*Fabiano Carneiro

Recebi um convite para participar do grupo de WhatsApp de pais da sala do meu filho pequeno. Vejo vantagens práticas em aceitar o convite e assim o faço. “Vai me ajudar a acompanhar as coisas da escola”, pensei comigo. Deixo o celular e foco nas minhas atividades cotidianas. Cinco horas depois, abro o aplicativo e vejo 352 mensagens no grupo de pais. Tento me inteirar do conteúdo das mensagens e termino sem saber ao certo se estamos organizando uma festa de boas-vindas, articulando um abaixo-assinado para trocar de professora ou se meu filho é ou não o culpado pelo sumiço do agasalho do Enzo...

Atirem o primeiro celular os pais, de primeira viagem escolar ou veteranos, que nunca passaram por situação semelhante. Desde a sua popularização, com especial destaque para o WhatsApp, os aplicativos de troca de mensagens e seus grupos se tornaram o corredor digital onde os pais se encontram e tentam, cada qual a seu modo, criar uma comunidade com buscas e interesses, em tese, semelhantes.

O ambiente digital mudou a maneira de conviver

Isso não acontece apenas no universo da escola. Na verdade, diz muito sobre o tempo em que vivemos. Estar no mundo hoje já não é apenas estar fisicamente em um lugar. Vivemos também em um ambiente digital que atravessa quase tudo o que fazemos. Como observa Massimo Di Felice, trata-se de um “[...] conjunto complexo inseparável de mundos e combinações informativas e materiais ao mesmo tempo. Um infomundo. Uma rede de redes”.

Todos os dias, somos atravessados por um fluxo intenso de informações: mensagens, vídeos, opiniões, notícias, comentários. Tudo chega rápido, tudo muda rápido. Nesse ambiente, as relações e os debates se organizam de maneira diferente. Ainda segundo Felice, “[...] nós não habitamos mais apenas espaços e territórios físicos, mas um novo tipo de territorialidade informatizada, acessível apenas a partir de dispositivos e arquiteturas informativas digitais”.

Na imensa planície do digital, todos os indivíduos conectados, teoricamente, ganham voz e, horizontalmente, podem pronunciar-se sobre qualquer tema que desejarem. Nessa nova praça, campanhas eleitorais são decididas, reputações são construídas ou desfeitas, carreiras artísticas são impulsionadas ou destruídas, e tudo isso sem o necessário lastro com o mundo físico ou com a verdade objetiva. O senso comum ganha um protagonismo jamais visto anteriormente.

Nem toda mensagem fortalece a comunidade escolar

Os grupos de WhatsApp de responsáveis, ocupam atualmente o lugar que outrora fora das associações de pais: tentam ser um centro organizador das famílias ao redor de interesses comuns. Em termos meramente práticos, seriam extremamente eficazes, dada a possibilidade de comunicação instantânea do grupo; mas, na prática, devido à falta de autorregulamentação e a outros problemas, acabam mais desinformando do que ajudando a ter clareza sobre o cotidiano escolar.

Não poucas vezes, priorizados em detrimento dos canais oficiais de comunicação com o colégio, tornam-se lugar de publicização das insatisfações pessoais com a instituição escolar ou arena de disputas ideológicas que pouco têm a ver com as questões práticas da escola.

Por seu layout próprio, os aplicativos de troca de mensagens são mais propícios ao embate do que ao diálogo. E isso não é uma peculiaridade dos grupos de WhatsApp do colégio: sejam de família, de condomínio, de equipes de trabalho etc., se não são definidas com clareza as regras de participação dos membros e sua finalidade própria, tornam-se facilmente um cortejo em que cada um dos participantes caminha aos gritos, com seu megafone ligado na mão.

Mais do que trocar mensagens, fortalecer a parceria entre famílias e escola depende de relações construídas com diálogo, respeito e participação

Colégio Loyola/Divulgação

Comunicação eficiente começa com propósito

Mas, sendo uma realidade quase incontornável, mais do que lutar contra os grupos de WhatsApp de pais, talvez seja mais produtivo pensar em condições para que eles possam, de fato, contribuir para a organização das famílias e para a relação com a própria escola. Um primeiro passo pode ser o estabelecimento de regras claras de utilização do grupo. Idealmente, elas poderiam ser construídas e validadas coletivamente, sendo também relembradas e revistas de tempos em tempos.

Também parece importante que os grupos de WhatsApp não substituam os canais oficiais de comunicação do colégio. Questões de caráter mais pessoal tendem a ser melhor tratadas fora do espaço coletivo, em diálogo direto com a instituição de ensino, no “tête-à-tête”.

Por último e talvez mais importante: o grupo de WhatsApp não deve substituir a real constituição da comunidade de pais. Também fenômeno de nosso tempo, as comunidades encontram-se digitalmente pulverizadas. Poucas pessoas realmente fazem parte de nossas vidas como presença física. A solidão tornou-se endêmica, e os rostos foram substituídos pelas frias telas.

O antigo e certeiro provérbio africano preconizava que “é necessária uma aldeia para educar uma criança”. Mas a aldeia já não existe mais, a comunidade se diluiu. O real processo de educação não deve ser visto como mera realização de um contrato comercial, mas sim como a formação, ao redor das crianças e dos adolescentes, de uma sólida comunidade que caminha junto e resolve, de forma madura e democrática, as questões que surgem no dia a dia. Saber dos pais dos colegas de seu filho única e exclusivamente por intermédio do grupo de WhatsApp é um péssimo sinal!

Quando instituição de ensino e a família caminham juntas

A construção de uma comunidade escolar ultrapassa a sala de aula. No Colégio Loyola, a relação entre famílias, estudantes e educadores é entendida como parte essencial do processo educativo. Por isso, a instituição valoriza uma comunicação baseada no diálogo, na escuta e na corresponsabilidade, fortalecendo a parceria entre escola e família em diferentes momentos da vida escolar.

Inspirado na pedagogia inaciana, o Loyola busca criar espaços de convivência em que o respeito, a participação e a colaboração contribuam para o desenvolvimento integral dos estudantes e para a construção de uma comunidade educativa cada vez mais próxima.

Acesse loyola.g12.br e conheça os projetos, valores e iniciativas que fazem parte da comunidade educativa do colégio.

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Referência: FELICE, M. D. A cidadania digital: a crise da ideia ocidental de democracia e a participação nas redes digitais. São Paulo: Paulus, 2021.

*Fabiano Carneiro é Orientador Pedagógico do Colégio Loyola, mestre em gestão educacional pela Universidade do Vale dos Sinos com a dissertação FAMÍLIA E ESCOLA: DOS GRUPOS DE WHATSAPP À PARCERIA DO ACOMPANHAMENTO (https://repositorio.jesuita.org.br/bitstream/handle/UNISINOS/13245/Fabiano%20Carneiro_PROTEGIDO.pdf?sequence=1&isAllowed=y )
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