A vitória estrondosa do Partido Democrata nas eleições legislativas de terça-feira, nos Estados Unidos, está sendo vista, principalmente, como uma derrota do Partido Republicano e do presidente Donald Trump. Dois anos depois de ter assumido o segundo mandato na Casa Branca, o magnata que fez fortuna com prédios, hotéis e cassinos recebeu das urnas a mensagem de que a política de Estado, a governança de um país – tanto mais a maior economia (ainda) do mundo –, não é uma partida do jogo de tabuleiro que, por aqui, ganhou o nome de Banco Imobiliário.
O noticiário, em parte pautado pelas pesquisas, aponta com margem quase nula de erro que a derrota de Trump se alicerçou na economia. Nos dois primeiros anos de seu segundo mandato, o presidente dos EUA abusou da confiança nas próprias palavras-de-ordem e diatribes para pautar a discussão política interna. A voz das urnas é nítida: falhou.
O mapa dos resultados da eleição para o Congresso oferece algumas indicações cristalinas, para aqueles dispostos a olhar. Antes de tudo, a migração, para a oposição democrata, do voto de amplas parcelas da classe trabalhadora, que o jargão político estadunidense cataloga como 'blue collor': o "colarinho azul". Em português claro, o macacão usado no chão de fábrica.
A cobertura a sangue-quente das eleições, porém, corre o risco de colocar para escanteio outras camadas de insatisfação da sociedade estadunidense. Elas se refletem, por exemplo, no sucesso de candidatas e candidatos que desafiaram o padrão machista, etnocrático e racial: vimos eleitas uma governadora negra e uma senadora indígena, ambas pioneiras. Entre outras "primeiras vezes", um senador muçulmano e um governador publicamente assumido como gay.
Já quando conquistou a Casa Branca pela primeira vez, em 2016, Trump acenava justamente a uma camada da sociedade castigada pela desindustrialização. Nos estados de vocação industrial, no Nordeste e Meio-Oeste, uma geração crescida sobre os alicerces da economia em transição amargava a ausência de perspectivas. Muito naturalmente, abraçou como seu o discurso de Trump contra a "invasão" chinesa, a imigração e a necessidade de combatê-las, sob o lema de "Tornar a América novamente grande".
Arroubos nacionalistas podem, por vezes, ganhar votos. Foi assim nas duas vitórias eleitorais de Trump, em 2016 e 2024. Mas, como as mentiras, têm pernas curtas. E, nesse ponto, entra em pauta um fator que, até aqui, parecia subestimado nas apreciações sobre a "onda azul" – a cor do Partido Democrata – que varreu os EUA nesta terça-feira já classificada como "histórica".
O presidente se desmoralizou não apenas pelo uso dos imigrantes como uma espécie de "Judas para Sábado de Aleluia": vendeu a ilusão de que persegui-los renderia empregos para os 'blue collors'. E não cumpriu a promessa.
O país que saiu das urnas é mais diverso e se afirma como tal. Falou contra a má gestão da economia por um presidente que confunde o país com as empresas à frente das quais fez fortuna. Falou contra uma agenda que ignora a interdependência e o impacto doméstico inevitável das ações externas.
Sobretudo, falou sobre algo de que, há tempos, a sociedade estadunidense preferia não falar: os parâmetros da democracia. Trump abusou – e abusa – do que enxerga como poderes incontestáveis, como os de que dispõe nas próprias empresas.
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O país respondeu que não.