A Victor Heringer, que me volta em sonhos

Não sei por que motivo, dentre os mortos,

seja você quem retorne em sonhos.

Nos pesadelos apocalípticos, quando fujo

com a família

de meteoros e guerras armagedônicas,

meu pai jamais está entre nós

para ajudar a empurrar a carroça,

carregar os apetrechos:

segue morto

mesmo naquele filme particular

que minha mente dirige.

E, se dirige, como escolhe seu elenco?

Naqueles em que você retorna, há alegria.

Neste mais recente, você

não havia morrido. Estava no Norte,

a espera de que retornassem as chuvas.

Choveu então muito, e você voltou.

Veio também uma porca. Ambos sorriam.

Primeiro abracei você. Depois, a porca.

*

Figura de um homem

Um homem, de pé — e com os pés, os

seus, próprios, e descalços, importante

é que estejam descalços — semente

desse poema — seus pés, baixando-se

ou erguendo-se de calças, enroladas

ou cortadas — acima, abaixo dos torno

-zelos expostos, engrossando de seu

fermento de homem, másculos — caules

de bananeira — e com suas tatuagens,

feito jabuticabas num tronco, que o

escurecem — pernas que crescem, e

erguem do chão o homem — homem,

seus pés, e pernas, e seu copo de leite

*

Seus pés: perfeitos, alguém diria, ana

-cronicamente: de alabastro; não,

de mármore; de cobre; de barro — pós

-edênico ou pré-adâmico, a imagem,

a semelhança de um deus antropo

-mórfico, um homem, só esse homem:

sobre soleiras, sob umbrais, seus ombros

de busto, sua sombra sob si, as portas

que o comportam, a casa, a sua casa

onde corre seu filho, o desse homem, das

coxas — as suas — saído, coxas que se

entroncam de joelhos; amortecem o peso

de sua massa de homem, pós-mulher

*

Homem, em sua casa, entre suas portas,

de pé sobre o seu piso, seu chão, e pa

-lavreia sua planta, a planta de sua casa

e a planta dos seus pés, onde vive ele

com a mulher, e o fruto do ventre da mulher

e fruto da semente de suas coxas, o filho

que se enfolha ante pai e mãe, a fruti

-ficação múltipla das ordens de um deus,

não o Deus, mas este deus: esse homem,

essa mulher, esse filho; nessas folhas

da planta da casa, as portas: das quais

também se diz ter folhas, esse homem:

fruto do solo, como pés, frutos do homem

*

A fruteira e as moscas

Minha mãe cedia as frutas aos filhos

e meus irmãos e eu reivindicávamos coisas

caras demais para aquela dácada:

ameixas, pêssegos e uvas.

Meu pai dizia, com razão, que nada nos faltava:

sobre a mesa estavam as maçãs e bananas.

Do próprio quintal vinham as goiabas e acerolas.

Das avós, várias espécies de manga.

A cidade era cercada por laranjais.

Não havia vitamina ou proteína

que não se dispusesse a família,

e ainda assim queríamos o que não tínhamos.

Sei hoje que tardou demais

para que eu aprendesse a lição

de amar o que está às mãos,

o que doa o clima e a terra

com seu húmus particular

do que ali morreu e doou-se.

Dourou-se, doeu-se e então se doou

as mãos de um descalço qualquer

sobre as plantas dos próprios pés

e sob os pés de frutas.

A cidade não precisava de muros

contra outras cidades inimigas

e o corpo erguia suas paliçadas

com o que se tomava de outras coisas vivas.

Não haveria gripe ou varíola

que nos matasse.

As laranjas, as mexericas, as tangerinas e as pocãs

eram nossa espada e nosso escudo.

Aprendíamos aos poucos as lições do adubo.

Hoje ajoelho-me e adoro o cítrico e o cíclico.

Azedume nenhum jamais apequenou o doce.

*

Texto em que o poeta do Hemisfério Sul

canta a primavera no Hemisfério Norte

Passado o equinócio vernal, que outros poetas

cantem a vida sexual das espécies nortistas,

tulipas e orquídeas, rododendros e caliandras.

A algazarra dos rouxinóis e cotovias em plena

atividade nidificante, as guerras cornialtas

de alces, os borbulhos dos elefantes-marinhos.

O cio dos bichos sortudos, que tem época do ano

específica para a cainçalha, cronometrados

contra o inverno. Escolho o bulbo tumescente

dos rapazes, suas panturrilhas e coxas expostas

nas ruas, suas colunas dóricas de músculo,

lá onde brota sua flor de potência hidráulica.

Boquiaberto, vivo nesse velho bem-mal-me-quer.

São sóis infláveis, com LIGA/DESLIGA,

e iluminam as paredes do Templo a Vulvânus.

Das mãos do padeiro, quero o amassar rítmico

no pão que é minha carne. Do vinicultor,

seus pés a fermentar o vinho que é meu sangue.

Que desabrochem dentro de mim as caliandras,

alçando no labirinto das entranhas os chifres

dos rapazes nesse furdunço da estação primeira.

*

Granulação e coagem

a Federico Castoldi

Não importa quantos invernos

ou temporadas de chuva

você conta sobre a Terra.

O chuveiro e a sua nuvem.

Esse banho pela manhã,

a nuca molhada e quente

que seca ao ar livre,

e ela também a primavera.

Pelo barulho da água

entre o filtro e a garrafa

térmica, você sabe pronto

o café, que também cai

na xícara com a certeza

com a qual você mesmo

brotaria no cafezal.

Isso ensinou a idade adulta:

usufrutuar da gravidade,

ciente das massas e pesos,

reconhecer o choque

de matéria em matéria,

o líquido contra o sólido,

e dizer: há som porque viaja

no ar que respiro. Não

vivo no vácuo, há um pé

fora da cova ainda.

Que meu corpo cresça

como se granulam

nos galhos os grãos de tudo,

qual o café no cafeeiro

que chega ao meu bucho

só depois da torra.

Do açaí na palmeira

só importa um folículo

de pele, fino, fino,

e se bebe dessa lição:

o usufruto exige

certos sacrifícios.

A brasa que torra o café,

o açaí esfolado pela lixa.


*

Poema para ser lido em alfarrábio

Meus casacos, puídos como as calças,

de segunda-mão, como as camisas.

Em cada peça da indumentaria, instruídos

logo veem donde venho, minha classe.

Não tenho POBRE tatuado na testa

mas talvez nos cadarços e nos dentes.

As dores mesmo, em grande maioria,

são usadas, repetidas a cada geração

dessa gente que jamais ouve conselho

de pai e mãe, exige independência

nos tropeços, a cara própria para a prática

de estapeamento-ao-alvo do mundo.

De segunda-mão, até esse meu nome,

ao qual respondo se o gritam nas ruas

— mas quase sempre e com outros

que falam, são outros que eles querem.

Que se salvem esses meus xarás,

os desse nome que também e marca

de classe, de época, suas ilusões

e desastres, outra vez, pouco originais.

E até mesmo esse poema, olhem:

palavra nenhuma criada, inventada,

nem uma única sequer. Tudo usado,

puído, tudo gasto, nada por aqui e 0km,

esse vocabulário todo, coisa de sebo.

Está bem assim, ou não? Cantar de novo

o mal-de-amor, o mal-de-pobre,

todas as maldades do imperador,

dos seus ministros e dos seus inimigos,

a Revolução seguida sempre pelo Terror,

as maldades do corpo, nosso, alheio,

dos orgãos em falência, da pele

que se amarrota, os anos velocíssimos,

as alegrias com boleto e fatura.

E sabendo então que todos os outros

já sentiram esse faniquito, essa fisgada

na esquina das costelas, eu acrescento

açúcar ao café e estendo

o lençol limpo na cama de solteiro.

SOBRE O AUTOR 

Ricardo Domeneck é poeta, videoartista e performer. Estreou com “Carta aos anfíbios” (Bem-Te-Vi, 2005) e desde então publicou mais de dez títulos de poesia e prosa, entre eles “A cadela sem Logos” (7Letras, 2007), “Ciclo do amante substituível” (7Letras, 2012) e “O morse desse corpo” (7Letras, 2020). Foi coeditor da revista de poesia “Modo de Usar & Co" ao lado de Marília Garcia, Angélica Freitas e Fabiano Calixto. Seus poemas integram antologias de poesia brasileira contemporânea na Argentina, nos Estados Unidos, na Eslovênia, na Espanha e na Alemanha. Vive em Berlim desde 2002.

“A cidadania das bonecas de pano” 

De Ricardo Domeneck

Ars et Vita Editora 

128 páginas 

R$ 58

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Lançamento no próximo sábado (23/5), na Quixote Livraria, a partir das 11h, com a presença do autor e de Ana Martins Marques e Renato Negrão. 

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