As eleições são especialmente importantes em uma democracia, constituem acontecimento singular que se inscreve na história do país, mas não são tudo: há de se reconhecer a primazia do povo, de sua efetiva participação, que não pode se esgotar no contexto eleitoral. A primazia do povo precisa ser fundamento para o exercício de mandatos, com representantes eleitos e efetivamente fazendo cumprir o que assevera a Constituição Federal: “Todo poder emana do povo”. Exercer representatividade à luz dessa premissa exige profunda sensibilidade para reconhecer os anseios da população, o compromisso na busca por soluções para os graves problemas sociais e incondicional priorização do bem comum, com atenção especial aos que mais sofrem. Assim, a primazia do povo não impõe responsabilidades apenas aos eleitos. Pede, de cada pessoa, o compromisso cidadão de participar. Isso significa fiscalizar seus representantes no exercício do poder, oferecer contribuições e, principalmente, romper com as divisões que impedem o diálogo.


O resultado das urnas não expressa simplesmente uma lista de nomes que vão compor as instâncias do poder. Aponta direções escolhidas pelos cidadãos para a construção do país, materializadas nas propostas dos políticos eleitos. Compete aos que vão assumir mandatos agir com fidelidade às propostas de campanha. Já o povo, em sua primazia, tem a responsabilidade de manter-se vigilante e participativo, não deixando apagar a flama da cidadania, essencial ao contínuo amadurecimento da jovem democracia brasileira. O regime democrático no Brasil ainda precisa avançar muito, alcançar maturidade, mas, ao invés disso, tem sofrido sucessivos desgastes, em razão de crises institucionais e cidadãs. Essas crises têm raízes em muitos aspectos que merecem ser estudados, precisam ser mais conhecidos, para que sejam adequadamente tratados. Especial atenção precisa ser dedicada à crescente hostilidade alimentada por extremismos ideológicos: tem gente com aversão ao semelhante, incapaz de reconhecer a dignidade do próximo.


Sem reconhecer a dignidade do próximo, mesmo aquele com quem se diverge, fica impossível dialogar, exercício essencial em uma democracia. O papa Francisco, na Carta Encíclica Fratelli tutti, ensina que um povo se constitui por vínculos sociais, culturais e aspirações comuns. Não se trata de um conjunto de pessoas que pensam do mesmo jeito, mas que se reconhecem, aceitam as diferenças e, nas situações de discordância, dedicam-se à construção de entendimentos. Sem diálogo ou disposição para construir consensos há progressivas perdas democráticas, com sucessivos ataques às instituições, desobediência ou manipulação de legislações, buscando fazer valer, de modo egoísta, as próprias perspectivas. Democracia é justamente o contrário: significa governo do povo, conforme destaca a Fratelli tutti.


Aqueles que afrontam as instituições democráticas, com manipulações e atos criminosos, instauram o caos e não têm compromisso com a população, que passa a ser instrumentalizada por projetos de poder. Há, inclusive, gente que assume disfarces religiosos para satisfazer interesses pouco nobres, buscando favorecimentos pessoais a partir da fé. A Igreja ensina, em sua Doutrina Social, que a autoridade política encontra sua razão de ser no serviço ao bem comum. Isso significa que as autoridades devem se submeter aos anseios do povo: “O sujeito da autoridade política é o povo considerado na sua totalidade como detentor da soberania”, diz a Doutrina Social da Igreja, iluminando o caminho a ser seguido, de pleno exercício da cidadania. Mais que o dia das votações, merecem um olhar atento as manifestações que tomaram as ruas, na adesão a candidatos, na defesa de perspectivas que contemplem o bem comum. Aqueles que ocuparam as ruas e os ambientes digitais nas eleições são convocados a continuar participando, para exigir que seus representantes exerçam qualificadamente os seus mandatos, fiéis às suas promessas de campanha. Essa participação cidadã não pode ser simplesmente eivada por paixões, mas exercida a partir do compromisso com a corresponsabilidade, sem espaço para ódio ou revanchismo, com responsabilidade e respeito à dignidade humana.


A democracia brasileira está viva nos cidadãos que ocupam as ruas, e precisa ser cada vez mais fortalecida pelos representantes do povo, com gestos de honestidade e cuidado com a vida de todos, especialmente dos pobres, sem manipulações, corrupção e favorecimentos. Assim, instituições essenciais à vida democrática, atacadas e feridas por gente que abre mão da ética e da honestidade em nome do dinheiro, poderão recuperar credibilidade. O processo eleitoral se desdobre sempre em qualificada participação cidadã cotidiana, para um atento, criterioso e rigoroso acompanhamento de mandatos, sem fanatismos ideológicos. Ao invés de fanatismos, prevaleça o compromisso com a busca pela verdade, essencial em uma democracia.

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O papa Leão XIV adverte, na Carta Encíclica Magnifica humanitas, que “quando a questão sobre o verdadeiro perde interesse e se instaura um pragmatismo que se dá por contente com o que parece útil ou eficaz, a vida democrática enfraquece. Com efeito, ela não se nutre apenas de regras e procedimentos, mas, principalmente, de uma leal relação com os acontecimentos e de uma orientação efetiva para o bem das pessoas e do corpo social”. O povo brasileiro merece mais respeito, as Eleições 2026 trouxeram promessas para solucionar urgências que devem ser cumpridas disciplinadamente. Representantes e representados, no exercício da cidadania, são chamados sempre a agir tendo como meta o bem de todos, do corpo social. É o caminho para avançar sempre na democracia e respeitar a primazia do povo.

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