* Padre André Araújo, SJ
Se tentarmos viver a vida com um sentido de humanidade profunda, como nos tem sinalizado o Papa Leão XIV, sobretudo em sua nova Encíclica Magnifica Humanitas, experimentaremos, logo, a dificuldade que supõe estarmos inteiros, sob a pressão que deriva da quantidade de atividades que temos e das múltiplas e simultâneas responsabilidades que comprometem o ritmo de nossas vidas.
Nessa perspectiva, como espiritual é a totalidade de uma vida animada pelo Espírito, o desafio que temos diante de nós é o de propor a integração das dimensões que nos compõem, antes de nos dispormos a realizar qualquer tarefa. Integrar-se é, por isso mesmo, marcar um horizonte claro e concreto no projeto de vida que temos. Conferir-lhe um sentido e uma direção.
O valor de escolher com desígnio
O ser humano é educado na possibilidade de realização de algo bastante concreto, afrontando a aridez das lutas estruturais sem perder a sensibilidade para cada drama ou alegria pessoal. Certamente, por isso, integrar-se é a obra de uma vida; não é fazer mais, mas fazer com propósito; não é o somatório de tudo, mas aprender a fazer escolhas amadurecidas, porque discernidas e bem decididas.
Por isso, vale lembrar que ajudar, para Santo Inácio de Loyola, é o que dá sentido à vida e pode servir como chave de um processo de integração pessoal. Para o fundador da Companhia de Jesus, “ajudar torna a vida espiritual”, pois coloca em relação as dimensões da nossa vida. Ajudar permite, assim, a integração entre a ação e a contemplação, o serviço com e para os demais, na confluência de um crescimento pessoal, porque também é coletivo.
Os que se recordam de Dom Luciano Mendes de Almeida vão se lembrar de sua frase preferida: “em que posso ajudar?!” De fato, o religioso jesuíta estava muito consciente de que um bom itinerário de integração pessoal começa com a dinâmica que reside em transformar o fazer cotidiano em ajudar. Como transformar, então, nossas ações diárias, tão plurais e variadas, numa ajuda com sentido aos outros? Como integrar nossas melhores forças e nossos dons no desenvolvimento de boas práticas?
A atenção ao outro se aprende nas relações diárias
Sem dúvida, o que mais tem sentido não é o fazer por si mesmo, mas como sentimos e saboreamos o que realizamos enquanto vivemos. Por isso, nossas famílias podem nos ajudar nessa sensibilização, começando de casa, como uma prática educativa, desde a mais tenra idade.
Nosso exemplo como adultos pode gerar cultura e nossas atitudes, atravessadas por um olhar sensível, por uma escuta atenta e por uma atenção amorosa e pela contemplação da pessoa do outro e de suas necessidades pode ser sinal de salvação, pois é de afeto que se trata. E a IA que buscamos não é a Inteligência Artificial, pura e simplesmente, mas uma Inteligência Afetiva, gerada e cuidada no íntimo de nossos lares.
A disposição para ajudar passa pela capacidade de reconhecer as necessidades do demais e agir com atenção e generosidade
Afinal, educar nunca foi sobre estar todo o tempo envolvidos na aplicação de um plano ou de um esquema previamente estabelecido, pensado a partir de nós mesmos ou de nossas instituições. Se assim for, perdemos a fecundidade dos processos de crescimento humano, no intuito de alcançarmos e medirmos resultados, com vistas a verificar se eles se ajustam ou não ao que planificamos, não em função de como podemos, nesse exercício, que é também espiritual, crescer como pessoas melhores.
A importância de olhar para além das próprias demandas
Para tanto, uma atitude imprescindível é a de nos examinarmos todos os dias para tomarmos consciência de que não estamos no puro cumprimento de obrigações. Trata-se mais do estabelecimento de uma cultura do cuidado e de uma atenção a si, aos outros e ao mundo. E isso exige que o nosso fazer se converta em gratuidade, fazendo do bem do outro o nosso ponto de partida e de chegada.
Essas são atitudes vitais de um itinerário compassivo e são também modos de nos situarmos diante de nós mesmos, dos outros, do mundo, da vida. Compõem, por assim dizer, um respeito profundo a cada pessoa, em toda a sua dignidade, para além dos seus condicionamentos, no processo educativo, quando se revela e se manifesta toda a sua densidade humana.
Servir exige compromisso, não imposição
Ajudar é, pois, da ordem da proposição, não se impõe. Proposições com qualidade, com rigor, com convicção, com honestidade, com proximidade, com compromisso pessoal, social e eclesial, que só pode nascer onde há tempo e espaço para um acompanhamento que supõe diálogos de liberdade. Diálogos que envolvem a própria experiência humana cuidada, reconciliada e restaurada, o que precede dogmatismos e sentidos de pertença, porque está acima de ideais ou de doutrinas.
O ser humano que somos está em fase de construção e pede de nós grande ânimo e profunda generosidade, pois tudo o que somos e temos, fazemos ou vivemos tem caráter espiritual. A novidade desta vida é ser humano, viver com sentido esse acréscimo de beleza existencial nesta aventura que é, desde sempre e para sempre: eterna! Essa verdade inaugura possibilidades: “somos seres espirituais vivendo uma aventura humana” – Teilhard de Chardin já dizia…
* P. André Araújo, SJ é padre jesuíta, professor universitário na FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia) e na UNICAP (Universidade Católica de Pernambuco) e Diretor Geral do Colégio Loyola.
Uma proposta educativa que integra conhecimento, valores e ação
No Colégio Loyola, a pedagogia inaciana orienta um plano curricular de inspiração humanista, que considera as dimensões acadêmica e humana dos estudantes. Estruturada em cinco dimensões: contexto, experiência, reflexão, ação e avaliação, essa perspectiva valoriza a reflexão sobre as vivências e a transformação do aprendizado em atitudes concretas.
A formação cristã também integra essa proposta, com iniciativas voltadas ao autoconhecimento, à construção de um projeto de vida e ao compromisso com a sociedade. Entre as ações desenvolvidas estão atividades de espiritualidade, campanhas de solidariedade e voluntariado educativo.
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Para conhecer o projeto pedagógico do Colégio Loyola acesse loyola.g12.br.
