O Brasil vive o singular momento de eleições livres, amplas e limpas – sustentáculo da democracia, autêntico exercício de cidadania. Os resultados das urnas expressam a vontade do povo e sinaliza seus anseios. Esse processo se efetiva contando com a determinante contribuição do arcabouço político-partidário, que reflete a dimensão plural da sociedade neste tempo. Os partidos políticos têm a função de favorecer ampla participação e o acesso de todos às responsabilidades públicas, ensina a Doutrina Social da Igreja Católica. Desempenham, assim, a importante tarefa de interpretar as aspirações da sociedade civil orientando-as para o bem de todos. Portanto, os partidos devem ter o compromisso de desenvolver sínteses políticas e projetos capazes de ajudar os cidadãos a formular suas próprias opções. Naturalmente, são regidos por princípios e valores diferentes, mas devem partilhar sempre o compromisso com o bem comum. Isso significa que um partido político não pode alicerçar a sua ideologia em princípios e concepções que venham atentar contra valores democráticos, particularmente o respeito à dignidade humana.
Eleições são um jogo plural em que ora vence um partido com sua coligação, ora vence outro. As diferenças podem acirrar sentimentos e, para que não levem a perdas irreparáveis, todos devem buscar a primazia do bem. Lamentavelmente, convive-se com disputas figadais que podem se desdobrar em revanches raivosas e ondas de intolerâncias. Esse caminho apenas contribui para que a paixão política alimente polarizações. E corre-se o risco de minimizar a grandeza de se buscar o bem da sociedade, apequenando-se, consequentemente. O exercício do poder na democracia, para além da ideologia partidária, exige um governar para todos, tanto para os vencedores quanto para quem não foi exitoso no pleito. Trata-se de postura que expressa grandeza, na contramão de revanchismos, perseguições e disputas, com o equívoco de buscar construir-se pela desconstrução do semelhante.
O bem comum está acima das comemorações daqueles que venceram as eleições e da inquietação dos que perderam. Importa a grandeza e a nobreza de se exercer o poder para promover e garantir o bem comum, agindo com lisura moral, rechaço à corrupção, sempre a partir do respeito à dignidade humana. Vencer eleições é admitir que se deve enfrentar também, com serenidade e sabedoria, os problemas da própria comunidade política, dedicando-se à busca de soluções para problemas que desfiguram o rosto de uma sociedade democrática. A primazia do bem deve ser o compromisso das instituições e instâncias de poder que configuram o exercício da democracia. Nesse sentido, não se pode negociar o princípio basilar de que a comunidade política está, essencialmente, a serviço da sociedade civil. Não se pode inverter essa ordem hierárquica. Não se pode considerar a sociedade civil como um apêndice ou uma variável da comunidade política.
A Doutrina Social da Igreja sublinha a preeminência da sociedade civil: a comunidade política existe e se justifica no contexto maior da sociedade civil, de quem está a serviço. Agir na contramão dessa realidade leva também ao desencanto com a política, que passa a ser instrumento de vinganças ou de manipulações interesseiras, inviabilizando o bem de todos. A responsabilidade de quem é sufragado nas urnas é enorme. Não se esgota no compromisso partidário, mas projeta-se na amplitude da responsabilidade de dar conta do exercício do mandato, consideradas as complexidades de funcionamentos, os desafios e as exigências na confecção de um novo tecido social, superando a consideração de interesses oligárquicos para garantir o bem do povo. Vencer as eleições deve ser “porta de entrada” para a oferta da própria vida em benefício do bem comum. Não é simplesmente ocupar cadeiras para a satisfação de caprichos, da vaidade pessoal, ou conquistar benesses.
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A primazia do bem comum é farol que deve iluminar diálogos e confrontos. O momento atual exige análises lúcidas para que não se perca a oportunidade de novas respostas aos desafios e necessidades do povo. As análises, opiniões e narrativas constituem importante contribuição para que muitas promessas se efetivem. A corrida eleitoral não é uma gincana entre vencedores e perdedores, mas a busca por um bem maior. O sabor da vitória ou o amargo da derrota não podem ser o critério de atuação, de discernimentos sobre prioridades. Aqueles que foram às urnas esperam que toda a classe política priorize o bem comum, deixando-se guiar por princípios morais que fermentam a honestidade, a credibilidade, resultando em qualificadas gestão e representação. O ponto de partida e de chegada será sempre a primazia do bem, corrigindo descompassos, superando crises, reavendo credibilidade na política. Respeitada essa primazia, impulsiona-se, na sociedade, a justiça social e o compromisso com a solidariedade. Abandonado esse caminho, prevalecerão as escolhas equivocadas, as manipulações interesseiras, com prejuízos pesados para todos. Aqueles que verdadeiramente buscam servir ao povo, exercendo qualificadamente a cidadania, tem este horizonte luminoso e inspirador: buscar sempre a primazia do bem.