“Começo”
Quando o avião encontra o solo do novo país, é nos versos de Warsan Shire que ela pensa: Ninguém deixa a casa, a menos que a casa seja a boca de um tubarão. Está preocupada com Quincas, que cruza o oceano pela primeira vez. Como pesa menos de oito quilos, pôde viajar a seu lado na cabine. O veterinário prescreveu gabapentina para que suportasse as horas. Quincas é um cachorro sereno e silencioso, mais curioso do que assustado, e Mariana se pergunta se o zelo não teria sido excessivo. As pupilas enormes e acesas, o corpo entregue, plácido. Era verão no hemisfério Norte. Ao desembarcarem, ela se esqueceu de pisar primeiro com o pé direito, como a mãe lhe ensinara. Quando se deu conta, estava com os dois pés no chão.
Clomid. Letrozol. Desogestrel. Fostimon. Miosan. Venlift. Olanzapina. Zolpidem. Essa era a combinação química com a qual o corpo de Mariana tentava lidar na manhã do terceiro para o quarto dia de estimulação hormonal, a terceira tentativa de fertilização in vitro. Naquela tarde, sete meses antes da mudança que estava por vir, ela faria um ultrassom transvaginal para acompanhar o crescimento dos óvulos. Na primeira consulta, o médico assegurou que ela sentiria, se tanto, um pouco de inchaço, e que todas as outras coisas narradas por aí — a montanha-russa de emoções, a explosão de espinhas, as crises depressivas — eram mais frutos da ansiedade que dos hormônios. Disse que se ela estivesse calma e forte, com a cabeça no lugar, tudo correria bem. Então se voltou para a biomédica, que acompanhava a consulta: Lembra aquela paciente que fez tudo numa velocidade de cruzeiro, sem se estressar, não sei quantos ciclos, e hoje tem dois filhos? A biomédica, uma moça pequena de no máximo trinta anos, fértil e tranquila, sorriu e acenou que sim.
Não sei quantos ciclos. O preço não deve ter sido uma questão, Mariana teve vontade de responder. Somando o valor das medicações, dos exames que o convênio não cobria e das análises genéticas dos embriões, ela e o marido gastariam boa parte das economias. Agora Mariana está sozinha em casa, afundada nas cobertas. Na noite anterior, preferiu não tomar banho, e na noite anterior àquela também. Nenhuma higiene pessoal, só um pouco de desodorante por cima do cheiro molhado das axilas. Escovou os dentes sem empenho, encobriu o desdém com enxaguante bucal e cuspiu um jato verde raivoso.
Sente-se um pouco mais disposta desde que desistiu no meio da terceira tentativa. Faz poucos meses, mas a melhora de ânimo é notável, não sabe se por conta da suspensão dos medicamentos ou por encerrar um ciclo exaustivo de tentativas e fracassos. Reviraram seu corpo de cima a baixo e nunca encontraram nada. O marido foi aprovado com louvor na contagem de espermatozoides. Partiram para a fiv por recomendação médica, o que, a princípio, soou como um alívio. Registrar as menstruações e seguir os dias recomendados pelo aplicativo havia tornado o sexo uma tarefa mecânica. Agora, três ciclos de estimulação, duas coletas de óvulos (vinte e quatro, no total), formação de embriões (cinco), análises genéticas e zero possibilidades de implantação pareceram o bastante. Toda vez a mesma cronologia: quantos óvulos iriam se formar, chegariam ao tamanho certo, quais óvulos fecundados vingariam e se transformariam em embriões. Então vinham os dias arrastados de espera, para o laboratório responder que nenhum deles era compatível com a vida. A clínica de reprodução encaminhava os laudos por WhatsApp, acompanhados de emojis tristes. Quando decidiu interromper o tratamento, também fez questão de colocar um diu de cobre.
Ao chegar no apartamento depois da última consulta, Mariana parecia voltar de outro mundo. Primeiro, imaginou que o estranhamento vinha do fato de que, fora as visitas médicas, havia tempos mal saía de casa. Talvez tenha ido longe demais, deixado seu epicentro de segurança, de seu quarto, de sua cama, da companhia gentil de Quincas. A depressão estabelece limites físicos muito estreitos. Mas, pensando bem, não era isso. Ela voltou para casa e não se sentiu aliviada, nem protegida. Tudo no apartamento parecia pontiagudo e árido. Tomou fôlego e foi até a varanda. Quincas acompanhou o movimento com entusiasmo — seus passeios diários tinham se limitado aos horários do marido: de manhã, ele o levava até a praça mais próxima e o deixava brincar na área reservada aos cachorros enquanto lia o jornal. À noite, davam uma volta pelo quarteirão. Então, quando Mariana de repente decidiu ir à varanda, Quincas tremia de alegria, os pelos amarelos eletrizados. Era um cachorro compreensivo, mas nunca havia de fato se conformado à mesmice silenciosa dos últimos tempos.
Na varanda, não havia uma planta sequer, apenas uma pequena mesa com duas cadeiras. Todo o espaço em volta estava vazio. No canto, vasos que um dia foram morada de alecrins, tomilhos, orquídeas, peperômias, cactos-estrela e muitas marantas. Agora estavam amontoados um dentro do outro, ainda manchados de terra seca. Talvez Quincas também sentisse falta das plantas, o focinho inspecionando cada vaso com atenção, alcançando o vestígio que tinham deixado, como deixam todas as coisas que existiram e não existem mais.
SOBRE A AUTORA E O LIVRO
Psicanalista, tradutora e pesquisadora, a mineira Fabiane Secches (foto) nasceu em 1980 e fez mestrado em teoria literária e literatura comparada na Universidade de São Paulo. Organizou, entre outras obras, a coletânea “O dia escuro: contos inquietantes de autoras brasileiras” (com Socorro Acioli) e a antologia “Na arca: Machado de Assis e os animais”, com Maria Esther Maciel. Para Natalia Timerman, “Ilhas suspensas”, a ser lançado no início de fevereiro pela Companhia das Letras, “não parece um romance de estreia, parece mais um retorno: o retorno de uma longa viagem à devastação da perda, à renúncia da maternidade”, diz a autora de “Desterros”. “Com uma voz narrativa que combina ficção e ensaio, ternura e lucidez, este belo romance de Fabiane Secches nos convida a encarar os impasses da vida contemporânea de olhos bem abertos, ávidos por enredamentos possíveis”, afirma Daniel Galera, de “Barba ensopada de sangue”
“ILHAS SUSPENSAS”
De Fabiane Secches
Companhia das Letras
160 páginas
R$ 74,90
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Nas livrarias a partir do dia 10 de fevereiro
