Em 1991, o Brasil notificou 61.400 casos de sarampo e 475 mortes pela doença. Naquele ano, a incidência chegava a quase 100 casos para cada 100 mil habitantes. Metade dos leitos de hospitais infantis era ocupada por crianças com sarampo, com altíssima mortalidade, como lembra qualquer médico que viu aquela realidade de perto. Era uma das principais causas de morte infantil no país, ao lado de doenças que hoje soam como história antiga.

O que mudou esse quadro não foi um remédio revolucionário, nem uma descoberta científica recente. Foi a vacina, antiga, barata, eficaz e disponível gratuitamente no SUS. Em 1992, em uma campanha massiva, o Brasil vacinou 96% das crianças e adolescentes entre 9 meses e 14 anos. Os casos despencaram de 42.532 em 1991 para 2.396 em 1993. Em 2016, a Organização Pan-Americana da Saúde certificou a eliminação do sarampo no continente americano. O Brasil havia derrotado uma doença que matava milhões.

Havia. O verbo no passado é necessário porque o sarampo está de volta. Não por falha na oferta da vacina, mas por falha humana. A queda nas coberturas vacinais nos últimos anos, alimentada por desinformação e pelo movimento antivacina, recriou as condições para que o vírus volte a circular. Os 26 casos já registrados em São Paulo em 2026 não são uma anomalia estatística. São um sinal de alerta que não pode ser ignorado.

O movimento antivacina é, antes de qualquer coisa, um fenômeno de privilégio e ignorância histórica. Seus adeptos cresceram num país onde o sarampo havia sido eliminado, justamente porque gerações anteriores vacinaram seus filhos. Nunca viram uma criança morrer de sarampo, nunca passaram por uma enfermaria tomada pela doença, nunca enterraram alguém por uma infecção que podia ser prevenida com uma picada. Essa proteção invisível, construída ao longo de décadas de saúde pública, é o que lhes dá o luxo de recusar vacinas sem consequências imediatas que recaem, como sempre, sobre os mais vulneráveis: crianças pequenas demais para serem vacinadas, imunossuprimidos, pessoas sem acesso a cuidados de saúde.

A desinformação que alimenta esse movimento não é ingênua, e gera um perigo difícil de ignorar. Cada criança não vacinada é um elo que o vírus pode usar para se espalhar. Afinal, o sarampo é uma das doenças mais contagiosas que existem: nove em cada 10 pessoas suscetíveis expostas ao vírus adoecem. Quando a cobertura vacinal cai abaixo de 95%, a proteção coletiva desaparece e o vírus encontra caminho livre. Os 26 casos de São Paulo são a evidência de que esse caminho já está sendo aberto.

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Rejeitar a vacina contra o sarampo é uma decisão com consequências para além de quem a toma. Significa contribuir para o retorno de uma doença que o Brasil já havia derrotado. É ignorar décadas de evidência científica em favor de medo irracional e desinformação. E é, em última análise, colocar em risco a vida de crianças que não têm voz nessa escolha. O Brasil já soube o que é lidar com o sarampo. Não há razão para aprender de novo.

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