*Marisa Ribeiro Silva


Você já tentou chamar seu filho para passar um tempo juntos ou ter um papo cabeça e ouviu como resposta: “Agora não, estou passando de fase”? Os olhos do adolescente estavam tão vidrados na tela que você sentiu que sequer foi ouvido? Em tempos de GTA, Roblox e redes sociais, muitas famílias se perguntam: como gerar maior interação com os filhos? Como proteger crianças e jovens dos excessos do mundo digital? Será que jogar juntos ainda faz diferença no desenvolvimento e no estreitamento das relações?

A resposta para esta última indagação é sim, e não se trata de uma insistência nostálgica. Porém, estamos falando de um outro jogar: o jogar sem tela. O interessante é trazer crianças e adolescentes para o mundo analógico e concreto dos jogos de tabuleiro.

Brincar em família também é aprender

A neurociência e a psicologia histórico-cultural mostram que o jogar estruturado, especialmente em interação com adultos, é um potente organizador do cérebro e da aprendizagem.

Segundo Johan Huizinga, em Homo Ludens, o jogo não é um simples passatempo: ele é constitutivo da cultura. Jogar é uma atividade carregada de sentido, regras, limites e imaginação. O jogar é uma fuga momentânea da realidade, que gera um momento de interação repleto de fantasia e livre dos problemas do dia a dia, é um distanciamento do cotidiano, que permite fortalecer os vínculos afetivos criando maior proximidade mesmo após o fim da partida.

No brincar com regras, a criança aprende a controlar impulsos, assumir papéis e internalizar normas sociais. Em termos simples: ao jogar, exercitamos funções executivas essenciais para a vida como atenção, memória de trabalho e autorregulação.

Os jogos fortalecem habilidades cognitivas

A neurociência demonstra que aprender significa estabelecer e fortalecer conexões entre neurônios. A plasticidade cerebral, capacidade de criar novas conexões ao longo da vida, é ativada quando enfrentamos desafios significativos.
Jogos de tabuleiro bem escolhidos oferecem: planejamento (ativação do córtex pré-frontal); mobilização da memória e raciocínio lógico; controle emocional diante da frustração; estímulo à linguagem e à argumentação.

Diferente de muitos jogos digitais, que oferecem recompensas rápidas e imediatas, os jogos de mesa trabalham com espera, turnos e regras compartilhadas. E o melhor, a cereja do bolo: a presença do outro. Essa diferença é crucial. O cérebro de todos nós, especialmente dos mais jovens, está em constante formação e reconfiguração neuronal, e precisa de experiências que desenvolvam disposição ao diálogo, tolerância à frustração e capacidade de sustentar atenção por mais tempo.

Brincadeiras longe das telas criam oportunidades para o diálogo, a cooperação e a construção de vínculos entre crianças, adolescentes e adultos

Divulgação Colégio Loyola

O tempo em família como espaço de desenvolvimento

Um dos maiores ganhos dos jogos de tabuleiro não está apenas no aspecto cognitivo, mas na interação. A interação entre pais e filhos por meio de jogos analógicos permite modelar estratégias, ensinar a lidar com derrotas, verbalizar raciocínios e demonstrar respeito às regras.

Algumas sugestões para aplicar em casa:

Escolher jogos adequados à idade

Evitar excesso de dificuldade, que gera desistência, e facilidade extrema, que provoca desinteresse. Buscar equilíbrio para garantir interesse e imersão.

Estabelecer um tempo regular

Definir, por exemplo, uma noite por semana. Valorizar a previsibilidade, que fortalece o vínculo e cria expectativa positiva. Transformar esse momento em uma tradição prazerosa, como o “almoço de domingo”.

Valorizar o processo, não apenas a vitória

Perguntar: “Qual foi sua estratégia?” ou “O que você faria diferente?”. Estimular a reflexão para que o jogo continue mesmo após a partida, por meio do diálogo, tornando-se um momento de estreitamento de laços.

Ensinar a perder

Reconhecer a frustração como parte da formação emocional. Evitar poupar a criança da derrota, pois isso não protege, fragiliza.

Opções para aprender, criar e se divertir

Comece por jogos que favoreçam a interação, o diálogo e a diversão para que o “tempo dos jogos” seja especialmente afetivo.

  • Para dar risadas: Taco Gato Cabra Queijo Pizza (+ 8 anos), Exploding Kittens (+ 7 anos) e Dobble (+ 7 anos);
  • Para fazer a imaginação fluir: Dixit (+ 8 anos), Stella (+ 8 anos) e Abstratus (+ 8 anos);
  • Para brincar com as palavras: Codenames (+ 14 anos), Imagine (+ 10 anos) e Concept (+ 10 anos);
  • Para brincar de Sherlock Holmes: Histórias enigmáticas (+ 8 anos), Elementar (+ 14 anos) e Unlock (+ 10 anos);
  • Para fritar a cuca: Azul (+ 8 anos), Knock Knock Dungeon (+ 8 anos) e Bandido (+ 6 anos);
  • Para desenvolver estratégias: Catan, Carcassonne e Pandemic.

Equilíbrio entre o digital e as experiências compartilhadas

Vivemos uma cultura híbrida. Como apontam Bacich e Moran, educação hoje significa integrar experiências presenciais e digitais de forma intencional. O desafio não é eliminar telas, mas garantir que os jovens tenham experiências variadas e humanizadoras.

Os jogos de tabuleiro não competem com o Roblox. Eles oferecem algo diferente. Oferecem tempo compartilhado, negociação de regras, silêncio estratégico, riso conjunto, aprendizado emocional e fortalecimento de laços. Não se trata de nostalgia, mas de desenvolvimento integral.

Em um mundo acelerado e hiperconectado, sentar à mesa para jogar talvez seja um dos gestos mais modernos que uma família pode fazer.

Convivência e aprendizagem caminham juntas

No Colégio Loyola, o desenvolvimento dos estudantes acontece em diferentes experiências de aprendizagem, dentro e fora da sala de aula. Fundado em 1943, em Belo Horizonte, o colégio é uma obra da Companhia de Jesus e integra a Rede Jesuíta de Educação, presente em mais de 80 países.

Inspirada na pedagogia inaciana, a instituição incentiva propostas que valorizam a convivência, a cooperação, o pensamento crítico e a participação ativa, compreendendo que momentos de interação também contribuem para a formação humana e acadêmica.

Saiba como o Colégio Loyola promove uma educação que integra conhecimento, convivência e experiências significativas para o desenvolvimento dos estudantes, acesse loyola.g12.br.

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*Marisa Ribeiro Silva é professora do Colégio Loyola e
especialista em Educação e Game-Based Learning

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