Bernardo Castello

Diretor-presidente da Bradesco Vida e Previdência

O Brasil está diante de uma das transformações demográficas mais profundas de sua história. Segundo projeções divulgadas pelo IBGE no fim de 2025, o país vive um processo acelerado de envelhecimento populacional, impulsionado pelo aumento da expectativa de vida e pela redução das taxas de natalidade. A expectativa de vida do brasileiro alcançou 76,6 anos – recorde histórico da série iniciada em 1940 – e a população com mais de 60 anos deve representar quase 40% do país até 2070. Essa mudança altera não apenas a composição etária da sociedade, mas também a maneira como as pessoas precisam organizar o presente e se preparar para uma etapa da vida cada vez mais longa.


Viver mais é uma conquista social importante. O desafio é garantir que esse tempo adicional venha acompanhado de autonomia, estabilidade financeira e qualidade de vida. E é justamente nesse ponto que o Brasil ainda enfrenta um obstáculo estrutural: a baixa cultura de planejamento financeiro de longo prazo.


Em países como Estados Unidos, Reino Unido, Japão e Alemanha, por exemplo, produtos de previdência complementar, seguros de vida e planejamento sucessório fazem parte da organização financeira das famílias há décadas. Nessas economias, há maior compreensão sobre a necessidade de construir reservas privadas para aposentadoria, proteção patrimonial e cobertura de riscos ao longo da vida. Esses instrumentos funcionam como uma camada adicional de segurança diante de imprevistos, mudanças de renda e novas necessidades familiares.


No Brasil, esse movimento ainda avança lentamente. A maioria dos brasileiros ainda não está preparada para lidar com imprevistos financeiros. Pesquisas recentes também apontam baixa adesão a instrumentos de proteção, como seguros de vida e cobertura de renda, além de falta de conhecimento básico sobre planejamento financeiro.


Segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi), o número de participantes em planos de previdência privada representa atualmente cerca de 7% a 9% da população adulta brasileira – índice ainda distante de países desenvolvidos, onde a adesão a mecanismos privados de aposentadoria é amplamente disseminada. Enquanto o percentual de brasileiros que possuem algum tipo de seguro de vida chega a 18%, considerando as apólices coletivas.


A discussão sobre longevidade deixou de ser restrita à aposentadoria e passou a envolver proteção familiar, sucessão patrimonial, renda complementar e manutenção da independência financeira ao longo da vida. O mercado já acompanha essa transformação. A longevidade também amplia a necessidade de considerar despesas com saúde e qualidade de vida, moradia, cuidados e apoio à família, que podem crescer ao longo dos anos e comprometer a autonomia de quem não se preparou previamente. Nos próximos anos, a tendência é de avanço de soluções cada vez mais flexíveis, acessíveis e personalizadas, impulsionadas por tecnologia, inteligência de dados e digitalização da experiência do consumidor.


Outro movimento importante é o fortalecimento da educação financeira como pauta social. Em uma sociedade mais longeva, depender exclusivamente da aposentadoria pública já é insuficiente para preservar padrão de vida e autonomia financeira durante anos – e até décadas – adicionais de vida. Por isso, formação antecipada de reserva financeira e proteção contra perda de renda são temas que devem ser discutidos em casa, no trabalho e nos centros de ensino. As empresas também podem contribuir com informação, benefícios e estímulos ao planejamento, aproximando esse debate da rotina de trabalhadores de diferentes idades e faixas de renda.


Quanto mais cedo essa conversa começar, maior será a possibilidade de distribuir o esforço financeiro ao longo do tempo. Planejar não significa prever todos os acontecimentos, mas criar condições para atravessar diferentes fases da vida com mais segurança e liberdade de escolha.

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A longevidade já não é uma tendência distante. Ela redefine o presente e exigirá respostas mais rápidas de famílias, empresas e governos. O Brasil ganhou tempo de vida. O próximo desafio será transformar esse tempo em segurança financeira, previsibilidade e qualidade de vida, o que abarca desde o pagamento das contas do dia a dia a lazer e gastos com saúde.

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