PEDRO DE MEDEIROS - Filósofo, engenheiro mecânico e pós-graduado em gestão de pessoas
No domingo, milhões de brasileiros irão às urnas e, diante da tela, farão aquilo que chamamos de escolha política. Estaremos sozinhos naquele instante, protegidos pelo voto secreto, mas dificilmente chegaremos sozinhos até ele. Família, religião, educação, condição econômica, amigos, experiências, medos, valores e, mais recentemente, redes sociais e algoritmos terão percorrido conosco um longo caminho até a cabine de votação.
O direito de fazer essa escolha também percorreu um longo caminho. Durante o Império, o voto esteve submetido a critérios de renda e excluía grande parte da população. Em 1881, os analfabetos perderam o direito de votar. As mulheres conquistaram o voto em 1932 e os analfabetos voltaram às urnas em 1985. A Constituição de 1988 consolidou o sufrágio universal e ampliou definitivamente a participação política brasileira.
Essa história merece ser lembrada porque passamos séculos discutindo quem teria o direito de escolher. Hoje podemos fazer outra pergunta: quanto dessa escolha é realmente nossa? Gostamos de imaginar nossas decisões como resultado da razão. Analisamos candidatos, propostas e partidos e então decidimos. Mas nossas escolhas políticas começam muito antes das campanhas eleitorais.
Somos formados pelo ambiente em que crescemos, pelas pessoas com quem convivemos, pela nossa situação econômica, pelas experiências que tivemos e pelos valores que aprendemos. São forças determinísticas que não necessariamente eliminam nossa liberdade, mas estabelecem as condições dentro das quais escolhemos. Um eleitor não precisa votar como seus pais, sua igreja, seus amigos ou seu grupo social esperam. Pode romper com todos eles. Mas até essa ruptura nasce de uma história. Não escolhemos de onde partimos, mas podemos compreender de onde estamos partindo.
A tecnologia acrescentou novas forças a esse processo. Algoritmos selecionam parte das informações que recebemos, grupos reforçam opiniões semelhantes às nossas e conteúdos que provocam indignação ou identificação circulam rapidamente. Podemos acreditar que estamos procurando informações para decidir quando estamos apenas procurando argumentos para confirmar aquilo em que já acreditávamos.
Existe ainda uma contradição interessante. Depois de uma longa história de luta para ampliar o direito ao voto, o Brasil obriga a maioria dos adultos a exercê-lo. Se votar representa uma manifestação da liberdade política, cabe refletir sobre o significado de obrigar alguém a exercer essa liberdade.
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No domingo, estaremos novamente sozinhos diante da urna. Mas conosco estarão nossa história, nossos valores, nossos afetos, nossas frustrações, nossas crenças e todas as influências que acumulamos. A democracia conquistou o direito de colocar cada cidadão diante de uma escolha. Nossa responsabilidade é compreender tudo aquilo que chegou conosco até ela.