Lucas Daniel Tomáz de Aquino - Especial para o Estado de Minas
Em uma tarde de 1975, na Cidade do México, no lendário Café La Habana, onde Ernesto Che Guevara se encontrara com Fidel Castro para planejar a Revolução Cubana, o rosto do escritor chileno Roberto Bolaño encontrou o do poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro.
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Daquela conversa sairia mais tarde um movimento literário underground que abriria caminho para a carreira de um dos escritores mais celebrados daquela geração. Do café La Habana, após uma reunião na casa do poeta Bruno Montané, surgiria entre os amigos o primeiro Manifesto Infrarrealista, redigido inteiramente por Roberto Bolaño no ano seguinte.
Do manifesto, a dupla colocou-se em movimento. Papasquiaro recrutou poetas para o “Infra”, como eles carinhosamente chamavam. A lista de poetas latino-americanos contou com nomes como Rubén Medina, María Guadalupe Ochoa Ávila, Héctor Apolinar, dentre outros. A maioria dos escritores vieram de oficinas de poesia na Universidade Nacional Autônoma do México (Unam).
Por outro lado, Bolaño foi atrás de artistas plásticos e editores. Executou publicações e recitais de poesia. Escreveu textos para a revista mexicana Plural e organizou uma antologia de jovens poetas, conta Montserrat Madariaga Caro, professora universitária e autora do livro “Bolaño Infra” (1975-1977), publicado pela RIL editores, em 2013.
Em fins de 1977, os jovens publicam uma revista chamada Infra que conta com uma miríade de artistas como Javier Suárez Meji, José Peguero, Carlos David Malfavón e Rubén Medina, este último co-fundador inicial do movimento e hoje professor da Universidade Wisconsin–Madison, nos EUA.
Esta única edição da revista contava com um poema de Papasquiaro intitulado “Conselhos de um discípulo de Marx a um fanático de Heidegger”. Este título inspiraria a primeira novela redigida por Roberto Bolaño juntamente com o escritor A.G. Porta chamada Conselhos de um discípulo de Morrison a um fanático de Joyce (1984).
A primeira leitura do “Manifesto Infrarrealista” ocorreu na Livraria Gandhi, na Cidade do México, em 1976. No texto eles contam que o nome remete ao dadaísmo e ao surrealismo, a André Breton, especialmente em seu Lâchez-tout (Largue tudo): “Nossa ética é a Revolução, nossa estética é a Vida: uma só coisa”, diz o Manifesto.
Os poetas “infra”, marginais que se autodeclaravam, tinham atitudes críticas ante a tradição pequeno-burguesa dos escritores dos anos 1960. Adicione-se a isso a influência e espírito beatnik, da paixão etílica de alguns poetas, da obsessão literária e do flanar a esmo, tal como fizeram desde a época das primeiras reuniões do movimento no Café La Habana.
O desejo de seus autores era então o de escrever com ardor e delírio, como se a vida de seus membros guardasse uma profunda dependência da criação literária, como se a poesia não se desvinculasse de seus autores e invadisse as ruas e as vidas de seus leitores.
Este intento de levar a literatura às ruas e ultrapassar as páginas dos livros aconteceu essa semana (11/06) durante a Feira do Livro de Madri, na intervenção poética chamada “La fiesta que les debemos — 50 años del Infrarrealismo” uma homenagem crítico-afetiva ao movimento de neovanguarda mexicano.
Em novembro de 2024, a Feira Internacional do Livro Migrante, que ocorreu em Barcelona, já havia homenageado o movimento. Em abril de 2025, a Casa Amèrica Catalunya e a Biblioteca Gabriel García Márquez organizaram uma leitura conjunta do romance “Os detetives selvagens”. A gênese do movimento Infrarrealista ganhou seu registro ficcional neste livro, um dos mais aclamados do autor, vencedor do Prêmio Herralde e do Rómulo Gallegos. A obra, publicada em 1998, conta a história de Arturo Belano (anagrama de Roberto Bolaño) e Ulisses Lima (inspirado em Mario Santiago Papasquiaro).
Ambos os personagens são poetas marginais de um movimento literário de vanguarda da década de 1920 chamado “Real visceralismo”, cuja inspiração é o próprio Infrarrealismo. “Os detetives selvagens” está na lista dos 100 Melhores Livros do Século 21 do New York Times.
Todos os personagens de “Os detetives selvagens”, bem como os poetas “Infra” do México de 50 anos atrás, têm em comum a origem. São advindos do subsolo do fracasso das utopias políticas do século 20. Especialmente as ditaduras militares da América Latina dos anos 1970, tema que permeou boa parte da ficção de Bolaño até sua morte em 2003 por insuficiência hepática.
O movimento Infrarrealista hasteava ainda uma missão de, como dizia o próprio Manifesto, “subverter a vida cotidiana” em meio a um “oásis de horror em meio a um deserto de tédio”, como diz Baudelaire na epígrafe de “2666”, o mais célebre romance do escritor chileno.
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Se eles conseguiram? Quem responde é o próprio Roberto Bolaño em seu poema “Los perros românticos”: “Naquele tempo eu tinha vinte anos e estava louco. Havia perdido um país, mas havia ganhado um sonho”.
