Izabel Petraglia - Especial para o Estado de Minas

A partida de Edgar Morin deixa uma mistura de sentimentos. Alegria de ter vivido a maior parte de minha vida sob a influência sábia e sensível de um dos maiores intelectuais de nosso tempo. Tristeza por não poder mais desfrutar de sua presença, amizade e ideias brilhantes!

Amigo, mestre de uma vida toda, e presidente de honra de nosso Centro de Estudos, Morin deixa um legado incomensurável, para as diversas áreas do conhecimento.

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Um dos maiores filósofos da atualidade, atravessou os séculos 20 e 21, formando gerações comprometidas com a importância da reforma do pensamento para o estabelecimento de uma política de civilização para o planeta. Autor de uma epistemologia da Complexidade, o seu pensamento busca a religação dos diversos saberes: científico, empírico, filosófico, artístico, mítico, das tradições ancestrais.

Ao longo de seus quase 105 anos, que completaria em oito de julho, Morin escreveu quase uma centena de livros e manifestou-se sobre todos os assuntos: antropologia, política, educação, guerras e conflitos geopolíticos. Escreveu sobre ciências humanas, sociais, políticas, antropologia, romances e, sobretudo, sobre fraternidade e democracia!

Sociólogo de formação, trabalhou com pesquisa empírica, participou do Partido Comunista por dez anos, como combatente voluntário da resistência francesa, viveu na clandestinidade, mudou de nome de Nahoum para Morin — por conta das perseguições nazistas — nome que o acompanharia por toda a vida.

Do partido político foi para a sociologia do cinema, no CNRS, onde é diretor emérito, escreveu sobre a cultura de massas no século 20, sobre as estrelas de cinema, fez um filme — "Crônica de um verão" (com Jean Rouch), premiado em Cannes, no início da década de 1960. Um gênio em tudo o que fez, autodidata, estudou Direito, História, Geografia, mas também biologia, física, filosofia.

A sua obra mais extensa é "O método", formada por seis volumes em que refletiu sobre a natureza, a vida, o conhecimento, a cultura, a humanidade e a ética. A partir dos anos 2000, dedicou-se à educação, entendendo-a como a brecha de transformação da humanidade, como oásis de resistência e metamorfose, que parte de um pensamento redutor em direção a um pensamento complexo.

O Pensamento Complexo, fruto de sua epistemologia, acolhe incertezas e contradições da vida e da ciência, promovendo uma racionalidade aberta. Aberta para o racional e para o irracional, o subjetivo, o imaginário.

Morin foi um ser prosaico e poético, que amava a música, a literatura, um bom vinho e as alegrias da vida. Ele amava o Brasil. Foi um contrabandista de saberes, como se denominava; um humanista planetário, nós pesquisadores o vemos! Um ser generoso e humilde, sensível e delicado no trato, fazia questão de manter os amigos e os amores ao longo da vida. Mas era contra qualquer tipo de dogmatismo e opressão.

O querido mestre não religou só saberes, mas, em torno de sua vida e de sua obra, criou pontes, uniu pessoas, fez amigos por todo o mundo.

Nutrimos hoje, no CEP Edgar Morin, uma grande comunidade internacional, especialmente, latino-americana, em torno de suas ideias. Na noite de sua morte, realizamos uma live, com transmissão simultânea pelo canal do YouTube aglutinando mais de 300 pessoas, convidadas pelas redes sociais, em pouco mais de duas horas.

Edgar Morin deixa saudade e um legado que pretendemos levar adiante às novas gerações. Os 105 anos de Morin foram muito pouco! A humanidade ainda precisava de muito mais!

Apostamos, como ele, na esperança e na fraternidade como caminhos para se chegar ao futuro. Aprendemos com o mestre que não podemos ter o melhor dos mundos, mas que podemos ter um mundo melhor. Então, vamos lá!

Com sua influência, Morin permanece para sempre em nossos corações e em nossas ações transformadas por ele.

Obrigada, querido amigo, e meu mestre para sempre!

IZABEL PETRAGLIA é Doutora em Educação, diretora cofundadora do Centro de Estudos e Pesquisas Edgar Morin e autora de livros como "Edgar Morin: A educação e a complexidade do ser e do saber" (Vozes). Mais informações no site www.cepedgarmorin.com

CINCO LIVROS INDISPENSÁVEIS

Seleção de Izabel Petraglia, diretora do Centro de Estudos e Pesquisas Edgar Morin

"Terra-pátria" — Com Anne Brigitte Kern

Tradução de Paulo Neves da Silva

Editora Sulina

"Os sete saberes necessários à educação do futuro"

Tradução de Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya

Cortez, Unesco, 2000

"A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento"

Tradução de Eloá Jacobina

Bertrand Brasil

"A aventura de 'O Método' e para uma racionalidade aberta"

Tradução de Edgard de Assis Carvalho e Mariza Perassi Bosco

Edições SESC

"Lições de um século de vida"

Tradução de Ivone Benedetti

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