A condição humana requer uma sabedoria que vem do coração: tem seu papel aquele saber que vem dos livros, particularmente nas áreas técnica e profissional, mas nada substitui a sabedoria que nasce e é cultivada no próprio coração. Metaforicamente pode-se dizer que a sabedoria do coração é alicerce. Lacunas nessa sabedoria representam uma casa construída sobre a areia, e não sobre a rocha, e encontram reflexo nas estatísticas que mensuram a desistência do viver. Trata-se, pois, de um desafio existencial de ordem emocional e física que, quando não leva à extrema atitude do autoextermínio, conduz o ser humano à perda do gosto pela vida, gerando solidão, isolamentos, com incidências na condição cidadã. Cria-se, assim, um contexto para a proliferação do egoísmo, da ganância desmedida, da mesquinhez e indiferença em relação ao sofrimento alheio.
Sem a sabedoria do coração prevalece uma inquietude que expressa diferentes formas de vazio existencial tratados inadequadamente pela sociedade, a partir de muitas contradições. Chega-se a desconsiderar o sentido social do bem comum, a indispensável prática da solidariedade, passam a ser adotadas condutas incoerentes, distantes da ética e da moral. Ao invés de tratar lacunas existenciais, o que se efetiva é a construção de mais barreiras entre as pessoas, o enfraquecimento das instituições do Estado, confessionais e culturais, tão importantes para uma sociedade. Chega-se ao ponto crítico de, social e politicamente, aparentar não existir saída para as muitas crises e, por isso, ter que se conformar com a “babel” instalada no corpo da sociedade. Também o medo dos sofrimentos endurece o coração, configurando ações e escolhas que, cedo ou tarde, trazem nefastas consequências.
O coração humano passa a hospedar sentimentos que estão na contramão da verdade e da justiça. Deixa-se comandar por interesses espúrios e antiéticos, de modo geral atrelados à desmedida ambição por dinheiro, com sua força de sedução, inspirando arquiteturas perversas na sociedade. O medo em relação aos sofrimentos e o pavor diante da possibilidade da morte levam, assim, o ser humano a enfrentá-los por meio de soluções suicidas. Na reação ao medo, o antídoto para não se valer de estratégias suicidas é confiar na sabedoria do coração, que tem propriedades para forjar o altruísmo, o apreço pela simplicidade, a força para não se deixar dominar pela sede de poder. A sabedoria do coração hospeda o apreço pela ética e pela contundente oposição a todo tipo de manipulação, de hipocrisias.
A sabedoria do coração é luz luzente, possibilitando ao ser humano relativizar o que, de fato, tem somente valor relativo, e cultuar o que é verdadeiramente absoluto. A prática da espiritualidade é o único caminho para adequadamente tratar as tiranias do desejo que obscurecem o coração. A espiritualidade corrige hábitos e nutre uma inteligência que não tem medo do desconhecido, alimentando o desejo pela verdade, fome e sede de justiça, erigindo no coração o altar no qual se inscreve o princípio cristão de considerar o semelhante como o mais importante, sobretudo os pobres, os indefesos, os enfermos e os inocentes. Reveste-se o coração com valores que envolvem os mistérios do amor de Deus pela humanidade, criando a oportunidade para experimentar a misericórdia divina, assimilada como parâmetro perfeito no tratamento do semelhante.
A sabedoria do coração se torna uma fonte de inspiração que gesta pessoas notáveis, não pelas posses nem pelos títulos, mas em razão de cultivarem autoconhecimento. Seres humanos capazes de reconhecer o que ensina São Gregório Magno, na sua sabedoria: “Nós estamos onde fixamos o olhar de nossa alma”. Importa, pois, fixar o olhar na própria ferida. Trata-se de ponto de partida para assumir a própria fragilidade, não para justificá-la, mas para se aproximar de Deus, o verdadeiro amor. O abandono dessa experiência, ou um simples distanciamento, assoreia a sabedoria do coração, dando lugar à soberba, à ganância e às disputas fratricidas.
O ser humano, admitindo as enfermidades morais e espirituais, deve ouvir o conselho de São Bernardo: “Convém que o enfermo, se não pode ir tão longe ao encontro do médico, ao menos procure erguer a cabeça e levantar-se à sua chegada. Não te é necessário atravessar mares, penetrar nas nuvens ou transpor montanhas. Não é muito longo o caminho que te é mostrado: corre ao encontro do teu Deus dentro de ti mesmo. Pois ‘ao teu alcance está a Palavra, em tua boca e em teu coração’ (Rm 10,8). Avança até a compunção do coração e à confissão dos lábios, para que ao menos saia do lamaçal de tua mísera consciência, pois não é lugar digno de que nele entre o autor da pureza. Essas coisas são ditas com relação àquele advento pelo qual cada alma é iluminada com um poder invisível”.
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Trilhar um caminho de espiritualidade é um broto de esperança para uma contemporaneidade que banaliza o mal, cultiva o distanciamento e a infidelidade aos princípios da honestidade. Enquanto se trilha esse percurso, cultiva-se o zelo pelo bem comum à luz da sabedoria do coração.