Geraldo Fernandes - Centro de Conhecimento em Biodiversidade, Universidade Federal de Minas Gerais

Poucas regiões do Brasil reúnem uma riqueza tão extraordinária. O Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, é patrimônio cultural, abriga uma biodiversidade singular, possui recursos naturais estratégicos, uma população criativa e resiliente, conhecimento tradicional valioso e jovens que desejam oportunidades para construir seu futuro, sem contudo precisar abandonar suas terras, origens e cultura.


Mas por que toda essa riqueza do Vale ainda não se transformou em desenvolvimento, qualidade de vida e justiça social? Talvez, uma das principais razões e desafios seja a baixa capacidade de construir uma representação política forte, articulada, comprometida e preparada para defender os interesses do território em âmbito estadual, nacional e internacional.


O mundo mudou. Os desafios atuais são completamente diferentes daqueles enfrentados no passado próximo. As mudanças climáticas, a segurança hídrica, a conservação ambiental, a saúde pública, a transformação digital, a bioeconomia e a atração de investimentos sustentáveis estão definindo quais regiões prosperarão nas próximas décadas.


Por isso, essa região precisa olhar além das promessas políticas tradicionais. A população deve perguntar: qual é o projeto de futuro para o Vale do Jequitinhonha? Como pretendem transformar sua extraordinária sociobiodiversidade em geração de renda, inovação, emprego e qualidade de vida? Como serão protegidos os recursos naturais diante da crescente pressão econômica sobre o território? Como pretendem inserir o Vale na economia do conhecimento e da inteligência artificial?


O Vale necessita de representantes políticos e administradores que compreendam ciência, inovação, planejamento territorial e desenvolvimento sustentável. Precisa de pessoas capazes de articular e dialogar com universidades, centros de pesquisa, empreendedores, comunidades tradicionais, agricultores, organizações sociais e investidores comprometidos com um modelo moderno e, portanto, sustentável de desenvolvimento.


Para administrar este complexo e grande território e conduzi-lo à outra fase ou dimensão, é fundamental criar alicerces e estruturas inteligentes e adaptativas, capazes de integrar informações ambientais, sociais e econômicas, orientar políticas públicas baseadas em evidências, identificar oportunidades de investimento e apoiar decisões estratégicas. Governar o Vale no século 21 exige conhecimento, tecnologia e visão de longo prazo.


Também é urgente a construção de um programa próprio para o Vale do Jequitinhonha, baseado na valorização da sociobiodiversidade, na restauração dos seus ecossistemas já bastante degradados, na segurança hídrica e energética, no fortalecimento da agricultura regenerativa, no turismo de natureza e cultural, na economia criativa, na inovação tecnológica e na atração de novos negócios compatíveis com a identidade do território. O maior risco é continuar repetindo as mesmas fórmulas que produziram poucos resultados.


O Vale não precisa apenas de novos atores, precisa de uma nova visão. Por outro lado, a população precisa do apoio daqueles que são capazes de compreender as profundas transformações que estão acontecendo no mundo e de posicionar o Vale como protagonista desse novo cenário. O desenvolvimento não virá apenas pela exploração de seus recursos naturais, mas principalmente pela capacidade de agregar conhecimento, inovação e inteligência à extraordinária riqueza que o território já possui.


O futuro do Vale do Jequitinhonha dependerá menos do discurso e mais da existência de uma agenda clara, ousada e inovadora. Uma agenda construída com participação da sociedade, baseada na ciência, comprometida com a sustentabilidade e voltada para criar oportunidades para as próximas gerações.

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O Vale merece deixar de ser conhecido apenas por seus desafios. Está na hora de ser reconhecido por seu enorme potencial e por sua capacidade de liderar um novo modelo de desenvolvimento para o semi-árido brasileiro.

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