Rachel de Queiroz publicou o romance

Rachel de Queiroz publicou o romance "O quinze" em 1930

crédito: Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press

“Naquele tempo [década de 1930], ou você era comunista ou era integralista, ou fascista puro. O liberal quase não tinha vez: era execrado por todos. O simples fato de alguém ser liberal já fazia com que fosse considerado reacionário. (…) É certo que havia, então, na mocidade mais lida, mais intelectualizada, um sentimento, uma obrigação, de pertencer a algum movimento político: ser comunista, ou ser contra o comunismo, enfim, o engajamento numa ideologia”. Este é um trecho de “Tantos anos”, livro de memórias da escritora cearense Rachel de Queiroz escrito em parceria com a irmã caçula, Maria Luísa de Queiroz.

Uma das principais escritoras brasileiras, Rachel de Queiroz morreu há exatos 20 anos, às vésperas de completar 93, em 17 de novembro de 2003. Além de militante na juventude – quando o comunismo estava em alta e seduziu boa parte dos intelectuais brasileiros após o triunfo da revolução bolchevique na Rússia que deu origem à União Soviética –, Rachel foi a primeira escritora brasileira empoderada – expressão que não existia na época – com apenas 19 anos, quando lançou “O quinze”, em 1930, sobre o drama da grande seca de 1915.

O livro foi alvo de machismo, porque muitos homens, inclusive escritores, não admitiam que uma obra de sucesso e qualidade pudesse ter sido escrita por uma mulher. “É pilhéria. Uma garota assim fazer romance! Deve ser pseudônimo de sujeito barbado”, escreveu ninguém menos do que o já consagrado escritor alagoano Graciliano Ramos. Curiosamente, oito anos depois, Graciliano lançou sua principal obra, “Vidas secas”, na mesma pegada da seca.

Por ironia, em 1977, Rachel de Queiroz foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL). Rompendo misoginia de oito décadas, desde a fundação da entidade, em 1897, por um grupo de intelectuais, incluindo Machado de Assis e a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida, que foi impedida de ocupar uma cadeira e teve que cedê-la para o marido, o poeta português Filinto de Almeida.

E foi exatamente a literatura que pôs fim à militância de carteirinha de Rachel no Partido Comunista Brasileiro. Em 1932, quando foi lançar “João Miguel”, seu segundo romance (de injustiça) social, o partido mandou que ela o submetesse a uma avaliação política e exigiu mudanças na narrativa, como ela conta em “Tantos anos”. Indignada, a jovem escritora se desfiliou e rompeu com o partido. Mas não se desligou da política, tanto que chegou a ser presa várias vezes durante a ditadura de Getúlio Vargas, por ser sempre considerada comunista.

Mesmo distante do ativismo político, Rachel manteve postura contrária a Getúlio Vargas e a todos os seus “herdeiros”, como João Goulart e Leonel Brizola. “Getúlio, a minha geração se habituou-se a considerá-lo como fonte de todos os males políticos. Talvez fôssemos injustos em algumas coisas, em muitas coisas. Mas a figura de Getúlio, para nós, era o símbolo de todo o desastre nacional. Eles, aliás, fez tudo para isso, tome- se o movimento de 1930, tome-se o movimento da revolução paulista de 1932, tome-se a repressão ao putsch de 1935, tome-se o golpe de 1937, tome-se a insurreição integralista de 1938. Getúlio não deixava a gente em paz nem um minuto. O fato é que Getúlio passou a representar para nós a reação, o fascismo, a aliança com o Eixo. E essa imagem com Getúlio não acabou com a sua morte: prolongou-se através de Jango, de Brizola”, disse ela.

RESISTÊNCIA

Paralelamente à resistência a Getúlio, Rachel seguiu sua vida de escritora. Lançou os romances “O caminho das pedras” (1937) e “As três Marias” (1939), escreveu muitas crônicas. Nos anos 1960, a decepção com a renúncia de Jânio Quadro, a ojeriza ao “caudilhismo” de Jango e a amizade e o parentesco com o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco a levaram a apoiar o golpe militar de 1964. “Jango veio com sua máscara de esquerda, mas ninguém se enganava com isso: ele realmente não era, nunca foi, o que se entendia por esquerda (...). O que nós fazíamos era conspiração mesmo, saber onde estava a tropa, o que tinha havido, se o coronel fulano tinha se manifestado, se o coronel beltrano era de confiança, que fulaninho era mais ambicioso (...) Eles me usavam como jornalista, eu opinava muito e era muito lida”, contou em sua biografia. Mas com a morte de Castelo Branco e a ascensão de Costa e Silva, a escritora foi se afastando do “movimento”, quando houve o endurecimento do regime e a repressão violenta.

Rachel seguiu sua carreira literária. Escreveu livros infantis e peças de teatro, os romances “Dôra Doralina” (1975), “Galo de ouro” (1996) e sua obra derradeira, “Memorial de Maria Moura” (1992) (1992). E também mais crônicas. Vale lembrar um trecho de uma crônica bem-humorada, de 1946, chamada “Mineiros”, sobre sua viagem a Minas Gerais: “Num passeio de três semanas pela zona do ouro, no país dos mineiros, o que afinal mais seduziu o interesse do viajante não foram propriamente as serras nem o barroco, mas o mineiro propriamente dito, o nativo, o habitante, homem tão singular, tão diferenciado do brasileiro comum, mormente do nordestino, do carioca, ou do paulista, que são os que melhor conheço. [...] Louve-se nos mineiros em primeiro lugar a sua presença suave. Mil deles não causam o incômodo de dez cearenses”. (Paulo Nogueira)