injusto, mas vou deixar aqui a indicação do livro que está saindo agora em junho: "Os enigmas singulares", antologia linda do poeta e cardeal português José Tolentino Mendonça, organizada pelo Márcio Cappelli. Ver livros assim circulando pelo Brasil certamente me dá muita alegria!

Lembra do primeiro poema que leu e nunca mais esqueceu? E o mais recente?

Minha relação com a poesia começa com uma alta dose de incompreensão, porque eu comecei a gostar muito de música, principalmente rock em inglês, e entendia muito pouco do que era dito. Mas ainda assim gostava de estar por perto daquilo. Depois veio o Leminski... Eu tenho uma lembrança muito clara do poema que abre "Caprichos & relaxos" e do prazer que tive ao me deparar com algo assim:

um dia desses quero ser

um grande poeta inglês

do século passado

dizer

ó céu ó mar ó clã ó destino

lutar na índia em 1866

e sumir num naufrágio clandestino

Entre as leituras mais recentes, acabei de ler a plaquete "Todo nome é escasso", do Daniel Francoy, que é excelente. Saiu agora pela editora Jabuticaba, que lançou os demais livros dele. O Daniel é um poeta e ficcionista admirável. Deixo aqui a primeira estrofe do poema que abre a plaquete:

Todos os meus poemas se passam numa única cidade

e sei que há poetas ainda mais pobres:

todos os seus poemas se passam num único bairro

e ainda assim é possível ter menos:

todos os poemas se passam numa única esquina

e repetem sempre o mesmo instante.

“MÚSICA DO MUNDO: INTRODUÇÕES À POESIA”

Tarso de Melo

Fósforo

184 páginas

 R$ 74,90

“DESDOBRAR PAULO LEMINSKI”

Tarso de Melo

Impressões de Minas

56 páginas

R$ 50

 

TODA PROSA EM UM SÓ POEMA

Em entrevista ao Pensar, Tarso de Melo foi desafiado a encontrar, nos versos, o que afirma nos capítulos de “Música do mundo”. “Foi difícil, mas vou arriscar”, comentou. Ele escolheu o poema “Desatenção”, da polonesa Wislawa Szymborska, publicado em 2015 no livro “Um amor feliz”, daCompanhia das Letras, com tradução de Regina Przybycien. “É uma das mais belas provocações à poesia que eu conheço”, garante o autor e editor. “Como contraponto à desatenção acusada no poema, a poesia é uma forma de atenção à vida, ao nosso universo, que é indispensável.” 

“Desatenção”

Wislawa Szymborska

Ontem me comportei mal no universo.

Vivi o dia inteiro sem indagar nada,

sem estranhar nada.

Executei as tarefas diárias

como se isso fosse tudo o que devia fazer.

Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações,

mas sem um pensamento que fosse

além de sair de casa e voltar para casa.

O mundo podia ter sido percebido como um mundo louco,

e eu o tomei somente para uso habitual.

Nenhum — como — e por quê —

e como foi que aqui apareceu —

e de que lhe servem tantas minúcias buliçosas.

Fiquei como um prego mal pregado na parede

ou

(aqui uma comparação que me faltou).

Uma depois da outra ocorreram mudanças

mesmo no estrito espaço de um pestanejar.

Sobre uma mesa mais nova, por mão um dia mais nova,

o pão de ontem foi cortado de um modo diferente.

Nuvens como nunca, uma chuva como nunca,

pois caíram gotas diferentes.

A Terra girou em torno de seu eixo,

mas num espaço já abandonado para sempre.

Isso durou umas boas 24 horas.

1440 minutos de chances.

86 400 segundos para intuições.

O savoir-vivre cósmico,

embora se cale sobre nós,

ainda assim nos exige algo:

alguma atenção, umas frases de Pascal

e uma participação perplexa nesse jogo

de regras desconhecidas.

Tradução de Regina Przybycien

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(Do livro “Um amor feliz”, Companhia das Letras, 2016)

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