“Escrever em Havana impôs a muitos a necessidade de escrever sobre Havana. E em meu caso foi uma exigência”, narra o escritor Leonardo Padura Fuentes no livro mais recente a chegar ao Brasil. “Minha condição de havanês, embora sendo habitante da periferia, minha conexão com a cidade e a assimilação visceral que durante trinta anos vinha fazendo dela, reverteu-se numa conjuntura contextual muito definida para a criação da literatura que eu queria e podia escrever, a narrativa que uma realidade altamente dramática e agressiva reclamava de mim”, conta o autor, nascido e crescido no bairro de Mantilla, em “Ir até Havana”(Boitempo).
Definido por Padura como “o livro que eu sempre quis escrever”, “Ir até Havana” apresenta uma coleção de lembranças e reflexões sobre a capital cubana, complementadas por fragmentos de romances nos quais a cidade aparece com destaque. “Este livro é um canto de amor à cidade em que nasci e vivo, escrevo e padeço, o lugar do mundo ao qual pertenço como uma bênção ou uma fatalidade inapeláveis”, complementa o autor na introdução.
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Leonardo Padura Fuentes é o autor do best seller “O homem que amava os cachorros” e criador de um dos personagens mais marcantes da literatura contemporânea, o investigador aposentado Mario Conde, protagonista da série de romances policiais Estações Havana. Ele afirma que a sua relação com Havana é “complexa e dialética”. “O pertencimento havanês foi um processo que, como um pêndulo, passou da descoberta à assimilação, do deslumbramento ao rechaço, do amor a momentos de aversão, da cumplicidade da proximidade àquele estado de estranhamento quando se produz o choque entre o desejado ou lembrado e o realmente encontrado, sensação que gosto chamar de ‘alhenitude’”, conta o morador do bairro de Mantilla, no sul da capital, onde mora desde que nasceu, em 1955.
“Desde muito pequeno comecei a ‘ir até Havana’, lugar cheio de atrativos, ao qual sentíamos que pertencíamos e ao mesmo tempo não pertencíamos”, lembra Padura, ao citar Havana Vieja, o centro urbano comercial e a antiga Calzada de la Reina como lugares que ficaram na memória “que ainda consigo evocar com absoluta transparência, embora há décadas restem apenas vestígios da maioria dos lugares que a engendraram – quando não se esfumaram, simplesmente.” No livro, prevalece uma visão desencantada do local onde nasceu e cresceu. Ele inclusive não descarta deixar de morar em Havana. “Tudo era mágico e agora, em contrapartida, é deprimente”, lamenta o escritor.
Leia, a seguir, a entrevista de Leonardo Padura ao Estado de Minas.
Por que você diz que este é o livro que sempre quis escrever?
Há muito tempo venho me perguntando o que é ser cubano. Inclusive escrevi um romance, intitulado “A novela da minha vida”, para tentar me aproximar dessa questão, que implica não apenas quem sou, mas porque sou como sou. Como não sou filósofo, procurei encontrar razões por meio da literatura, da minha própria literatura, que é essencialmente cubana, e nesse processo fui entendendo que sou um cubano de Havana, mas me dei conta muito cedo de que sou um havanês do meu bairro periférico, Mantilla, e, inclusive, que sou a pessoa que sou na casa em que nasci e vivo em Mantilla, Havana, Cuba... e refletir sobre minha relação com esse pertencimento, com minha permanência no mesmo lugar, com as formas de entender e expressar minha identidade, creio que são razões suficientes para querer escrever um livro sobre o espaço físico e cultural que me define como pessoa e, no meu caso, como escritor.
Você se lembra da primeira vez que saiu do seu bairro, Mantilla, e “foi a Havana”? O que ficou na memória? E, na ocasião mais recente, o que chamou sua atenção?
Mais do que a primeira, creio que foram as primeiras vezes... Lembro com muita nitidez do menino de três, quatro anos, que se deslumbrou com as vitrines das grandes lojas do centro, adornadas com motivos natalinos, com luzes e brinquedos. Também a visita à casa das minhas tias e primos no centro da parte colonial, Havana Vieja, onde sempre havia cheiro de gás metano que vazava das tubulações subterrâneas... Tudo então era mágico e agora, em contrapartida, é deprimente: a última vez que passei por esses lugares vi as ruas sujas, tudo descascado, e as pessoas tentando encontrar alternativas de sobrevivência vendendo coisas nas calçadas... e me lembrei das “candongas” angolanas (mercados populares informais), com seu mercado de misérias. Muito triste.
No livro, você diz que ir a Havana com seus pais era uma festa. O que foi o mais chamativo dessa festa? E quando você sentiu que a festa tinha terminado?
Era uma festa de descobertas, das quais falo muito no livro. O assombro, por exemplo, de ir pela primeira vez ao grande estádio de beisebol da cidade, ver o campo, as luzes, as pessoas, os jogadores. Uma revelação deslumbrante. Depois, já adolescente, comecei a ir sozinho à cidade e sempre me acompanhou essa sensação de descobertas que, talvez, foi a mesma que me acompanhou quando, já adulto, percorri a cidade como jornalista, buscando histórias e personagens para reportagens como as que resgato para a parte final deste livro: lugares mágicos, personagens desproporcionais, músicos geniais... e posso te dizer que, apesar dos meus anos e das deteriorações da cidade, a festa não terminou; talvez não seja igual, mas Havana tem um espírito invencível.
Você poderia explicar aos leitores brasileiros qual é esse sentimento de “alhenitude” que a cidade provoca em você?
É sentir-se alheio, estranho, excluído, forasteiro no meio mais próprio. É ver a cidade com distância sentimental, sentir que já não é a mesma e que vai deixando de me pertencer ou eu vou deixando de pertencer a ela, e é uma reação dolorosa para alguém que nasceu, vive e escreve na cidade e pela cidade. Sei que as cidades mudam com o tempo, pois são seres vivos. As pessoas, igualmente. Mas quando essas mudanças externas e internas vão a velocidades diferentes, produzem-se esses desajustes sentimentais e sentir-se alheio, excluído, é uma das reações possíveis
O livro inclui trechos de romances com passagens ambientadas em Havana. Quando você escreve sobre a cidade, você pesquisa, vai aos lugares que serão escritos ou prefere confiar na memória?
Depende. Se vou ao passado, então pesquiso. Se é sobre o presente, então vejo. E, em qualquer caso, recorro muito à minha memória. O romancista é um armazém de memórias e é preciso tê-lo sempre aberto e iluminado enquanto se escreve, pois nunca se sabe quando pode ser necessário buscar algo nesse armazém.
Você acha que Havana também pode ser considerada um dos personagens dos seus livros?
Não propriamente um personagem, mas sim o espaço físico mais recorrente e o espaço cultural que determina tudo. É bom lembrar que uma cidade não é apenas os edifícios e as ruas. É também a gente que a vive e a que a viveu, aqueles que lhe deram um caráter, inclusive uma língua, pois eu escrevo em havanês, meus personagens cubanos falam em havanês. Ou seja, Havana está fora e dentro dos personagens e tem sua própria missão de ser o contexto mais importante das histórias que narro, tanto em 1830 quanto em 1910 ou mesmo agora.
Por que o romance policial é um gênero adequado para retratar uma cidade?
O romance policial contemporâneo é essencialmente citadino, porque a cidade se converteu no espaço dos grandes conflitos, desde os políticos e econômicos até epidemias sociais como são a violência, o medo, as drogas, a acumulação mais evidente das desigualdades... e disso se nutre o romance policial. O caso de um brasileiro como o mestre Rubem Fonseca é paradigmático nesse uso da cidade como espaço de suas tramas. Também Vázquez Montalbán (espanhol, autor de livros como “Os mares do sul”), Petros Markaris (grego, autor de “Os amantes da noite”) e muitos outros. O mundo hoje é mais citadino do que rural e os escritores vamos atrás da realidade, alimentando-nos dela.
Das mudanças que ocorreram em Havana, qual foi a mais dolorosa?
O abandono. Não se trata de uma mudança, mas sim de um processo longo, porém sustentado. Com a exceção da zona colonial, Havana Velha, que recebeu atenções institucionais, o restante da capital foi se deteriorando progressivamente à medida que o tempo passou e não foi dada a atenção que a cidade merece, pois 90% do que foi construído se ergueu no século 19 ou, sobretudo, na primeira metade do século 20. A falta de recursos é permanente, mas também faltou vontade para tentar melhorar a infraestrutura e os imóveis, e desses abandonos vieram essas ruínas que vão se tornando cada vez maiores e menos recuperáveis. Uma pena, pois Havana tem uma das arquiteturas ecléticas mais belas e notáveis de toda a América.
O escritor Leonardo Padura: "Continuo gostando de sentar-me no Malecón e olhar para o mar ou para a cidade. Pensar, conversar,tomar ali uma taça de vinho com alguns amigos.Detesto que,perto de onde eu esteja,venha alguém com um carro ou uma moto e coloque um reggaeton em volume máximo.Ou seja, gosto da cidade,mas não suporto os comportamentos que os cidadãos vêm tendo."
Você teme que, em futuro próximo, deixe de sentir que Havana continua sendo a sua cidade?
Tudo pode acontecer. Vou ficando velho e sou cada vez mais cético em relação ao futuro, não apenas do meu país, mas do mundo. O que ocorre agora mesmo com a política econômica e social dos Estados Unidos, a prepotência russa, o crescimento do macabro modelo chinês, o avanço descontrolado de mecanismos como a inteligência artificial me faz temer muito pelo futuro. O que será de mim daqui a dez anos? Onde estarei? Como serão Cuba e o resto do mundo? Tudo está por um fio. Lamentavelmente, não temos capacidade para combater os poderes destrutivos que se impõem com seu poder, sua força... e sua esquizofrenia.
O que é que você continua gostando na cidade? E o que você não suporta?
Continuo gostando de sentar-me no Malecón e olhar para o mar ou para a cidade. Pensar, conversar, tomar ali uma taça de vinho com alguns amigos. Detesto que, perto de onde eu esteja, venha alguém com um carro ou uma moto e coloque um reggaeton em volume máximo. Ou seja, gosto da cidade, mas não suporto os comportamentos que os cidadãos vêm tendo. Tudo isso faz parte de uma crise de valores que abrange quase todos os aspectos da vida social.
Mario Conde (investigador aposentado, protagonista de alguns romances policiais de Leonardo Padura) poderá se mudar de Havana algum dia, ou já é tarde demais para isso? E você?
Eu, talvez. Nunca diga nunca. E será algo doloroso, castrador, se chegar a acontecer. Mas Conde... jamais!... Ele está grudado à cidade. Não pode existir fora do seu território. Para ele tudo está mais claro, pois é um fundamentalista de certas coisas que não admitem nenhuma discussão.
“Morir en la arena” (“Morrer na areia”, em tradução literal), seu livro mais recente, ainda não foi publicado no Brasil. Como você o apresentaria aos leitores brasileiros?
Como um livro amargo sobre uma realidade cada vez mais amarga. É como um resumo do destino da minha geração, gente maravilhosa e culta que se sacrificou por um futuro melhor e o que lhe coube foi um presente pior. O romance conta a história — causas e consequências — de um parricídio, mas esse é apenas o motor dramático para refletir um destino social e econômico de pessoas que, ao envelhecer, ficam com as mãos vazias... chegam à costa e morrem na areia (equivalente em português a ‘morrer na praia’). E espero que no Brasil tenha a mesma acolhida que na Espanha, por exemplo, onde já soma quatro edições em três meses e mais de 35 mil exemplares vendidos, o que é muito nos dias de hoje.
Você completou 70 anos em outubro de 2025. O que mudou ao chegar a essa idade? O que você pensa em fazer nos próximos anos? Que livros ainda faltam escrever?
O que penso fazer é continuar fazendo o que tenho feito até agora: escrever. Tenho neste momento o embrião de uma ideia para um novo romance com Mario Conde, estou trabalhando em um livro sobre a arte de escrever romances e tentando me manter física e mentalmente eficiente, porque são 70 anos e, obviamente, o tempo vital que ainda me resta pode ser muito reduzido. Por isso quero aproveitá-lo ao máximo e, além disso, ver como será o futuro que se aproxima. Tomara que não seja tão fodido como se desenha no horizonte.
"“Acredito que Trump e os que o rodeiam têm a ideia de que Cuba não é a Venezuela.O que farão é tentar a asfixia final de um país já exaurido pelos longos e profundos efeitos do bloqueio comercial e financeiro dos Estados Unidos, que já completa 65 anos,e por suas próprias ineficiências econômicas e pouca decisão de mudar muitas coisas que não funcionam.”"
por Leonardo Padura
Como você vê a ameaça de Donald Trump, que escreveu na sexta-feira passada que não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba e sugeriu que o governo cubano fizesse um acordo, “antes que seja tarde demais”?
Estamos vivendo em um mundo no qual muitas máscaras caíram, no qual a força é a lei — como no faroeste, no qual a mentira é parte essencial dos discursos políticos e no qual conquistas como os acordos universais de convivência entre os Estados passaram a ser letra. E um dos protagonistas mais destacados desse processo de deterioração da vida contemporânea no mundo é, precisamente, Donald Trump, um homem profundamente doente de megalomania, exibicionista e cruel. Sua lista de desmandos já encheria todas as páginas desta publicação e não vou repeti-los, não é necessário. Quanto à sua atitude e às suas declarações sobre Cuba, qualquer coisa pode acontecer vindo dele e dos que o cercam. Mas acredito que ele e os que o rodeiam mais ou menos têm a ideia de que Cuba não é a Venezuela e o que farão é tentar a asfixia final de um país que já está bastante esgotado pelos longos e profundos efeitos do bloqueio comercial e financeiro dos Estados Unidos, que já completa 65 anos, e por suas próprias ineficiências econômicas e pouca decisão de mudar muitas coisas que não funcionam. Não sei qual será o panorama futuro, mas sou bastante pessimista, embora espere que isso não implique mortes violentas que, evidentemente, não vão resolver os problemas do meu país, mas sim agravá-los não apenas no presente, mas por uma ou duas gerações futuras. Tomara que a sensatez, se é que existe, e a inteligência (se existe) funcionem como deveriam funcionar e que as coisas melhorem de um modo mais satisfatório e que se consiga, de fato, uma vida melhor, com mais democracia, bem-estar e liberdade real para os cubanos.
SOBRE O AUTOR
Nascido em 1955 em Havana, Leonardo Padura Fuentes é um dos mais importantes escritores cubanos da atualidade. Pós-graduado em literatura hispanoamericana, romancista, ensaísta, jornalista e autor de roteiros para cinema, ganhou reconhecimento internacional com a série de romances policiais Estações Havana, estrelada pelo investigador Mario Conde, traduzida em mais de quinze países, vencedora de diversos prêmios internacionais e adaptada para o cinema e a TV. Pelo conjunto de sua obra, Padura recebeu o Premio Nacional de Literatura de Cuba, em 2012, o Princesa de Asturias, da Espanha, em 2015, e o Prêmio Internacional de Novela Histórica Barcino, em 2018. Foi indicado aos prêmios Médicis 2021 e Femina 2021, na categoria romance estrangeiro. Em 2023, recebeu o prêmio Pepe Carvalho em reconhecimento à sua carreira literária.
TRECHO
“Eu disse em outros textos que um romancista é um armazém de memórias. A vida humana não lhe basta para que ele possa reunir todas as histórias, sensações, visões da realidade de que precisa lançar mão para criar suas narrações. Ninguém pode viver a vida de todos os seus personagens nem estar em cada um dos lugares e momentos em que se pode forjar romanescamente a existência de suas criaturas. A memória de outros, a experiência de outros, deve ser, então, canibalizada para ir além do limitado espaço do tempo e das vivências humanas: como carrapatos, nós, escritores, nos alimentamos de sangue alheio. Assim, a Havana a que começo a assomar a partir de 1968 era um espaço feito de visões próprias e memórias absorvidas, dos rios que em sua confluência davam forma àquela ilha urbana que entrava num momento de definição histórica muito crítica.”
“IR ATÉ HAVANA”
De Leonardo Padura
Tradução de Monica Stahel
Boitempo Editorial
288 páginas
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