Ideias tendem a envelhecer junto com as pessoas. Alguns espíritos inquietos se atualizam recorrentemente e conseguem acompanhar o ritmo vertiginoso das mudanças globais. Assim era Edgar Morin, sociólogo, filósofo, homem de ideias, intelectual público. Seu pensamento jamais envelheceu. Muito mais que todos os outros cujos ideias se mantêm atuais. Aos 104 anos, ainda foi capaz de raciocínios complexos, de explicar o instante do mundo com a compreensão de tudo que mudou até aquele momento único e efêmero. Morreu em 29 de maio, aos 105 anos, com a certeza de se ter mantido atual, necessário, servido à humanidade e vivido a boa vida.

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Aprendi com ele a pensar a complexidade e não tentar reduzi-la ao simples para poder explicá-la. Enfrentar a complexidade do mundo, dos processos justapostos, com método e depois saber transmitir o conhecimento adquirido de forma a que todos possam entendê-lo. Ele me fez avessos aos reducionismos. Com ele, também, aprendi — e esta foi, talvez, a mais importante e sublime lição — a jamais abandonar o princípio da incerteza, saber que sempre encontraremos o inesperado, as surpresas na história. Não ter certezas é o que permite a alguém como Morin, com sua mente poderosa, construir a sabedoria, além do conhecimento, e atualizar suas ideias sem adiamentos ou apegos. A diversidade da travessia é que o levava adiante.

Morin tinha credenciais políticas impecáveis. Com 21 anos estava na resistência contra os nazistas. Foi por causa dessa militância clandestina que surgiu como Edgard Morin. Nasceu Edgar Nahoum, em uma família de judeus sefarditas. Precisou abandonar o sobrenome judaico e se apresentou com o nome de personagem de André Malraux. As versões variam: Manin, que seria uma referência a "A condição humana", ou Magnin, de "A esperança". O mais provável é que a referência fosse "A esperança", romance passado na Guerra Civil espanhola cujo protagonista central é coletivo. Não existe um personagem de nome Manin em "A condição humana" (que se passa em Xangai, em 1927, durante a insurreição operária comunista). Mas existe Magnin, o alter ego de Malraux segundo vários analistas de sua obra, em "A esperança", o comandante da esquadrilha internacional de aviadores republicanos. Qualquer que seja a verdade, o fato indisputável é que Morin era seu codinome na Resistência e ele resolveu mantê-lo pelo resto da vida. Uma decisão que mostra como Edgar Morin era um ser político, um zoon politikon como definiria Aristóteles.

A complexidade é o conduto central do pensamento de Morin. A realidade é composta de fenômenos complexos, interligados, justapostos, entrecruzados, que não podem ser compreendidos isoladamente. O sistema complexo transcende suas partes. A partir dessa compreensão, Morin foi capaz de estabelecer concretamente a unidade na diversidade e a articulação sistêmica de termos aparentemente opostos — e tratados como tal por numerosos pensadores — indivíduo e sociedade, ordem e desordem, razão e emoção, natureza e cultura. O ser humano, na sua concepção, não pode ser compreendido a partir de uma de suas dimensões isoladamente. Somente em sua totalidade biológica, cultural, histórica e psicológica. Foi a partir dessa visão integrada, complexa que mostrou, sempre o pioneiro, a articulação entre o local, o nacional, o continental e o planetário.

Foi com ele que aprendi duas questões fundamentais para minha própria trajetória. A noção de policrise e a crítica do pensamento da esquerda que não se atualiza, que o fez buscar a sua própria via e, nela, a sua esquerda. Eu também não me encaixo em nenhuma das propostas enlatadas da esquerda atual e, para continuar de esquerda, busco minha via, que é, digo logo, muito próxima à vislumbrada por Morin.

A policrise contemporânea — policrise é conceito criado por Morin — na sua complexidade, revela na inteireza os dilemas que a humanidade enfrenta simultaneamente. Ela é climática, ecológica, econômica, democrática, migratória, tecnológica, geopolítica. Leva o mundo a uma grande transição neste século 21, que tenho tratado como uma verdadeira metamorfose estrutural e global. Não consigo olhar para os Estados Unidos, ou Gaza, Irã, Ucrânia, para o avanço da extrema-direita como vírus oportunista explorando as fragilidades da democracia, muitas delas parte de suas virtudes, para o aquecimento dos oceanos, sem estar a olhar pelos olhos de Morin, da complexidade e da policrise.

Morin passou com sua visão lúcida, sábia e esclarecedora por todos os dilemas que vivemos atualmente. A crise da democracia, na qual via como fatores fundantes a concentração do poder, a manipulação da informação e o enfraquecimento da participação da cidadania. Ainda em 1993, publicou "Terre-Patrie" ("Terra-Pátria"), com Anne-Brigitte Kern, nesta obra ele nos alertou para os grandes desafios existenciais que se dispõem diante de nós humanos e que transcendem as fronteiras nacionais: o aquecimento global, a degradação ambiental e extinção de espécies, os riscos nucleares, as pandemias e as desigualdades globais. Todos componentes vitais da policrise contemporânea.

As ideias de Morin não envelheceram com o seu corpo. Por isso não morrem com ele. Viva Edgar Morin.

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SÉRGIO ABRANCHES, colunista do Estado de Minas, é sociólogo e escritor. O texto acima foi originalmente publicado em sergioabranches.substack.com

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