No fim de semana, o jornalista americano Tucker Carlson publicou na rede X um texto afirmando que os Estados Unidos podem estar a poucos dias de lançar um ataque nuclear contra o Irã. Segundo ele, a decisão seria tomada por volta de 7 de novembro, e o alvo seria a instalação subterrânea de Pickaxe Mountain, no centro do país, onde a inteligência israelense diz que Teerã retomou o enriquecimento de urânio. O presidente Donald Trump, pressionado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, ainda hesitaria, aconselhado a buscar um acordo pelo vice-presidente JD Vance e pelo enviado especial Steve Witkoff. Para Carlson, depois do primeiro disparo a Terceira Guerra Mundial seria inevitável.
Carlson é um dos comunicadores mais influentes da direita americana. Apresentou por anos um dos programas mais assistidos da Fox News, deixou o canal em 2023 e hoje produz conteúdo por conta própria. Apoiou o movimento que levou Trump ao poder e é crítico de longa data das intervenções militares americanas no exterior. O aviso, portanto, vem de alguém do próprio campo político do presidente.
O texto tem fragilidades que precisam ser ditas. Apoia-se em um observador não identificado e não apresenta documentos. A Casa Branca não confirmou nenhum dos pontos, e Carlson já anunciou, desde abril, ataques iminentes que não aconteceram. A data e os detalhes devem ser tratados com cautela. Mesmo com essas ressalvas, o alerta chega num contexto que torna difícil descartá-lo.
Em setembro, da tribuna da Assembleia Geral da ONU, Trump disse ter uma grande decisão a tomar: fechar um acordo com o Irã ou aniquilar a República Islâmica, e rapidamente. Logo depois, recuou e convidou os demais países a aderir ao isolamento econômico de Teerã. A montanha apontada por Carlson já circulava nas análises militares desde então, como um complexo de túneis profundos que armas convencionais teriam dificuldade em alcançar. Carlson afirma ainda que, desde fevereiro, a doutrina nuclear americana foi discretamente ajustada para facilitar o uso de armas nucleares de campo de batalha e que ninguém em Washington, em nenhum dos dois partidos, parece preocupado com isso. Também esse ponto carece de confirmação, mas descreve o tipo de movimento que um alerta como o dele pretende denunciar.
As consequências de um ataque desse tipo ultrapassariam em muito o território iraniano. Desde Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, há 81 anos nenhuma arma nuclear foi usada em combate. Esse intervalo se sustenta em um tabu, e quem tem o maior arsenal do mundo e o quebra entrega a todos os outros o argumento que faltava. Vladimir Putin, que já fez chegar à Otan a ameaça de empregar armas nucleares em torno de Kaliningrado, teria um precedente para invocar diante de Kiev. A China poderia citá-lo ao calcular os custos de uma ação contra Taiwan. Índia e Paquistão, vizinhos nucleares com décadas de hostilidade, passariam a viver sob a lógica de que a bomba voltou a ser uma opção de guerra convencional.
O Irã, por sua vez, tornaria imprevisível qualquer resposta. Um país atingido por uma arma nuclear, com redes de aliados espalhadas pelo Oriente Médio e acesso a métodos que não obedecem a regras militares, pode reagir de formas que nenhum planejador consegue mapear. Ataques à infraestrutura energética do Golfo, contra bases americanas e contra aliados na região são cenários óbvios. A hipótese de um atentado com material radioativo numa grande cidade ocidental, Nova York inclusive, não pode ser excluída por quem avalia o risco com honestidade. Carlson menciona ainda a contaminação do Golfo Pérsico, o comprometimento do abastecimento de água de países inteiros e o choque nos mercados de energia, que atingiria a economia de todos os continentes.
Se o alerta de Carlson se revelar mais um exagero, o mundo terá motivos para respirar aliviado. Mas a conversa que ele provoca precisa acontecer antes de qualquer decisão, e não depois. O uso de uma arma nuclear em combate é uma linha que não pode ser cruzada em hipótese alguma, por nenhum país e sob nenhuma justificativa. Aliados de Washington, o Congresso americano, as Nações Unidas e a imprensa precisam dizer isso com clareza ao governo Trump, antes que a pergunta deixe de ser hipotética.
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