Marcos Vinícius Almeida - Especial para o Estado de Minas
Nada é impossível para um romance. Ele é uma máquina de produzir imagens irreais com aparência de verdade. Pode devorar qualquer assunto, qualquer época, qualquer forma de vida. Por isso, o espanto causado pela chegada às livrarias de “Os imortais”, de Paulliny Tort, tem menos relação com a excentricidade do tema do que com a ousadia de executá-lo.
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Quem teria coragem de escrever um romance ambientado num mundo de linguagem rarefeita e anterior às formas modernas de subjetividade? Em outros termos: como construir um romance num horizonte cultural em que as noções de indivíduo, interioridade e consciência de si ainda mal haviam emergido?
É justamente aí que residem os maiores méritos e também os desafios de “Os imortais”. O livro narra o embate entre dois clãs de espécies distintas, sapiens e neandertais, em meio ao horizonte de escassez de recursos naturais, invernos vulcânicos e à lógica cotidiana da seleção natural. Ancorada em registro realista, conduzida por um narrador onisciente em terceira pessoa, que por vezes parece operar no registro da fábula (voltaremos a isso), a narrativa é estruturada por quatro capítulos que levam os nomes impessoais de “O Homem”, “A mulher”, “A menina”e de um evento, “A chegada”.
As descrições são vívidas e as personagens vão ganhando contorno à medida que se desenham os conflitos. Guerra, feminicídio, amor, escravização. Quem ocupa a maior parte do romance é A menina, uma garota humana que passa a viver com um clã de neandertais, como nos antigos westerns de abdução.
O texto é elegante e foge com inteligência de certa tendência de prosa poética contemporânea, com suas frases rasteiras e instagramáveis. Como temos a linguagem operando em subjetividades com expressividade verbal reduzida, o narrador encontra na autoironia uma figura de linguagem constante: “O Homem franze a cara, coça a parte de trás da cabeça. Mas quem sou eu para ser alimentado pelos brinquedos? E não precisa do verbo para se abrasar nesse constrangimento”. Não precisa do verbo, mas, em outros momentos, temos a sensação de estar lendo uma fábula na qual um homem das cavernas é forçado a meditar, involuntariamente, à maneira de Descartes ou Montaigne: “Se todos morrem para viver no Sonho, será para repetirem as mesmas contentas, sofrerem as mesmas necessidades, para existir e lutar indefinidamente sem nunca encontrar descanso? Não será possível simplesmente deixar de existir?”. Esse curto-circuito de verossimilhança também vai reaparecer em algumas descrições: “as crianças se juntam e riem como se vissem um palhaço.” Quem viu o palhaço? As crianças há 40 mil anos? Ou um narrador vindo do futuro e obsediando o olhar das crianças pré-históricas?
Noções de subjetividade e individualidade não são dados culturais universais. A indecisão da narrativa entre se assumir como fábula ou pastiche ou romance realista provoca pequenos ruídos. Algo que, de modo algum, atrapalha a viagem do leitor.
Há ótimas descrições ao longo da narrativa: “A fome é um transe. Depois das tonturas e dos calafrios, que são até singelos, vêm a náusea, a raiva estremecedora, a violência das cólicas, o desespero, então de repente não se sente mais nada e a cabeça flutua no vazio. Chega um momento em que o corpo se anestesia, se enche de ar, voando a metros do chão.” Em outro momento: “Nenhuma das crianças que cresceu na caverna jamais viu cavalo, vivo ou morto. Não viram a cabeça ornada com a crina brilhante, a cauda escura que espana e gira no ar, não comeram a carne dura que é preciso cozinhar o dia inteiro, só sabem que se parecem com os desenhos na parede.”
A composição dos cenários, a abordagem dos papeis de gênero e a descrição dos rituais tribais são cuidadosas e interessantes. Entre uma viagem de cogumelos, um surto de diarreia, arte rupestre, caça a cavalos, explosão de um vulcão e a construção de ferramentas, ‘Os imortais’ se destaca pela ousadia e poder imaginativo. Já é uma das grandes novidades do ano literário.
MARCOS VINÍCIUS ALMEIDA é escritor, mestre em Literatura e Crítica Literária, autor do romance “Pesadelo tropical” (Aboio, 2023).
Escritores comentam, nas redes sociais, o livro de Paulliny Tort
“Consegue recriar mundos e discutir temas atuais e futuros”
““Os imortais” é um romance com uma capacidade de ilustração fantástica, a narração consegue recriar mundos, cores, sons, consegue discutir temas atuais e futuros, tudo isso com uma linguagem coloquial, mas literária, que usa termos e animais extintos para dar um incômodo no leitor para que ele não se esqueça que o que está narrado ali não está acontecendo agora, tudo que vive pode parar de existir um dia. Numa literatura que gosta de olhar para si para explicar o mundo, é importante que uma autora olhe para o outro e consiga mostrar nós mesmos.”
Flávio Izhaki, autor de “Movimento 78” e outros livros
“Uma experiência que vai durar”
“Fazia muito tempo que um romance em terceira pessoa não me animava tanto. A riqueza vocabular, o modo como a natureza aparece como uma das personagens principais do romance, definindo lutas exteriores, mas também interiores de personagens às voltas com sentimentos complexos e escassez de linguagem, o jogo proposto nos títulos dos capítulos e que deixei pra armar ao final, tudo isso trouxe uma experiência de leitura que vai durar.”
Ieda Magri, autora de “Um crime bárbaro” e outros livros
“Concorre a merecer o título que lhe dá nome”
“Quero enaltecer a mão firme que narra uma história cheia de detalhes, de nuances, de horrores e surpresas. Paulliny Tort não é uma arqueóloga, não é uma antropóloga, mas, aqui, um escritora, e é enquanto escritora que faz as maravilhas consistentes que compõem “Os imortais”: as pessoas, os bichos, as águas, os conflitos, as bondades e as maldades [que são difíceis de compreender, mas ela não cede a essa incompreensão]: de repente, também nós, que lemos este livro, somos capazes de dizer algumas palavras sobre neandertais e humanos, somos capazes de nos solidarizar com uns e com outros e, por fim, enxergar a nós mesmos no ondulado espelho do tempo (...). . Há livros que nascem datados e têm três, quatro passos de vida. “Os imortais”, por sua vez, concorre a merecer o título que lhe dá nome.”
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Marcelo Labes, autor de “Memória do chão” e outros livros, no Substack
