Quem viveu a Belo Horizonte dos anos 1950 talvez se lembre dele: sempre de terno, ele era um daqueles garotos estilosos que toda noite batia ponto na leiteira Tirolesa. Grande agitador cultural, ao lado de Theotônio dos Santos Jr., Mauricio Gomes Leite, Silviano Santiago, Ary Xavier, Ezequiel Neves e Pierre Santos criaria a revista Complemento em 1955. Nascido na capital mineira no dia 22 de julho de 1933, Heitor Martins, uma das maiores autoridades em literatura brasileira e portuguesa nos EUA onde morava desde os anos 1960, morreu no último domingo no Arizona. Tinha 93 anos.
O mais velho dos rapazes da chamada geração Complemento, antes de se formar em Letras Neolatinas, na UFMG, Heitor trabalharia como jornalista no Tribuna de Minas cobrindo política. Depois de um curto período em São Paulo, onde se tornou amigo do inigualável Oswald de Andrade, retornaria a Belo Horizonte onde seria o grande responsável pelo sucesso editorial da Editora e Livraria Itatiaia daqueles anos. A primeira edição do romance “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, e a edição de “Duas faces”, estreia literária dos escritores Ivan Angelo e Silviano Santiago, tiveram sua mão. Durante anos, assinou a coluna Plantão Literário, no extinto Diário da Tarde, que cobria a vida literária do país.
Homem de grande erudição, Heitor foi autor de livros de temas diversos, que vão de “Bocage e Minas”, publicado em 1966 a “Oswald de Andrade e Outros”, de 1973. Com passagens pela University of New Mexico e Tulante University, Heitor ensinou praticamente durante a vida toda na Indiana University, em Bloomington, onde era professor emérito do departamento de espanhol e português. Mestre de várias gerações, foi o primeiro e o mais importante divulgador da literatura brasileira contemporânea nos Estados Unidos.
JOÃO BARILE é jornalista e escritor, autor de “Presente do acaso: um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago” (Autêntica, Prêmio APCA na categoria melhor reportagem/biografia)
Leia trechos de entrevista concedida em outubro de 2022 por Heitor Martins (foto) a Rogério Faria Tavares, então presidente da Academia Mineira de Letras, para o canal do YouTube da AML
INÍCIO DA REVISTA COMPLEMENTO
“Nós tínhamos criado um jornalzinho no Colégio Anchieta, que se chamava O Anchieta, um jornalzinho pequeno, e nós queríamos fazer uma revista. E, então, tivemos contato com um agente de outras áreas de arte. Isso foi uma coisa muito curiosa que aconteceu. A Revista do Modernismo, a Edifício, Tendência…Todas as revistas eram revistas literárias, exclusivamente. Não queríamos uma revista literária. Queríamos uma revista que tratasse de todas as artes, que houvesse interação entre as artes. Tanto que nós nos conhecíamos. Eu, por exemplo, era frequentador da escola do Guignard. Eu conheci muito o Guignard e os alunos dele (...). Foi uma revista cultural que incluiu todo mundo e qualquer coisa. E incluiu também, eu acho, pela primeira vez mulheres como autoras. O Complemento é uma revista muito frágil, tem muito pouca coisa de grande importância, mas a ação dela eu acho muito mais importante. Por causa dessa reunião de todos.”
FACULDADE DE FILOSOFIA
“A Faculdade de Filosofia foi a faculdade que modificou o mundo cultural. Porque, de início, antes da faculdade de Filosofia, o sujeito que queria estudar alguma coisa que fosse humanidades ia para a escola de Direito (...). A Faculdade de Filosofia permitia que ex-seminaristas, meninas da escola normal, que fizeram escola em colégios de freiras, entrassem. Quase todo o tempo em que eu estive na faculdade de Filosofia, o máximo que tinha de homens, numa turma de 20 ou mais, eram três ou quatro (...). Os homens da faculdade de Filosofia eram quase todos das ciências. Ciência pura, Matemática, Química, Física. Era isso.”
COLABORAÇÃO COM O ‘JORNAL DO BRASIL’
“Eu mandei um poema, eu acho, para o ‘Jornal do Brasil’. O Mário Faustino tinha uma página inteira; um pedacinho da página era para colaborações de qualquer pessoa. Eu mandei um poema, sob pseudônimo. Ele tratou bem o poema, estava bom e tal. Aí eu mandei uma outra colaboração, acho que foi uma resenha de um livro. Foi uma resenha do livro “Estética”, de Max Bense, que tinha sido traduzido para o espanhol. Aí eu comecei a corresponder também com eles. Com o Reynaldo Jardim, principalmente, que era o diretor. E, nessa época, os concretistas de São Paulo também estavam mais ou menos colaborando, mas aí eles brigaram com o Ferreira Gullart. Piorou, mas eu continuei. E eu comecei a escrever artigos. Fui subindo. Lembro quando saiu o ‘Doutor Jivago’, eu fiz um artigo de duas páginas. Eu tinha muito contato com escritores argentinos, nomes de vanguarda. Logo depois surgiu também o Suplemento de “Estado de S.Paulo”, que era com o Décio de Almeida Prado. Eu nunca o conheci pessoalmente, mas diria que é um grande amigo meu por que me publicava. Tudo que eu mandava saía lá.”
ENCONTROS COM OSWALD EM SÃO PAULO
“Eu fui para São Paulo para trabalhar (...). Trabalhei na Livraria Francesa. Um dia, eu procurei o Mário Donato, do (romance) ‘Presença de Anita’. Na época, o livro tinha sido excomungado, mas ele era pessoa muito conhecida e tinha uma amante chamada Carmen Dolores Barbosa, que dava um prêmio literário, e ele era superprotegido dela. Andava no carro dela com o chofer… E eu tinha levado uma carta de recomendação do Bueno (de Rivera) para ele. O Bueno conhecia ele. Eu recebi um telefonema dele que falava assim “Olha, o Bueno pediu para te apresentar a intelectuais aqui. Eu estou indo agora para a casa do Oswald de Andrade, vou visitá-lo. Você quer ir junto?”. É lógico! E fomos para lá. Nesse mesmo dia, apareceu o Edgar Braga, era o médico do Oswald de Andrade, que estava muito doente. Eu creio que ele deve ter tido um câncer, talvez um câncer do cólon, que era uma doença terrível na época, ainda é, hoje. Ele andava com uma rodinha assim para poder sentar. Nós conversamos bastante nessa reunião e ele quis o meu telefone, me deu o telefone dele, eu dei o meu telefone… Passaram-se dois dias e ele me telefona. Queria saber como eu estava, essa coisa social. E me chamou de novo. Falou: ‘Vem me visitar aqui, de novo’. O homem estava absurdamente sozinho, entende? Abandonado, completamente abandonado! Nós nos encontrávamos pelo menos a cada duas semanas. Muitas vezes, era na mesma semana. Ele gostava de falar sobre tudo, era um homem muito interessado em tudo e tinha esse negócio de estar abandonado. Raramente eu via a mulher dele, a Maria Antonieta D’Alkmin. Ele tinha dois filhos. Andava muito preocupado com os dois filhos, que eram pré-adolescentes, na época, porque ele considerava que estava morrendo, que estava perto da morte. Ele estava preocupado com o futuro desses meninos, porque já não tinham quase dinheiro. Nós ficamos mais ou menos amigos. Eu o escutava falando sobre Modernismo... Uma vez ele perguntou: “E o Modernismo venceu lá em Minas?”
PRESENÇA NOS EUA
“Tive muita sorte, de certa maneira, com a minha presença nos Estados Unidos. Eu fui muito bem tratado o tempo todo. Fui professor visitante em várias universidades, universidades importantes, Texas, Stanford, Illinois. Participei de muitas publicações de revistas eruditas e de muitos congressos. Eu fui, durante um certo tempo, por exemplo, diretor do maior serviço de bibliografia, representava a bibliografia brasileira na área de literatura. Tudo isso foi uma boa vida, de certa maneira, não tenho grandes reclamações. E tenho até hoje o meu interesse como professor. Até hoje, vários dos meus amigos são estudantes de pós-graduação na universidade.”
JORNALISTA E PROFESSOR
“Acho que eu sou, mais do que tudo, talvez, um jornalista. Grande parte das coisas que eu escrevi foram publicadas em jornais. Eu respeitei imensamente os suplementos literários. Isso é um detalhe, mas que eu acho importante. E também professor. Embora o jornalismo, hoje, ande muito meio perrengue, vamos dizer, por causa da intromissão política, principalmente, eu acho ainda que o professor é um sujeito que transmite coisas que são verdadeiras. E o jornalista também.”
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