*Tânia da Silva Mayer

Alguém duvidaria de que a escola é espaço e tempo privilegiados para a promoção de relações justas e pacíficas? Poderiam dissociar a instituição da oferta de uma educação para a paz? Podem as famílias colaborar com essa educação desarmada e desarmante? Não poderia discordar da proposição de que é função primordial do colégio educar para a paz os sujeitos em aprendizagem.

No entanto, essas questões não devem ser respondidas apressadamente, à revelia das camadas socioafetivas, emocionais e relacionais que incidem neste contexto de época em que vivemos.

Escola é um microcosmo social

Seja pública ou privada, a instituição de ensino é um microcosmo da sociedade na qual está inserida e com a qual colabora mais especificamente numa dimensão educativa. Por essa categoria, entende-se que uma realidade universal é regida por padrões e princípios que se repetem em escalas menores, em cadeias de interconexões e interdependências.

Como um microcosmo social, a escola compartilha com o mundo de estruturas e padrões semelhantes, refletindo-os ou os fundamentando-os. Isso significa que as injustiças, violências, preconceitos e discriminações podem coabitar as vivências escolares.

Mas, se o colégio é essa procela, é bem verdade que suas pedagogias e metodologias de ensino e aprendizagem podem colaborar com a prevenção, a identificação e a resolução das diferentes situações de conflitos humanos que nela ocorrem.

Escola e família, protagonistas ou antagonistas da educação para a Paz?

Não são raros os atritos entre crianças ou adolescentes no colégio. Começando pelo lápis não emprestado durante a atividade, passando pelo empurrão durante a brincadeira do recreio ou pela exclusão da colega do grupinho de amigas, incluindo as agressões físicas em situações limite, entre tantos outros, os conflitos entre estudantes podem se dar em maior ou menor escala. Sendo sintoma de uma sociedade de ânimos acirrados, intolerante às diferenças, egocentrada, ansiosa, acelerada, individualista e frágil.

O contexto se agrava quando os embates transpõem os limites da atuação pedagógica e se tornam motivo de disputas de poder e ações extrajudiciais entre as famílias. Pais e mães, no afã de proteger seus filhos, antecipam-se às ações educativas e elevam as discussões, que potencializam as divergências e tendem às rupturas entre famílias e estudantes.

A participação dos adultos é importante para que crianças e adolescentes desenvolvam recursos para lidar com diferentes situações ao longo da vida

Colégio Loyola Divulgação

Como consequência, limitam precocemente as interações de seus filhos com os pares, impedem-lhes de aprender a resolver conflitos e, consequentemente, de aprenderem a conviver com os outros num mundo plural e diverso. Por outro lado, impedem-lhes de frustrar as expectativas e se decepcionar com o outro, vivências necessárias, ainda que desafiadoras, para o desenvolvimento humano.

Educar para a paz desarmada e desarmante

À exceção das violências que devem ser encaminhadas a outras instâncias, quando a escola se vê diante de sua limitação educativa, é importante permitir que ela conduza a resolução dos conflitos surgidos no âmbito das interações e atividades educacionais. Neste caso, deixar à instituição o protagonismo da condução.

As famílias colaboram com a aprendizagem quando ensinam os filhos, no ambiente doméstico, a respeitar os outros e os direitos de todos, quando ensinam sobre limites, sobre espaços públicos compartilhados, colaboram, sobretudo, quando são firmes na correção diante de atitudes desrespeitosas, quando não os blindam da frustração e não criam sistemas de recompensas desproporcionais, educam quando apoiam a escola em seus encaminhamentos pedagógicos arregimentados, quando ensinam sobre a dignidade humana e quando fazem convergir seu sistema de valores com aquele, como é o nosso caso, de uma educação católica que preza pelo cuidado, pela reconciliação e pela paz.

Em outubro de 2025, o papa Leão XIV pontuou que o futuro só pode ser construído com “uma educação para a paz desarmada e desarmante”, que silencie as armas e “desarme os corações, renunciando a qualquer forma de violência”. Assim as famílias podem colaborar com o futuro de paz que almejamos.

Um compromisso coletivo

Em 2020, o papa Francisco propôs o Pacto Educativo Global. Retomando um provérbio africano, ensinou que, para educar uma criança, é preciso uma “aldeia inteira”. Nesse contexto, professores, estudantes, todos os agentes escolares e as famílias formam a “aldeia que educa”.

Nessa esteira, Leão XIV, na carta apostólica “Desenhar novos Mapas de Esperança”, convocou pessoas de boa vontade, instituições e a sociedade civil a uma “aliança educativa”, isto é, à corresponsabilidade pela educação integral, capaz de colocar o indivíduo no centro e construir outra dinâmica para as relações sociais, fundadas na fraternidade, na solidariedade e na paz.

No final deste artigo, podem surgir sentimentos contraditórios: descrença ou esperança de que a educação pode transformar as pessoas que vão mudar as realidades. São legítimos. Legítimas, também, são as proposições que fazemos: depor as armas, prezar pela tolerância, respeitar os espaços e os tempos de atuação, acompanhar os estudantes em seus processos e, sobretudo, trabalhar comunitariamente, escola e famílias, por uma “educação desarmada e desarmante”.

*Teóloga, licenciada em Letras e coordenadora de Formação Cristã/Pastoral do Colégio Loyola

Convivência e respeito são trabalhados no cotidiano

No Colégio Loyola, a pedagogia inaciana orienta a proposta educativa e considera a formação dos estudantes em diferentes dimensões, incluindo aspectos acadêmicos, humanos e sociais. Nesse contexto, valores como solidariedade e justiça fazem parte do dia a dia e orientam as relações entre estudantes, profissionais e famílias.

A abordagem também contempla a prevenção e a resolução de problemas, buscando transformar essas situações em oportunidades de diálogo e aprendizado.

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