Adalberto Müller - Especial para o Estado de Minas

Gestadas a partir da segunda metade do século XIX, a etnografia e a psicologia são as ciências que mais vão afetar e modificar o conhecimento que o homem desenvolveu sobre si mesmo ao longo de quatro milênios de tecnologias de transformação, de ciência e de cultura escrita. Aliás, levando-se em consideração a etnografia, o próprio uso do termo genérico “homem” se torna questionável, uma vez que a etnografia e a antropologia abrem uma fenda gigantesca na noção que temos do humano, revelando diferenciações e gradações que comprometem quaisquer tentativas de totalização, do mesmo modo que abalam tradicionais dicotomias (civilizado/selvagem; escrita/oralidade; ocidental/oriental etc.).

Do mesmo modo, a psicologia e a psicanálise vão abalar a ideia de uma unidade interna de consciência e de comportamento do homo sapiens sapiens civilizado, revelando que tanto do lado da consciência (que também atendia pelos nomes de razão, ou psique ou alma) quanto do lado do comportamento (ou instinto ou impulso) o humanoide se parece mais a uma marionete de forças invisíveis que estão ao mesmo tempo dentro dele (como o superego freudiano) ou fora dele ou na relação com o mundo exterior (como nos objetos transicionais de Winnicott).

Ao longo do século XX, a literatura e as artes serão profundamente marcadas pelas descobertas da psicologia e pela etnografia. Pode-se facilmente identificar isso nos usos de elementos primitivos na pintura moderna (como as máscaras africanas na pintura de Picasso ao nosso “Abaporu”), ou, no caso da literatura, na técnica do fluxo de consciência no romance de James Joyce ou de Virginia Woolf – que Henry James tomou emprestado ao seu irmão William James, no seu Princípios de Psicologia (1890). Também se veem essas marcas no uso que Mário de Andrade vai fazer dos mitos amazônicos em Macunaíma, mitos recolhidos na obra etnográfica de Theodor Koch-Günberg. A própria teoria psicanalítica de Freud e de Jung vai beber em fontes etnográficas (em Totem e Tabu, de Freud, por exemplo). Por outro lado, a obra antropológica de Lévi-Strauss (que se inicia no Brasil nos anos 1930) vai dialogar com a linguística (outra ciência maior do século XX) e penetrar no tecido teórico de praticamente todas as ciências humanas, influenciando também a formação de movimentos artísticos.

A trajetória do escritor Pedro Cesarino, que lança sua terceira obra de ficção narrativa em 2025 (Os urubus não esquecem), se desenvolve no contexto que acabamos de descrever. Como Darcy Ribeiro de Maíra ou como o escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho (autor de Os papeis do inglês), Pedro de Niemeyer Cesarino é etnógrafo e antropólogo de formação, e além do mais professor de Antropologia na USP (onde Lévi-Strauss começou a lecionar). Os três livros de ficção que Cesarino assina (Rio acima, 2016; A repetição, 2023 e Os urubus não esquecem) estão implicados no seu trabalho antropológico, a ponto de poderem ser considerados desdobramentos literários dele. Embora o autor, que retira dos seus livros literários o nome “de Niemeyer”, talvez não nos autorize a dizer isso. Ou talvez o Cesarino ficcionista seja um duplo de Niemeyer.

Vejamos.

Pedro de Niemeyer Cesarino estudou as cosmologias dos povos falantes de línguas pano, em especial os Marubo, do extremo oeste do Amazonas. Seu monumental trabalho antropológico está sistematizado em Oniska, poética do xamanismo na Amazônia (2011), no qual defende a tese de que o xamã marubo é ao mesmo tempo um tradutor (das vozes de seres não-humanos, como espíritos de árvores ou de pássaros) e um aparelho de rádio que, em rituais complexos, que envolvem o uso de substâncias alucinógenas, atua como um receptor/transmissor dessas mesmas vozes, que incluem as pessoas mortas ou os ancestrais humanos e não-humanos. Em outros termos, o xamã lida o tempo todo com duplos (que chamamos aqui de vozes, e que são comumente chamados de espíritos na nossa língua), sendo o seu corpo uma maloca que, nos rituais, é ocupada por diversas vozes que o atravessam e que se comunicam com os demais membros da comunidade. A princípio, dir-se-ia que esse xamã-maloca é como o “cavalo” das religiões afro-brasileiras, mas ocorre que, enquanto está ocupado, o xamã ele próprio vai ocupar outras malocas (ou mundos), numa viagem existencial que depois se transformará em canto, em poesia cantada. Então, além de ser um tradutor e um aparelho de rádio, o xamã é também um poeta.

Num outro trabalho brilhante, Quando a terra deixou de falar (2013), Niemeyer Cesarino nos apresenta uma tradução de cantos xamânicos marubo, longos poemas narrativos com uma estrutura formal muito rígida, mas que, do ponto de vista narrativo, são alucinados e alucinantes. Cada canto marubo é uma viagem, tanto no sentido alucinógeno quanto no sentido concreto, pois trata de percursos narrativos de um xamã em busca de algum elemento existencial e comunitário. Num deles, por exemplo, um determinado duplo do xamã Samaúma (como a árvore gigantesca) sai em busca da esposa morta, atravessando diversos “reinos” dos mortos, numa narrativa que lembra o mito de Orfeu e Eurídice. Embora esteja em geral com o corpo deitado numa rede, durante os rituais, o xamã marubo, quando canta/narra suas experiências, é capaz de desvelar segredos importantes para a vida comunitária.

Quem leu Rio acima e “O mentiroso”, primeiro conto de A repetição, talvez já tenha identificado um pouco da presença do trabalho antropológico de Niemeyer na ficção narrativa de Cesarino. Mas é claro que não se trata de uma mera aplicação de conceitos e informações etnográficas na obra literária, assim como o Macunaíma de Mário de Andrade não pode ser reduzido aos mitos macuxi, pémon, wapichana e taurepang recolhidos por Koch-Grünberg. Toda obra literária pressupõe um investimento estilístico-ficcional que não coincide com nenhum tipo de realidade – seja a realidade do sertão de Graciliano Ramos ou as múltiplas realidades dos mitos e cosmologias dos Marubo. Mesmo entre Rio acima e “O mentiroso” já há uma diferença grande no tratamento do material antropológico/etnográfico. Pois, se no primeiro, a figura do etnógrafo surge como personagem e condutor da narrativa (com seus métodos e suas observações comprometidas), em “O mentiroso” o etnógrafo/antropólogo desaparece, e dá lugar ao mundo dos indígenas aparentemente “sem observador”, ou melhor, de um observador ausente, que, por acaso, é o narrador, enquanto máquina de ver/observar/anotar os fatos verdadeiros ou inventados, uma máquina invisível e objetiva.

Enfim, em Os urubus não esquecem, de Pedro Cesarino, também encontramos o material da etnografia sobre os Marubo, e a máquina narrativa só se deixa ver pela forma como manipula as perspectivas e o tempo, o mais das vezes disfarçada naquela neutralidade e imparcialidade que Flaubert preconizava. Também a “realidade” desse romance extraordinário é mais complexa e universal, porque envolve a violência exercida pelo extrativismo da madeira e pelo tráfico de drogas nas fronteiras da Amazônia (ao que parece, o romance foi sendo escrito à luz dos acontecimentos trágicos no vale do Javari, quando do assassinato cruel de Bruno Pereira e Dom Phillips).

No novo romance de Cesarino, o leitor se depara com uma meia dúzia de personagens ou de fluxos de consciência, apenas para lembrar o que dissemos acima sobre psicologia e literatura. Uma mãe indígena (Maya) procura o corpo desaparecido de seu filho, assassinado brutalmente por um traficante (Picanha), a serviço de Glauber, filho de um prefeito corrupto, envolvido com a extração e contrabando de madeiras nobres e com o tráfico de drogas. E, finalmente, no centro de tudo, uma pajé intersexo, Noma, que é assediada violentamente por Glauber, se põe a serviço de Maya para encontrar o corpo do filho desaparecido.

Até aí, o que temos é um bom thriller policial realista, que pinta com cores fortes a violência das fronteiras amazônicas, e que talvez pudesse ser elencado na tradição do melhor romance policial brasileiro contemporâneo (de Rubem Fonseca a Patrícia Melo). Mas é aí que entram os urubus, esses personagens não humanos, que se alimentam dos restos humanos e de outros animais, e que tudo sabem (porque sabem da morte, do sabor dos corpos e de sua localização). Não digo mais, para não dar spoiler. Mas essa capacidade de trabalhar com um elemento narrativo não humano é o que distingue radicalmente Cesarino dos seus contemporâneos escritores de bons thrillers realistas.

Lido pelas lentes da antropologia e da literatura, ou na convergência das duas lentes, Os urubus não esquecem se destaca das principais tendências da literatura brasileira contemporânea, inclusive da tendência “identitária”, esse nome que se usa um pouco como um elixir milagroso para definir diversos tipos de literatura produzida a partir de grupos sociais minoritários, ou que tratam desses grupos. Por razões óbvias, Cesarino não pode ser enquadrado dentro do rótulo “escritor indígena”, nem seus livros de ficção aceitariam o rótulo contraditório de “literatura indígena”. Nem se trata aqui de adotar um ponto de vista indígena, ou de engajar-se numa suposta “causa indígena” ou minoritária (como têm feito muitos escritores contemporâneos).

Talvez a melhor maneira de ler Os urubus não esquecem seja mesmo a de não ser urubu, e esquecer de tudo. Ou de simplesmente ficar “urubuzando” (sobrevoando). Nessa primeira leitura, o prazer é enorme: os personagens são tão vivos e a Amazônia é tão real que parecemos estar diante de uma obra naturalista escrita por um Émile Zola que tivesse nascido na Amazônia fronteiriça. E depois, então, reler com os métodos críticos de um urubu, que sabe como, quando e onde a matéria narrativa se compôs (ou melhor, se decompôs). Se isso for possível, talvez se possa dizer que Cesarino é um escritor-xamã, e que o que ele está fazendo é algo como colocar a literatura dentro de uma ótica xamânica caleidoscópica, que a cada giro nos revela uma camada mais profunda da Amazônia e do Brasil. Isso não me parece ser pouco.

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Adalberto Müller é professor titular de teoria da literatura na UFF, pesquisador do CNPq e da FAPERJ.

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