Ao menos por enquanto, Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro confirmam participar, no domingo, do primeiro debate presidencial do segundo turno, na Band, às 20h. Será, finalmente, a oportunidade que um terá para dizer por que merece ser reeleito, e o outro, o motivo para que o escolham. Momento de apresentarem visões e propostas de governos e explicarem as razões de serem tão distintas e conflitantes. Chance de convencer o eleitor, principalmente o indeciso, de que são confiáveis.
Mas nada disso deve acontecer. Ainda que as regras do debate prevejam temas a comentar, os dois devem ignorá-los. Não faltam a Lula e a Flávio propostas a apresentar, mas esta eleição é uma guerra de aniquilação. Acabou-se a política em que se respeitavam divergências, teorias opostas de gestão e percepções diferentes das necessidades da população. Prevalece o “campeonato de cortes” para as redes sociais.
É a diminuição da vida pública. O nivelamento por baixo impede o debate, como se viu nos que ocorreram no primeiro turno. As redes promovem a incivilidade, e os algoritmos favorecem a violência, a agressividade e a desqualificação. O engajamento pelo lado negativo fez da política uma várzea.
Não se pode culpar a polarização por isso. Tal divisão sempre existiu na política brasileira. Foi entre o PTB-PSD e a UDN, nos tempos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Na ditadura, Arena e MDB se digladiaram. Na redemocratização, o PT se opunha ao PFL e ao PDS – o PMDB tinha um pé em cada canoa. Nos anos de 1990, foi a vez de PT e PSDB disputarem o eleitorado. Isso seguiu até 2018, quando o bolsonarismo trouxe a ruptura. A intransigência tornou-se regra. E as redes, com os cortes e manipulações, rebaixaram tudo a um ponto que parece impossível de ser elevado novamente.
No primeiro turno, nem Lula nem Flávio foram aos debates, cada um com justificativas que podem ter convencido o seu eleitorado. Agora, há uma grande chance que não deveria ser desperdiçada.
O presidente tem muito a esclarecer. Apresentar o que foi feito nesses últimos quatro anos é pouco para quem quer se reeleger. O país muda na velocidade das redes sociais, essas mesmas que fizeram da política uma disputa de cliques. O velho discurso do sindicalismo não convence, tampouco rende votos relembrar as glórias do Brasil analógico. A desigualdade e a carência não foram superadas, mas as pessoas querem hoje mais do que programas sociais e benesses eleitoreiras.
Flávio é a representação do pai e dá a entender que reeditará o governo dele. O senador tem muito a explicar sobre negócios e relações pessoais, sobretudo com o notório Daniel Vorcaro. Deve esclarecer, também, que papel o ex-presidente e o irmão que mora nos Estados Unidos terão caso chegue ao Palácio do Planalto.
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No domingo, Lula e Flávio estão obrigados a dizer a que vieram. Mas não devem fazê-lo. E isso é péssimo para quem vai às urnas dia 25.