José Eduardo Gonçalves

Especial para o EM

Espanto é uma palavra recorrente para falar do impacto da obra de Samanta Schweblin em seus leitores. Não há como discordar disso, mas há algo nela que a faz especialmente poderosa para mim – e isso é o que me interessa mais. Alguns escritores, como Faulkner, Rosa, Borges, Clarice, que leio e releio com fervor, são de uma estatura gigante que chega a intimidar.  Outros, ao contrário, são tão insólitos e extraordinários que movimentam a engrenagem surda e indecifrável que me leva a desejar escrever, como se nada mais importasse na vida. É esta a linhagem de Samanta, cujos contos eu costumo ler entre atordoado e excitado, tal a expectativa que ela cria em suas histórias. 

“O bom mal”, título que inaugura o tom ambíguo do que iremos encontrar em pouco mais de 150 páginas, tem seis contos longos, todos eles excepcionais. Como “O olho na garganta” ou “Um animal fabuloso”, exercícios notáveis de tessitura narrativa. A tensão se instaura nas primeiras linhas e segue mesmo quando o texto subitamente acaba, e de alguma forma não acaba, pois o leitor é sempre cúmplice das histórias que a escritora inventa.  

Ao concluir a leitura de qualquer um desses contos tenho a sensação de que não há como escapar do movediço pântano da escrita. Sou impelido a desejar – como nunca – o enfrentamento da página em branco. Escrever torna-se imperativo. É o que faço agora. 

JOSÉ EDUARDO GONÇALVES é jornalista, editor e escritor, autor de “Pistas falsas”

“O bom mal”

De Samanta Schweblin

Tradução de Livia Deorsola

Fósforo 

160 páginas

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R$ 79,90

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