ALAMANDA KFOURY PEREIRA - Vice-reitora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Ciência delas é o tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia que está sendo realizada até o dia 1º de novembro, no Rio de Janeiro A proposta convoca a comunidade científica e educacional a ampliar a participação das mulheres como protagonistas na produção e difusão do conhecimento. É também uma oportunidade para enfrentar estereótipos de gênero que limitam trajetórias. Incentivar meninas e mulheres a se aproximarem da ciência é fundamental, mas precisamos transformar as condições para que elas construam suas carreiras.
Venho de uma família de quatro mulheres e um homem. Meu pai era bancário, negro, e não havia concluído o ensino fundamental. Minha mãe era dona de casa. Ele dizia que, para uma mulher mudar seu destino, era preciso estudar. Essa ideia me acompanhou.
Minha trajetória não foi linear. Formei-me em enfermagem e ciências biológicas antes de ingressar em medicina na UFMG. Durante a formação, enfrentei situações em que o machismo se manifestava de maneira explícita ou disfarçada. Ouvi que não poderia fazer determinados estágios por ser mulher, que ser casada tornaria tudo mais difícil e que não conseguiria conciliar residência e maternidade. Naquele tempo, nem sempre reconhecíamos o machismo: a discriminação era naturalizada.
Decidi dedicar-me à carreira, à pesquisa e à formação de pessoas, buscando ser referência na minha área. Fui a primeira mulher a defender o doutorado no Programa de Pós-Graduação em que me formei, a primeira professora titular, a primeira vice-diretora e a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Medicina da UFMG. Essas conquistas também revelaram que presença não significa liderança.
Na minha área, as lideranças foram historicamente masculinas. As mulheres trabalhavam e contribuíam, mas nem sempre recebiam o mesmo reconhecimento. Não basta ingressar na universidade e nos centros de pesquisa; é preciso encontrar condições para permanecer, produzir, avançar na carreira e ocupar espaços de decisão.
As condições ainda são desiguais. Durante minha formação, não tive liberação de encargos didáticos para escrever a tese, pesquisar ou coletar dados. Além das exigências profissionais, o trabalho doméstico e o cuidado com a família continuam recaindo desproporcionalmente sobre as mulheres. Precisamos de políticas institucionais de parentalidade que reconheçam essas condições e garantam tempo para a formação, a pesquisa e a progressão na carreira. As redes de apoio são fundamentais, mas não substituem políticas capazes de reduzir o peso dessas responsabilidades.
Aprendi que as desigualdades também se mantêm nas práticas cotidianas e nas decisões institucionais. Na Faculdade de Medicina, eram poucas as mulheres entre os professores eméritos. Durante minha gestão como diretora, percebi que o reconhecimento recaía sobre os homens, enquanto a possibilidade de homenagear mulheres sequer entrava em discussão. Foi preciso mobilizar departamentos, dialogar e convencer para mudar esse quadro. A passagem do tempo, por si só, não transforma as instituições: é necessário modificar as práticas que reproduzem desigualdades.
Como vice-reitora da UFMG, reconheço a responsabilidade de transformar os compromissos da universidade em práticas concretas. Quero contribuir para que as mulheres encontrem condições efetivas para produzir conhecimento, receber reconhecimento e ocupar espaços de liderança. Abrir caminhos não basta; precisamos criar condições para que outras mulheres também possam percorrê-los, sem tantas renúncias.
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É preciso agir no presente, rever práticas e criar oportunidades. A mudança não pode esperar. O tempo é hoje.