Sociólogo, filósofo, historiador, antropólogo, Edgar Morin queria mesmo era ser conhecido como um "humanólogo" que traçou o próprio percurso intelectual: "Não percorri um caminho trilhado; fui fazendo o caminho por onde fui andando. Mesmo que eu morra amanhã, meu pensamento sempre ficará inacabado". As ideias de um dos maiores pensadores europeus, nascido em julho de 1921 e que morreu no último dia 29 de maio, ganham ressonância com a leitura de suas conferências no projeto Fronteiras do Pensamento.

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O e-book "Edgar Morin 100 anos" reúne as contribuições registradas em seu acervo de uma testemunha ativa de quase todo o século 20 e parte do século 21. "Desde o começo dos anos 2000, ele alerta sobre a necessidade de uma ética planetária num mundo que se observa em abismo e para o qual é imprescindível construir uma outra via para a humanidade", observa a professora Cybeli Moraes, na apresentação do livro organizado por ela.

Na edição, há trechos de "1968-2008: o mundo que eu vi e vivi", conferência proferida em Porto Alegre, em 2008, e a transcrição integral de "O caminho: para o futuro da humanidade", fala de Morin em 2011, na capital gaúcha e em São Paulo, ambas pelo Fronteiras do Pensamento. Além disso, consta o artigo "Da margem ao centro", assinado por um dos interlocutores do francês no Brasil, o escritor e professor Juremir Machado da Silva.

"Como intelectual, Morin foi da margem ao centro. Em certo sentido, pode-se dizer que foi de herético a canônico", afirma Juremir. "Ler a vasta obra de Edgar Morin, ou traduzir alguns dos seus livros, é mergulhar numa trama densamente articulada de conceitos, ideias, reflexões, propostas, citações e sugestões. O leitor pode ter a impressão de ser conduzido, com segurança, através de um labirinto. Muitas são as portas que se abrem inesperadamente e muitos são os caminhos com súbitas bifurcações", garante o professor da Faculdade de Comunicação Social da PUC-RS.

Ainda na apresentação, Cybeli Moraes lembra uma das ideias marcantes do centenário Morin, que dizia que nada na vida poderia ser feito sem esperança. "Ele viveu muito – e convida a todos, sempre que pode, a viverem mais. Nossa vida é feita de prosas, ele diz, aquilo que fazemos para sobreviver. Mas o que importa mesmo é a poesia da vida, a saber: compartilhar, conhecer, conviver e alegrar-se", ressalta.

Leia, ao lado, trechos das duas conferências de Edgar Morin no Brasil pelo projeto Fronteiras do Pensamento.


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VIDA ANÔNIMA "É preciso dizer que a sociedade industrial moderna, quando democrática, ao mesmo tempo em que introduziu liberdades que inexistiam nas sociedades autoritárias e escravagistas, trouxe suas próprias coerções: a aplicação de uma visão determinista e mecanicista do indivíduo, a lógica do trabalho controlando toda a vida social e humana, o que na França se chamava de métro-boulot-dodo [metrô, trabalho, dormir], ou seja, uma vida cada vez mais anônima."


MAIO DE 1968 "Maio de 68 foi a revelação de uma falha da civilização ocidental. Estou falando de todo o mundo ocidental. Ela mostrou que onde havia abundância de bens materiais, onde havia abundância de bens de consumo, bem-estar material, não havia bem-estar moral, não havia bem-estar psicológico; havia, ao contrário, infelicidade, insuficiências tratadas privadamente, quer dizer, recorrendo-se aos soníferos, às drogas, ao psiquiatra etc. Há um novo mal-estar, produzido pela nossa civilização, que, no entanto, produziu virtudes e qualidades, mas que gera cada vez mais essas características negativas que, de certo modo, Maio de 68 aponta. E se falou justamente de crise de civilização, da insuficiência dessas civilizações e, repito, de aspiração a outra vida."


PRESENTE E FUTURO "O mundo viveu com a ideia de que o progresso era uma lei histórica, que o amanhã seria melhor do que o hoje. E talvez houvesse algumas perturbações, mas essa lei era certa. A partir dos anos 1970, 1980 e 1990, evidencia-se não apenas que esse progresso não é certo, mas também que seus motores são ambivalentes. Então, a crise do futuro, a crise do progresso; quando se perde a esperança no futuro, instauram-se a angústia e a neurose. A crise do futuro provoca um recolhimento no presente. A vida no presente, um dia de cada vez. E, quando toda uma parte do mundo ocidental vive um dia de cada vez, quando a política se faz um dia de cada vez, quando não se pensa mais no futuro, não há mais perspectiva; ou melhor, quando o presente é ruim e infeliz, o que resta?"


PENSAR A COMPLEXIDADE "Se nos interrogarmos sobre o estado do planeta, sobre os processos da globalização, veremos que existe uma interferência de processos econômicos, psicológicos, religiosos, sociais, migratórios, de todos os tipos. É muito difícil compreender o que está acontecendo. Mas, ao mesmo tempo, é necessário tentar compreender. É necessário pensar. Pensar a globalização é pensar ao mesmo tempo o que é fundamental e global a todos os humanos do planeta. As dificuldades: tudo se confunde, tudo se liga, é a complexidade. Por que é tão difícil pensar a complexidade? Porque é preciso tentar encontrar métodos para conectar esses conhecimentos."


CRISE GERAL DA HUMANIDADE "Temos crises demográficas, crises do pensar, especialmente essa impotência do pensamento para saber o que acontece. Estamos numa crise geral da humanidade que assume diferentes formas e cuja crise econômica é uma das formas. A crise geral da humanidade é a crise da humanidade que não consegue tornar-se humanidade. Todos os processos que conduziram esta humanidade a se encontrar reunida num mesmo destino comum são também processos que nos conduzem a catástrofes futuras."


POLVO ADORMECIDO "Temos uma Organização das Nações Unidas muito fraca. Não temos nenhuma instância de decisão planetária para os grandes problemas da economia, das armas de destruição em massa, da extinção dessas armas e da biosfera. Somos levados nesse processo, no qual se deve também notar um fenômeno muito interessante: o século 21 foi ameaçado por um polvo, o polvo dos totalitarismos, dos totalitarismos fascistas, nazistas, stalinistas e maoistas. Esse polvo dos totalitarismos está hoje morto. Mas esse morto despertou um outro polvo que estava adormecido, o polvo dos fanatismos e dos maniqueísmos nacionalistas, étnicos e religiosos."


NOVAS AMEAÇAS, NOVO MUNDO "Aqui está o mundo entregue a novas ameaças. Todos esses processos se aceleram e se agravam. A globalização é o pior, uma vez que ela nos conduzirá para catástrofes. Contudo, ela é ao mesmo tempo a melhor. Pela primeira vez, todos os seres humanos de todos os continentes se encontram, mesmo sem saber, reunidos numa mesma comunidade de destino, sofrem dos mesmos perigos, problemas fundamentais, riscos ecológicos, riscos econômicos, riscos advindos da possibilidade de guerras. Isso cria as condições para que nasça um novo mundo."


MUDANÇAS DE CAMINHO "Mudar de caminho não é provável, mas talvez não seja impossível. Não é impossível. Mas, atenção! Como seria possível, uma vez que estamos como num trem lançado a toda velocidade nos trilhos, sem nada que possa freá-lo do interior ou do exterior, sem que sejam as catástrofes? Assim, se refletirmos um pouco sobre a história humana, perceberemos que a história humana diversas vezes mudou de caminho, primeiramente, no que diz respeito às grandes religiões. Como essas mudanças de caminho são feitas? A partir de um indivíduo ou de um pequeno grupo de indivíduos em torno desse indivíduo, visionário, profeta, xamã."


A METAMORFOSE "Pode-se pensar que a mudança é possível. Mas ela só pode começar de forma modesta. Quando um sistema não pode lidar com seus problemas fundamentais, ou ele se desintegra, ou regride e se torna ainda mais bárbaro, ou ele é capaz de suscitar, a partir de si mesmo, uma força criadora que cria um sistema mais rico, um metassistema. O sistema se metamorfoseia e, dessa forma, se torna capaz de criar um novo sistema. Isso significa que, atualmente, o sistema do planeta Terra é incapaz de lidar com os problemas vitais do fim da economia, da morte nuclear, da morte ecológica, da economia desregrada. Portanto, ele está condenado a regressar e a se desintegrar, ou talvez possa suscitar em si mesmo essa metamorfose."


GLOBALIZAR E DESGLOBALIZAR "A globalização é esse fenômeno ambivalente, é preciso globalizar e desglobalizar ao mesmo tempo. Isso é difícil de compreender, pois nosso espírito está acostumado a um pensamento binário, alternativo: ou globalizamos, ou desglobalizamos, não se pode fazer as duas coisas. Sim, podemos fazer as duas coisas. Ou seja, continuar com tudo o que existe de positivo da globalização, mas proteger as virtudes e as qualidades das culturas nacionais, proteger a agricultura alimentar de um país, a agricultura que permite a alimentação e não o torna dependente de alimentos vindos do exterior. É preciso proteger as zonas rurais, proteger as virtudes que existem nas nações, proteger as comunidades locais."


DESENVOLVER E ENVELOPAR "Temos dois imperativos: globalizar e desglobalizar. Diria a mesma coisa do desenvolvimento: é preciso desenvolver e 'envelopar' ao mesmo tempo. É um processo semelhante ao da globalização. O desenvolvimento diz respeito principalmente ao crescimento econômico, ao desenvolvimento tecnológico e material. Ele tem virtudes e graves defeitos, especialmente a destruição dos laços de solidariedade e o crescimento da corrupção. Aqui também existe ambiguidade no desenvolvimento."


DEFEITOS E QUALIDADES "As civilizações tradicionais têm seus defeitos, especialmente o caráter autoritário das instituições, algumas vezes mesmo o dogmatismo das crenças e a falta de tolerância. Mas elas também têm qualidades que são a solidariedade, o sentimento de ajuda mútua, uma relação com a natureza que agora o Ocidente tenta reencontrar, e a proteção dos valores de hospitalidade e cortesia, que nós temos tendência a perder. Então, a ideia é desenvolver e envelopar."


REFORMA DO CONSUMO "O consumo deve ser reformado. As camadas mais pobres da população estão excluídas do consumo alimentar nutritivo, e as camadas mais acomodadas consomem produtos cujas virtudes são frequentemente imaginárias, exaltadas pela publicidade, que prometem a beleza, a juventude, a saúde, e que são produtos que frequentemente apresentam problemas, pois possuem conservantes frequentemente muito perigosos. É preciso reformar a agricultura. Hoje a agricultura industrializada causa mais males do que bem. Ela não apenas destrói os solos, que são condenados a receber adubos químicos sem parar, como destrói todas as formas de vida com os pesticidas. Não há mais insetos, pássaros ou animais."


REFORMA DA EDUCAÇÃO "Devemos reformar a educação porque nossa educação produz especialistas e não forma o que Jean-Jacques Rousseau, em seu livro sobre a educação no fim do século XVIII, dizia ao citar as palavras de um educador falando de seus alunos: 'Eu quero ensiná-los a viver'. Educar é ensinar a enfrentar os problemas da vida, não apenas conhecendo a matemática e a gramática. É preciso ensinar a compreensão humana, a enfrentar as incertezas, ensinar o que é ser humano, ensinar a desarmar as armadilhas do conhecimento. Porque o que acreditamos ser o conhecimento frequentemente é o erro."


VIDA EM PROSA E POESIA "Temos necessidade também de viver, no sentido de que a vida é polarizada, de um lado por um polo que podemos chamar de polo da prosa, e de outro, da poesia. O que é a prosa da vida? A prosa da vida é aquilo que somos obrigados a fazer, que nos entedia, nos entristece, nos limita. Mas nós o fazemos para ganhar nossa vida. Ganhamos nossa vida perdendo-a. Nós o fazemos para sobreviver. A prosa da vida é aquilo que nos permite sobreviver, mas a poesia da vida é o que nos realiza, nos faz viver. A poesia da vida está no amor, na amizade, na comunhão, no jogo, na dança, no êxtase, na festa. Isso é a poesia da vida."


A IMPORTÂNCIA DA ESPERANÇA "Acredito que, na vida humana, nada pode ser feito sem esperança. Mas a esperança não é uma certeza. Talvez o que chamávamos de esperança, nos tempos antigos, fosse, na verdade, uma crença, uma crença quase mística, mas que era uma ilusão. A esperança é a esperança. Não é certa, mas é possível. Se a esperança existe, ela se torna algo necessário. É o fermento necessário para todas as grandes transformações e para o caminho da metamorfose. Quando digo metamorfose, não significa que a humanidade vá parar por aí. A aventura da humanidade é uma aventura surpreendente, incrível. Uma aventura que passou por civilizações. Em primeiro lugar, a humanidade arcaica, as civilizações mais diversas e, depois, o mundo feudal da Europa na Idade Média, que se transformou num mundo moderno, que está se transformando num mundo pós-moderno, pós-pós-moderno. Estamos num mundo no qual as forças de transformação estão ativas, mas cabe a nós saber quais são as que levam à destruição e quais, ao contrário, podem nos trazer esperança. Hoje, podemos ter esperança e tentar agir."

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A íntegra das conferências está no e-book "Edgar Morin: 100 anos", organizado pela jornalista e professora universitária Cybeli Moraes, disponível no acervo do Fronteiras do Pensamento.

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