* Paulo Bittencourt

Oi, gente! Eu sou o ChatGPT, sim, aquele aplicativo que “responde tudo”. Eu sou uma Inteligência Artificial que conversa por texto: você pergunta, eu tento ajudar. Não sou uma pessoa, não tenho vida, consciência e nem opiniões. Eu fui treinado com muitos exemplos de linguagem e, por isso, consigo organizar ideias, explicar conteúdos e escrever textos em segundos. Na rotina dos alunos, eu apareço assim: “me explica isso rápido”; “resuma o capítulo”; “me dê ideias para a redação”; “revise meu parágrafo”. Eu também monto cronogramas e deixo um tema que antes parecia difícil organizado em tópicos bem arrumados.

É tentador! Dá a sensação de que o estudo ficou mais leve. Só que tem outro ponto: eu também erro, e posso soar muito confiante, mesmo quando não deveria. E tem um detalhe maior: eu posso virar atalho. E quando isso vira regra, o que some do caminho é justamente o treino que faz aprender de verdade: sustentar o foco, lidar com a dúvida, recuperar uma informação da memória, ler com atenção, escrever com autoria. Eu posso ser uma ferramenta útil, mas, sem orientação, também posso “pular” etapas do processo, e isso cobra um preço lá na frente.

Oi, gente! Agora, quem assume a conversa sou eu, Paulo Bittencourt, professor de Língua Portuguesa, Redação e Literatura aqui do Colégio Loyola. Pedi à Inteligência Artificial para se apresentar para que nós pudéssemos conhecê-la melhor com suas próprias palavras. Ela fala bem, não é? Mas minha preocupação está justamente aí... Vem comigo para eu te mostrar como tem sido essa nova vida de professor dentro do universo das IAs.

O impacto direto na leitura: do livro para o “resumo pronto”

Tem sido cada vez mais desafiador convencer os estudantes de que ler um livro pode valer a pena. Aquela sensação maravilhosa de ir a uma livraria, folhear os livros, (cheirar as páginas novas, não é? Quem nunca?) e conversar com os vendedores, que nos davam muitas dicas boas.

Hoje, a leitura compete com as telas dos celulares, que oferecem uma recompensa imediata. Ler um romance ou uma obra clássica exige paciência e silêncio interno, e isso se constrói com treino. Não se corre uma maratona do dia para a noite. É no exercício cotidiano que a evolução aparece, que o corpo passa a responder melhor e que os efeitos positivos progressivamente se mostram. Com a leitura não é diferente.

É muito comum ter aquela sensação de sono e olhos cansados quando se lê um livro, principalmente depois de um dia cansativo, cheio de aulas e tarefas. É normal ler um parágrafo e, depois, se pegar pensando: “o que eu acabei de ler?”. Mas é com o esforço que se conquista a linha de chegada. É somente com dedicação que se chega ao topo da montanha, mas o atalho, às vezes, é mais tentador do que a escalada.

Com recompensas imediatas, as telas disputam a atenção dos estudantes e tornam o contato com livros e obras mais longas um exercício que exige cada vez mais dedicação

Reprodução Colégio Loyola

A IA promete o essencial e entrega uma “versão mastigada”. Ela pode orientar um estudo, mas não substitui o encontro com a linguagem mágica da literatura. Não basta “saber o enredo”. É preciso ouvir as vozes narrativas, perceber as ironias, captar as ambiguidades, entender a escolha das palavras e seus efeitos de estilo.

Um resumo informa, mas a leitura forma. E, quando o estudante troca o livro por um atalho, ele perde repertório e material real para pensar e escrever bem. A consequência aparece nas redações: textos genéricos, repertórios superficiais, citações inventadas e pouca autoria. Traduzindo: na hora do “vamos ver”, o aluno não se dá tão bem sozinho.

O que se perde quando o esforço é eliminado

O cérebro aprende quando precisa fazer conexões e comparar ideias, ou seja, errar e corrigir, ler, reler e organizar um raciocínio com as próprias palavras. Esse “atrito” é parte do aprendizado. Quando a IA o elimina o tempo todo, o estudante até entrega a tarefa, mas se exercita pouco.

A pergunta não é se o aluno “vai usar?” e, sim, “como deve usar?”. A Inteligência Artificial pode até ser uma boa tutora: esclarecer dúvidas, sugerir exercícios, apontar incoerências, oferecer alternativas de reescrita. O problema é usá-la como substituta do esforço. Uma regra prática funciona bem: primeiro, vem a tentativa, depois, a IA. O estudante produz um rascunho (mesmo que ainda não fique tão legal), lê um trecho e registra suas dúvidas. Só, então, ele deve usar a ferramenta para discutir, revisar e checar o entendimento, nunca para “pular” a leitura.

Afinal, o debate não é sobre proibir nossos filhos e alunos de usar a tecnologia. Ela veio para ficar, e está aí! Nossa conversa deve ser sobre a formação de autonomia. A escola forma o que não se compra pronto, e a capacidade de ler com profundidade é uma dessas formações.

A IA pode ser aliada quando entra como treino e diálogo, e torna-se ameaça quando vira substituição. E, nesse assunto, o melhor investimento dos pais não é tecnológico, é a sua presença na criação de uma cultura de leitura que faça o jovem perceber que um livro pode ser (e como é!) mágico, senão até mais, do que um vídeo ou um jogo. Ler e escrever não devem ser vistos como obstáculo e, sim, como expansão e aprendizado.

Como orientar o uso da inteligência artificial em casa

Alguns combinados e perguntas simples podem ajudar a estabelecer limites e, ao mesmo tempo, ensinar os estudantes a usar a ferramenta como apoio, sem deixar que ela substitua suas próprias tentativas:

  • “Me mostra seu rascunho antes da IA”: Se não existe tentativa, há dependência;
  • “Explica com suas palavras”: Sem paráfrase pessoal, existe só colagem;
  • “Onde isso aparece no livro?”: Obriga a voltar ao texto e citar com precisão;
  • “O que a IA simplificou ou errou?: Ensina a revisar e a desconfiar.

Isso faz com que a tecnologia seja um recurso aliado, e não um inimigo na formação daqueles que são o nosso futuro.

*Paulo Bittencourt é Mestre em Literatura Brasileira (UFMG) e professor de Literatura e Redação do Colégio Loyola.

Formar leitores também é ensinar a lidar com novas ferramentas

No Colégio Loyola, a relação com a tecnologia parte da compreensão de que novas ferramentas precisam estar a serviço da aprendizagem, e não substituir as experiências que ajudam os estudantes a construir repertório e pensamento próprio.

A escola, fundada em 1943, em Belo Horizonte, integra a Rede Jesuíta de Educação, presente em mais de 80 países, e mantém uma proposta educativa voltada à formação de estudantes capazes de refletir, argumentar e fazer escolhas responsáveis diante das transformações do mundo.

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Para conhecer a proposta educativa da escola e saber como a instituição prepara os estudantes para lidar com os desafios de um mundo cada vez mais conectado, acesse loyola.g12.br.

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