Sérgio Karam

Especial para o EM

 

Lançado em 1998 na Argentina, numa edição paga pelo autor e publicada pela editora Simurg, o romance “O deserto e sua semente”, de Jorge Baron Biza, chega ao Brasil, lançado pela Companhia das Letras, na excelente tradução de Sérgio Molina. A essas alturas, a história que o livro conta já é bastante conhecida: em 1964, numa reunião para tratar do divórcio, Arón, o pai do narrador, joga um frasco com ácido no rosto de Eligia, sua esposa, deixando-a desfigurada. Arón se suicida no dia seguinte, Eligia o faz muitos anos depois, em 1978. O romance narra o périplo do filho Mario e de sua mãe por clínicas e hospitais da Argentina e da Itália para tratar de reconstruir o rosto de Eligia.


Como sempre, o que interessa é o modo com que o narrador conta essa história. O fato de que ela seja autobiográfica, levando-nos a confundir o narrador do romance com o autor do livro, é, ou deveria ser, secundário. Ao longo do livro, talvez por ter sido também um crítico de arte, Baron Biza descreve o processo de reconstrução do rosto de Eligia valendo-se de um vocabulário extraído daquela atividade: formas mutantes, cores variadas, tons superpostos, harmonias perdidas e recuperadas são constantemente referidas para falar dos músculos, da pele, dos dentes e dos ossos que antes permitiam identificar o rosto daquela mãe aguerrida – agora desfigurada – que se submeteu ao tratamento de maneira estoica, enquanto o filho alternava os dias tediosos como seu acompanhante no hospital com as noites encharcadas de álcool barato em bares fuleiros, na companhia de uma prostituta que acabou virando sua amiga, e que foi, a seu tempo, abandonada da maneira mais torpe.


Na medida do possível, o romance é narrado de maneira sóbria, quase fria, obedecendo ao “desejo de contar uma história que se recusa a ser contada. O narrador escreve para compreender, embora saiba que não haverá revelações, que no máximo poderá iluminar um pouco o passado”, como escreveu o chileno Alejandro Zambra ao resenhar a edição espanhola do livro, de 2007, para o site Letras libres.


O fato de boa parte do romance se passar em Milão leva o narrador, em alguns trechos, a empregar uma “meia-língua” formada por uma mistura de italiano e espanhol (que não é exatamente o cocoliche falado pelos imigrantes italianos na Argentina). Ao recordar o tempo em que estudava numa escola alemã em Montevidéu, o narrador produz um texto num espanhol vazado numa sintaxe próxima do alemão, e, em outro trecho, escreve num espanhol mesclado à sintaxe da língua inglesa falada por um casal de australianos. De todos esses desafios, o tradutor Sérgio Molina se sai maravilhosamente bem, produzindo, em português, um texto muitas vezes “estranho”, na medida exata da estranheza provocada pelo original.


O romance é também a crônica mais ou menos velada dos acontecimentos políticos que varreram a Argentina entre 1964 e 1978 – a ditadura de Onganía, a volta de Perón ao país, a radicalização política, a ditadura militar – e estabelece uma espécie de contraponto entre duas poderosas figuras femininas, a própria Eligia e a “esposa do General”, cujo cadáver (seu embalsamamento, seu sumiço, etc) ainda hoje é um tema obsessivo para os argentinos.


Como o pai e a mãe, Jorge Baron Biza acabou se suicidando, em 2001, três anos depois de publicar seu único romance. Os outros dois livros publicados em seu nome, ambos póstumos, foram compilações de seus artigos, crônicas, entrevistas e matérias jornalísticas: “Por dentro todo está permitido” (Buenos Aires: Editorial Caja Negra, 2010) e “Al rescate de lo bello” (Córdoba: Caballo Negro Editora, 2018). Entre um e outro, a editora Eterna Cadencia, de Buenos Aires, publicou, em 2013, uma nova edição de “O deserto e sua semente”, na qual se baseia a presente e muito bem-vinda tradução.

 

Sérgio Karam é tradutor e Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

"O deserto e sua semente"

reprodução

 

“O deserto e sua semente”
De Jorge Baron Biza
Tradução de Sérgio Molina
Companhia das Letras
232 páginas
R$ 74,90

 

compartilhe