João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

A Praça da Liberdade não mudou nada e a figura de cabelos louros, sentada no banco de cimento, dando miolo de pão aos pombos, traja-se de maneira que, à primeira vista, não revela se pretende seguir a moda retrô ou se é mesmo simplesmente conservadora. Assim, de costas, impossível adivinhar-lhe a idade e nem se o louro dos cabelos é natural ou fingido. Hoje as tinturas são tão perfeitas! João, no entanto, tem a vaga impressão de que a conhece, cruza as mãos às costas, dá a volta ao banco, disfarçando, olha para cima, acompanhando o voo dos pombos e, afinal, como que casualmente, encara a mulher sentada. João tem um sobressalto e respira um leve ar de saudade. A cena podia ser do longínquo ano de 1950.

Vê à sua frente, como num espelho, a mesma expressão de surpresa que deve estampar na própria cara.

— Maria!? É Maria, não é? Você não mudou nada!

— João! De você não posso dizer o mesmo... mudou, mudou demais, mas se reconhece. Não aparenta a idade que deve ter. Você não estava nos Estados Unidos?

— Mais de cinquenta anos, sem voltar ao Brasil nem uma vez. Não havia razão nenhuma para voltar... dei-me bem, muito bem, descobri meu caminho. Vim mesmo só para vender uma propriedade e conferir que estou melhor lá, onde sou um artista reconhecido.

— Artista? Eu nunca soube que você era artista, naquele tempo...

— Pois é... eu mesmo apenas desconfiava de que podia ser. o desgosto que tive aqui me empurrou para um novo caminho. Foi a minha sorte. A vida... E você? Olhando você de costas, tive a impressão de ter voltado àquele nosso tempo... Parecia tudo tão igual!

— E é, João, para mim é tudo igual, o tempo e a vida passaram e eu fiquei no mesmo lugar, a mesma casa em que morava minha família, ali na rua Rio de Janeiro, o mesmo emprego na Biblioteca Municipal... como se dizia antigamente, fiquei pra tia. Minha vida acabou naquele dia...

— No dia em que Joaquim... cometeu aquele ato... desastrado.

— Sim, desastrado mesmo, teve de suicidar-se três vezes para, afinal, morrer... e por causa de Lili, daquele casamento que afinal não deu em nada... ela vive internada por alcoolismo e ele, o Fernandes, ninguém sabe onde foi parar. Se Joaquim tivesse resistido, sobrevivido, quem sabe teria descoberto a mediocridade de Lili, teria percebido quem lhe daria amor de verdade.

— Vejo que ainda guarda mágoa.

— Não, mágoa não, mágoa exige um coração vivo. O meu, hoje, é só um músculo. Você, pelo que vejo, teve sorte, conseguiu livrar-se inteiramente da lembrança de Teresa.

— Teresa? E por onde anda Teresa?

— Não soube? Morreu há pouco, riquíssima, dona do bordel mais luxuoso de Porto Alegre.

— Bordel? Mas Teresa não foi para um convento? Me disseram...

— Essa história de convento foi apenas um mal-entendido, questão de vocabulário. Conventilho, como chamam os bordeis lá no Sul, é para onde ela foi. Enlouqueceu quando Raimundo morreu naquele desastre sem nunca lhe ter dado sequer um beijo. Caiu na vida, desaparafusou-se completamente. Sinto muito contar-lhe isto agora, sei o quanto você era louco por ela.

— Eu? Louco por Teresa? Nunca liguei para Teresa.

— Mas como não? todos víamos que você amava Teresa! Pois não foi pelo desgosto de ser rejeitado por ela que você fugiu para os States?

— De jeito nenhum! Meu aparente interesse por Teresa era puro disfarce. Fui-me embora no dia do casamento de Lili com J. Pinto Fernandes.

— Então era Lili que você amava?

— Não, minha querida, eu amava J. Pinto Fernandes.

Sobre a autora e o livro

Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, na cidade de Santos (SP), onde viveu até os dezoito anos. É pedagoga, educadora popular, escritora, tradutora, além de freira da congregação de Nossa Senhora — Cônegas de Santo Agostinho. Formou-se em língua e literatura Francesa pela Universidade de Nancy, na França, em pedagogia pela PUC-SP, e obteve mestrado em sociologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Romancista e contista premiada, é uma das idealizadoras do coletivo feminista literário Mulherio das letras, que reúne cerca de sete mil mulheres ligadas à cadeia produtiva e criativa do livro, entre escritoras, editoras, tradutoras e livreiras. Em “Recapitulações”, livro inédito de contos, Maria Valéria “brinca” com a ideia de originalidade ao criar histórias a partir de obras de autores consagrados como Julio Cortázar, Machado de Assis, Franz Kafka e Carlos Drummond de Andrade.

“Recapitulações”

De Maria Valéria Rezende

Posfácio de Roberto Zular

Editora 34

88 páginas

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