Conta-se que um califa, tendo se convencido de que bastaria um único livro para reger o conjunto da vida, teria mandado queimar a grande e famosa biblioteca de Alexandria. Um caso típico de falta de lucidez na consideração da realidade, uma interpretação cega que leva ao radicalismo e à polarização. A sociedade brasileira está clamando por lucidez nos procedimentos e nas interpretações que incidem fortemente na vida de todos. As interpretações têm sido formatadas, prioritariamente, pelo imaginário ideológico partidário, leito muito estreito para dar conta da gestão da realidade, em vista do bem comum. Constata-se que a paixão esportiva parece ser modelo para se criar vínculos de pertencimento no âmbito da política, cada vez mais carente de uma compreensão republicana a respeito das instituições e de seus procedimentos. Assim, a política se contamina com manifestações radicais e até violentas, espetacularizações com cenas ridículas e bizarras.
O exercício cidadão na política não pode ser simplesmente conforme os parâmetros de uma torcida de futebol. O horizonte que deve ser seguido é do zelo e da responsabilidade para o bem de todos. Esse zelo e responsabilidade é que devem presidir ações, funcionamentos, decisões e prioridades. Seguir outro rumo é contribuir para que sejam criados espaços de manipulações, desrespeitos ao erário público, hegemonias odiosas e descompassos que se revelam nas disparidades sociais. Cria-se um clima de terror e de ameaças, com instabilidades que prejudicam o desenvolvimento integral, alimenta-se o ódio que obscurece os rumos, com prejuízos de todo tipo. As candidaturas são construídas sobre os alicerces da desmoralização do adversário, desconsiderando que a honestidade é selo principal de quem serve ao povo. A força negativa desse modus operandi recai sobre a vida social, com a imposição de atrasos que geram sofrimento para todos, especialmente para os pobres.
Nesse contexto de cegueira no exercício da política, as narrativas se resumem nas lamentáveis armadilhas que encobrem a verdade. O resultado triste é um povo incapaz de lidar com as diferenças, dividido: pessoas vivendo como se estivessem em guerra umas com as outras. O ódio passa a presidir disputas, a soberba toma o lugar da transparência, a opção partidária é considerada a mais importante, um distanciamento de qualificada cidadania. Grassa por toda parte a falta de civilidade, com a espetacularização do ridículo. Uma realidade que não consegue conceder projeção aos portadores de sabedoria, por terem vivido mais, nem se valer do vigor da juventude, incapacitada para alavancar a superação de disparidades. A sociedade brasileira padece do esvaziamento de uma cultura com força para orientar e inspirar uma cidadania republicana.
O personalismo preside as dinâmicas, desconsiderando o compromisso social e político de construir uma sociedade justa e fraterna. Ganham relevância as disparidades que precisam ser enfrentadas, conjuntamente, a partir do diálogo, longe de revanchismos e das acentuações desmedidas de ideologias políticas: há de prevalecer um nobre sentido de pertencimento à nação brasileira, pois respostas novas para graves problemas precisam ser encontradas urgentemente, com um sentido social apurado, eivado de valores e princípios inegociáveis. Oportuno é sempre discutir as pautas prioritárias em espírito de diálogo, compromisso com o bem comum, respeitando a cidadania, vislumbrando soluções efetivas, e não eleitoreiras, ciosamente dedicando-se à justiça social, a partir dos princípios da transparência e da honestidade.
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A urgência pela abertura de um novo ciclo na história da sociedade brasileira espera dos eleitos uma atuação qualificada capaz de fazer das diferenças uma riqueza, para que os muitos pontos de vista se tornem plataforma de diálogos. Caso contrário, haverá agravamento contínuo de perspectivas limitadas pelas ideologias partidárias, impondo ao Brasil um ritmo lento de avanço civilizatório, quando, na verdade, precisa se desenvolver aceleradamente. O momento é grave e exigente, requer responsabilidade e competência. Em jogo não está simplesmente o destino de partidos e de candidaturas, mas o futuro da nação brasileira. Há de se cultivar a cidadania sempre, em todos os níveis, com atitudes republicanas, sem confusões ou subjetivismos, abrindo passagem a um novo tempo – um caminho para se debelar as disparidades.