ESTE CORPO
Verifico (versifico?)
As lâminas de anatomia
Frias
Falam de glândulas lacrimais como se
Chorar fosse
Apenas
Escoamento
Tomo papel
(desenho mal)
Meu atlas é feito de carne
E desordem.
*
PULSO
Artéria radial
Artéria ulnar
Artéria interóssea
Dizem que os que cortam o pulso
Horizontalmente
Não querem morrer
De verdade
Mas
Pode ser apenas
Falta de informação.
*
PELE
O maior órgão do corpo é para
Revestir
Você me pergunta o que há
Eu minto, e digo que
Não há nada
Ninguém pode nos adivinhar
As gigantescas tristezas ou
Crateras
E assim seguimos
Desconhecidos
Pele com pele
Para nos proteger.
*
DISSECAÇÃO PROFUNDA
Camada por camada
Tecido por tecido
Veia por veia
Artéria por artéria
Órgão por órgão
Olho por olho
Dente por dente
Ninguém
Jamais
Conhecerá
O que o outro leva
Por dentro.
*
CÉREBRO
Cada vez mais
A memória vai sendo
Substituída pela imaginação
Até quando não quero
Quase não tenho mais nada
E quase não tenho mais nada
Intacto
São invisíveis, eu sei
Que possuo cicatrizes
E se ainda me lembro
Tenho um corpo
E elas existem.
Não sei se é o passado
Ou o presente
Que me atravessa.
SOBRE O LIVRO
“Atlas de anatomia” é o mais recente livro da poeta mineira Adriane Garcia (, nascida e residente em Belo Horizonte e autora de, entre outras obras, “Fábulas para adulto perder o sono”, “O nome do mundo”, “Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois” e “A bandeja de Salomé”.
Na apresentação, o poeta e crítico Fabrício Marques afirma que Adriane fez um “livro-atlas”, formado “de carne / E desordem”. “Afinal, é no interior de cada corpo, singular, complexo, intransferível, prenhe de dramas e sonhos, que se passa a aventura da descoberta de si”, ressalta Fabrício.
Já a escritora e videoartista Lisa Alves afirma que os versos “não apenas nomeiam os ossos, músculos e órgãos: eles os fazem vibrar, tensionam sua significação e os libertam de discursos que tentam fixá-los”.
“ATLAS DE ANATOMIA”
De Adriane Garcia
Caos & Letras
116 páginas
R$ 55
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Lançamento em Belo Horizonte neste sábado (25/4) de 11h às 17h no restaurante Feijão Tropeiro (Rua Sergipe, 220, Centro, atrás da Igreja Boa Viagem)
