A democracia não exige unanimidade. Ao contrário: ela existe para permitir que pessoas com interesses, valores e projetos distintos disputem o poder sem recorrer à força. Divergir é legítimo; desumanizar o outro, intimidá-lo ou agredi-lo por causa de seu voto não é. O Brasil precisa afirmar esse limite com clareza. E essa deve ser a primeira missão do presidente eleito.
Depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em eleições marcadas novamente por forte polarização, a pacificação política tornou-se uma tarefa pública urgente. Não para apagar diferenças, impor silêncio ou produzir uma falsa harmonia, mas para devolver ao conflito político sua forma civilizada: argumentos, organização, voto, fiscalização e respeito às regras.
Foi o que fez, na manhã de ontem, o governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos), ao defender enfaticamente a pacificação do país e promover um abraço entre um eleitor bolsonarista e um petista. “Cada político tem a obrigação de pacificar esse país. A gente precisa fazer isso. A gente não vai conseguir governar o país nessa divisão que está. Nós somos um só povo e, para prosperar, precisamos estar unidos”, afirmou o governador, repetindo o que havia falado logo depois de sua eleição.
As palavras e o gesto de Cleitinho lembram a todos os eleitores que, na democracia, cidadãos com visões diferentes podem coexistir em paz e sem violência. Divergir é legítimo; intimidar ou agredir alguém por causa de seu voto não é.
Uma eleição apertada não é defeito democrático. O problema surge quando a proximidade do resultado serve para negar a legitimidade do vencedor ou quando uma maioria estreita pretende ignorar quase metade do país. O voto decide quem governa, mas não elimina os direitos dos derrotados nem autoriza vencedores a agir sem limites.
Levantamento de Justiça Global e Terra de Direitos, baseado em ocorrências divulgadas publicamente, mapeou 523 episódios de violência política entre setembro de 2020 e outubro de 2022, envolvendo 482 vítimas. Entre 1º de agosto e 2 de outubro de 2022, foram 121 casos contra agentes políticos, quase dois por dia. Em levantamento separado, as organizações identificaram 68 episódios de intolerância contra apoiadores, eleitores e trabalhadores, incluindo seis assassinatos. Embora não sejam um cadastro completo, os dados mostram risco concreto à liberdade de participação e de voto.
A violência deve ser condenada independentemente de quem agride ou é agredido. Quando cada grupo minimiza os crimes de seus aliados e usa a dor de suas vítimas para justificar retaliação, forma-se um ciclo que intimida comunidades, afasta pessoas da vida pública e favorece os mais dispostos a coagir.
A paz democrática não elimina protestos, oposição, jornalismo investigativo ou debates firmes; ela protege esses instrumentos porque substituem a força. Lideranças devem reconhecer resultados proclamados pela Justiça Eleitoral, contestar irregularidades apenas pelos meios legais e com provas, condenar agressões sem ressalvas e evitar discursos que tratem parcelas da população como traidoras.
As instituições precisam agir com transparência, equilíbrio e rapidez. Justiça Eleitoral, forças de segurança, Ministério Público e Judiciário devem prevenir ameaças, proteger vítimas e responsabilizar condutas individuais. Escolas, imprensa, plataformas digitais, empresas e partidos podem promover educação cívica, combater boatos e prevenir assédio eleitoral.
Cada cidadão também deve recusar a desumanização, verificar informações antes de compartilhá-las e defender o direito de todos votarem sem medo. É possível apoiar intensamente uma candidatura e reconhecer a dignidade de quem escolheu outra.
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Pacificar é aceitar que votos decidem governos, leis limitam o poder e instituições resolvem controvérsias. É vencer sem revanchismo e perder sem violência. Diante de um país quase dividido ao meio, a convivência democrática é a condição para que todos disputem o futuro do Brasil sem destruí-lo.