Dom Pedro I proclamou a independência às margens do riacho do Ipiranga em 7 de setembro de 1822. O grito foi real, mas a ruptura, parcial. O Brasil independente nasceu endividado com a Inglaterra, que reconheceu a nova nação em troca de vantagens comerciais. Nasceu com uma economia voltada para fora, dependente da exportação de commodities e do humor dos mercados europeus. Nasceu, em suma, formalmente livre e estruturalmente dependente, uma tensão que atravessou dois séculos e ainda não foi inteiramente resolvida.
Hoje, essa tensão se apresenta com nova roupagem. O que analistas apelidaram de Doutrina Donroe é a versão Trump dessa velha ambição hemisférica – fusão do nome Donald com Monroe, numa referência ao presidente americano James Monroe, que em 1823 proclamou o direito dos Estados Unidos de intervir nos assuntos do continente. Mais agressiva, mais transacional e menos disfarçada do que seus antecessores, ela trata a América Latina como quintal estratégico a ser gerido conforme os interesses de Washington: afastando a China, controlando recursos naturais e cobrando alinhamento político como contrapartida de qualquer relação comercial.
O Brasil, maior economia do hemisfério sul, não está imune a essa pressão. As tarifas impostas sobre produtos brasileiros, a interferência no debate eleitoral, as tentativas de instrumentalizar a política externa americana para fins domésticos compõem um quadro que o país precisa reconhecer pelo que é: uma disputa pela autonomia que o grito de Dom Pedro I prometeu e que segue incompleta.
Essa autonomia, vale dizer, não significa isolamento. Significa o direito de conduzir as próprias eleições sem interferência externa, de gerir as próprias riquezas naturais segundo os interesses do povo brasileiro, de firmar parcerias comerciais com quem melhor servir ao desenvolvimento nacional. Significa ter instituições que funcionem. Imperfeitas, sim, como toda criação humana, mas aperfeiçoando-se pelos seus próprios mecanismos, sem tutela de fora. É esse o projeto que o 7 de setembro deveria celebrar.
O Brasil já provou que é capaz. Defendeu eleições sob pressão, preservou instituições que resistiram a tentativas de ruptura, protegeu recursos estratégicos que potências externas cobiçavam. Fez isso com todas as suas contradições, sua desigualdade, sua burocracia pesada e sua política barulhenta. Um país imperfeito que, quando precisou, encontrou em si mesmo a força para não dobrar. É dessa força, e não de tutelas externas, nem de alinhamentos automáticos a qualquer potência, que vai nascer o Brasil que ainda estamos construindo. A autonomia não é um ponto de chegada. É a condição para que qualquer chegada valha a pena.
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É hora, portanto, de devolver o 7 de setembro ao que sempre deveria ter sido: um dia de orgulho pelo caminho percorrido e de reflexão honesta sobre o caminho que falta. Um dia para todos os brasileiros, independentemente de partido, de ideologia, de origem. Um dia para olhar para o país que temos, com suas contradições, suas belezas, suas feridas, e perguntar, sem medo da resposta, que país queremos ser.