O maior desafio no pleito eleitoral relaciona-se a cada cidadão, considerada a responsabilidade sociopolítica do voto, instrumento para escolher representantes para o exercício de mandatos nas instâncias do poder. O voto define rumos, abre ciclos que podem, ou não, levar a novas respostas. É instrumento insubstituível na escritura de uma nova página na história de uma nação. Aos candidatos compete o desafio de convencer o eleitor e, encontrando êxito, exercer seus mandatos com responsabilidade moral, correspondendo às exigências do ofício.


Aqueles que se submetem às urnas costumam ter certa facilidade narrativa para compor um discurso com promessas e propósitos. Mas, quando se busca quem é realmente capaz de intervir na realidade social, abrindo caminho para novas respostas, percebe-se uma realidade diferente: significativa parte da classe política busca simplesmente validar a própria imagem, inclusive a partir de falácias ou do costumeiro ato de promover a desmoralização do adversário. Consolida-se, com isso, um contexto em que a política perde a sua propriedade de construir entendimentos, enquanto se adota a demolição moral do semelhante em busca de se obter dividendos eleitorais. Em consequência, a credibilidade do mundo político-partidário se enfraquece e os cidadãos não conseguem mais reconhecer referências indispensáveis para o qualificado discernimento do voto.


A credibilidade no universo político torna-se especialmente ameaçada quando a ideologia de cada partido ocupa o centro das atenções, com os parâmetros essenciais do sistema democrático perdendo espaço. É preciso, pois, dedicar especial atenção à democracia que, conforme sublinha São João Paulo II, na Carta Encíclica “Centesimus annus”, assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas, oferece uma engenharia que garante aos governados a possibilidade de escolher e controlar os próprios governantes, seus representantes, e até de os substituir pacificamente, quando necessário.


A Doutrina Social da Igreja Católica ensina que a democracia não pode favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou de seus objetivos ideológicos. Os dirigentes merecedores do voto popular são chamados a respeitar, no sistema democrático, o Estado de direito, assentando-se sobre os alicerces de uma reta compreensão do ser humano.


Quem manipula estruturas de participação e de corresponsabilidade não possui autoridade representativa e governamental. Uma autêntica democracia, também ensina a Doutrina Social da Igreja, não é somente resultado de um respeito formal de regras, mas é fruto da convicta aceitação dos valores que inspiram os procedimentos democráticos. Aceitar esses valores é reconhecer e promover a dignidade humana, não ferindo jamais sua magnificência, promovendo o respeito aos direitos fundamentais e o compromisso com o bem comum. Esses valores constituem o critério regulador da vida política. O exercício do poder não se relaciona, portanto, à simples gerência de uma máquina, permitindo ou promovendo um funcionamento manipulado por interesses oligárquicos em detrimento do bem comum. Quando se exerce o poder a partir de interesses pouco nobres, abre-se caminho para a corrupção, sinalizando desrespeito a valores ético-morais inegociáveis. O resultado disso aponta para uma realidade caótica que valida cenários de miséria com graves consequências para a maior parte da população.


O relativismo ético é um veneno que corrompe muitas pessoas, com repercussão em funcionamentos institucionais, pela sedução do dinheiro fácil e abundante. Mina ideais democráticos, contribuindo para que incompetentes, manipuladores e até mesmo organizações criminosas ocupem, cada vez mais, instâncias de poder. Uma realidade exaustivamente apresentada na mídia. São João Paulo II assevera que uma democracia sem valores se converte em um totalitarismo aberto ou dissimulado. A história mostra que a democracia é um ordenamento, um instrumento, e não um fim.


A Doutrina Social da Igreja ressalta que o ordenamento democrático precisa ser efetivado em conformidade com a lei moral, à qual se deve submeter, como qualquer outro comportamento humano. O ordenamento democrático depende da moralidade dos fins perseguidos e dos meios usados. A democracia requer irrestrito respeito ao Estado de direito no qual é soberana a lei, e não a vontade arbitrária dos que ocupam cargos, preservando o equilíbrio entre poderes.


Encontrar nomes capazes de corresponder às necessidades do corpo social é o grande desafio no contexto das eleições. Uma escolha decisiva, quando se considera que a representação política não deveria ser de competência dos aventureiros. Os nomes que alcançarem êxito nas urnas têm o dever de se dedicar ao bem comum, exercendo a representação com fidelidade a princípios morais, o que contempla compartilhar as dores do povo e, consequentemente, dedicar-se à busca por soluções para problemas sociais. O voto consciente contribui para que prevaleçam, entre os eleitos, aqueles que reúnem virtudes fundamentais, como a paciência, a caridade, a modéstia, a moderação e a consciência de que o exercício do poder é uma forma de serviço.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


O Estado precisa de uma administração pública qualificada, gestora eficaz dos bens do povo, tudo fazendo para servir aos cidadãos. Pesa a escassez de nomes que reúnem as virtudes essenciais para bem exercer essa missão. É justamente essa escassez que torna ainda mais importante o exercício da cidadania neste momento: neste desafio eleitoral que envolve todos na sociedade brasileira não se pode perder a chance de dar um passo adiante, a partir de discernimentos e de escolhas qualificadas. Um passo que possibilite escrever novas e exitosas páginas na história da nação.

compartilhe