O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou a eleição no domingo. Na segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, e o da Argentina, Javier Milei, ainda não haviam o parabenizado. Ontem, Flávio Bolsonaro desapareceu do Brasil e embarcou rumo aos Estados Unidos, depois de ter sido intimado pelo Supremo Tribunal Federal a entregar os passaportes.


O não reconhecimento de Trump e Milei não é acidental. Os dois apoiaram Flávio Bolsonaro durante a campanha e agora escolheram ignorar Lula como forma de sinalizar desconforto com o resultado. Antes mesmo do resultado, Milei classificou o processo eleitoral brasileiro como fraudulento, sem apresentar qualquer evidência. Trump deixou sua insatisfação nas entrelinhas ao dizer que achou a extensão do horário de votação “estranha” e começou a afirmar um dia depois das votações que "pareceu mais uma eleição fraudada". A ida de Flávio para os Estados Unidos, investigada pela Polícia Federal, adiciona um elemento que transforma o desconforto diplomático em problema concreto, já que a relação bilateral ganhará um nó que vai muito além de diferenças ideológicas entre presidentes.


O desafio de Lula é administrar esse coquetel sem deixar que as animosidades pessoais entre chefes de Estado contaminem as relações entre países. Brasil e Estados Unidos são parceiros comerciais estratégicos – e, não custa lembrar, o tarifaço de 25% ainda está em vigor, com negociações em andamento. Brasil e Argentina compartilham fronteira, integram o Mercosul e têm uma interdependência econômica que nenhum dos dois pode ignorar por questões de simpatia política. A história das relações internacionais está cheia de exemplos de países que separaram o que seus governantes sentem do que seus interesses exigem. Essa capacidade de distinção será testada nos próximos meses.


A diplomacia brasileira terá que operar nos próximos meses em território hostil com instrumentos conhecidos: canais técnicos, interlocução por vias secundárias, paciência estratégica e a clareza de que relações de Estado não se resolvem em redes sociais nem se medem pelo tom de um post não publicado. Lula tem experiência nesse terreno: em seu primeiro mandato construiu pontes com governos de perfis muito distintos. A diferença agora é que o ambiente internacional é mais fragmentado, as tensões mais explícitas e a janela para erros, menor. Além disso, Lula está mais velho, e périplos pelo mundo para costurar relações internacionais são cansativos e desgastantes por natureza.


Há, ainda, uma dimensão institucional que não pode ser negligenciada. Se a permanência de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos se confirmar como um fator de tensão, o governo brasileiro terá de evitar que questões judiciais sejam convertidas em instrumentos de pressão política ou moeda de troca diplomática. Cabe às autoridades competentes conduzir as investigações e fazer cumprir as decisões judiciais, respeitados os procedimentos legais. Ao Executivo, por sua vez, compete defender a soberania nacional e buscar a cooperação internacional necessária, sem interferir na Justiça nem permitir que disputas partidárias ditem os rumos da política externa. A separação entre essas esferas será essencial para preservar a credibilidade do país.


Também seria um erro interpretar a postura de Milei e de Trump como prova de que toda a relação com seus países está comprometida. Governos passam, interesses permanecem e a diplomacia dispõe de mecanismos para atravessar períodos de hostilidade. Mas a defesa desses interesses exige reciprocidade, firmeza e pragmatismo. Lula não precisa conquistar a simpatia de Trump ou Milei, tampouco responder a provocações na mesma moeda. Precisa, isto sim, deixar claro que o Brasil está disposto ao diálogo, mas não aceitará que divergências políticas se sobreponham ao respeito institucional e à autonomia de suas decisões. A moderação, nesse contexto, não deve ser confundida com fraqueza.

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O mundo continua girando com as mesmas contradições de antes. O que muda é que agora cabe ao governo recém-confirmado navegar essas contradições com habilidade suficiente para proteger os interesses do país, sem ingenuidade sobre as intenções dos interlocutores e sem transformar cada tensão diplomática numa crise desnecessária.

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