A Presidência da República é o cargo mais poderoso e, por isso mesmo, o mais disputado da política brasileira. Quem conquista o Palácio do Planalto não ganha apenas uma eleição: assume o comando do Poder Executivo e de uma máquina pública cujas decisões atingem diretamente mais de 200 milhões de brasileiros. É essa dimensão do poder que o eleitor deve ter em mente com o início do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão.


A Constituição de 1988 confere ao presidente enormes prerrogativas. Cabe a ele nomear e demitir ministros, sancionar ou vetar leis, editar medidas provisórias e decretos, enviar o Orçamento ao Congresso, conduzir a política externa e exercer o comando supremo das Forças Armadas. Também indica ministros do Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República, dirigentes do Banco Central, embaixadores e integrantes de outros órgãos estratégicos – muitas dessas escolhas submetidas à aprovação do Senado.


É um poder gigantesco, que vai muito além dessas atribuições formais. O governo federal arrecada e movimenta trilhões de reais e executa políticas que influenciam emprego, renda, inflação, crédito, investimentos, educação, saúde, infraestrutura, segurança pública e programas sociais. Uma decisão econômica equivocada pode comprometer anos de crescimento. Uma crise diplomática pode fechar mercados. Uma indicação para o Supremo pode produzir consequências durante décadas.


Num país presidencialista e historicamente marcado pela concentração de recursos e decisões em Brasília, conquistar a Presidência significa ocupar o centro de gravidade do poder nacional. É por isso que a eleição mobiliza partidos, governadores, parlamentares, empresários, sindicatos, movimentos sociais e até interesses internacionais. Não estamos eliminando alguém de um reality show. Estamos escolhendo quem receberá as chaves do Estado brasileiro pelos próximos quatro anos.


Essa dimensão deveria determinar a atitude do eleitor diante da propaganda. E a campanha dos candidatos, pois, agora, entram em cena marqueteiros, pesquisadores, publicitários, roteiristas e especialistas em redes sociais. Imagens serão escolhidas, discursos testados, biografias reconstruídas e adversários atacados. Tudo isso faz parte da disputa democrática. Propaganda existe para persuadir. Cabe ao eleitor não confundir persuasão com realidade.


Uma campanha pode inventar uma imagem presidencial, mas garante a competência para governar. Por isso, as propostas precisam ser escrutinadas. Como cada candidato pretende equilibrar as contas públicas? Como estimulará o crescimento? O que fará contra o crime organizado? Quais são suas prioridades para educação, saúde e infraestrutura? Como financiará suas promessas? Qual será a posição do Brasil diante de um mundo marcado por crescentes tensões geopolíticas? Ou seja, como pretende exercer tamanho poder? Nesse aspecto, a recusa de candidatos a participar de debates não pode ser tratada apenas como estratégia eleitoral. O debate não pertence aos candidatos; pertence ao processo democrático.


Quem pretende governar o Brasil precisa explicar suas ideias, enfrentar perguntas difíceis e confrontar argumentos contrários. Na propaganda, o candidato controla cenário, texto, imagens, edição e interlocutores. No debate, perde esse conforto. Precisa demonstrar conhecimento, capacidade de argumentação e equilíbrio diante do inesperado. Presidente não governa num estúdio de televisão.


Também merece atenção a postura diante dos jornalistas. A imprensa pode e deve ser criticada por seus erros. Outra coisa é hostilizar profissionais porque fizeram perguntas incômodas. Quem pretende administrar trilhões de reais, comandar as Forças Armadas, nomear ministros, indicar integrantes do Supremo e representar o Brasil no exterior precisa estar preparado para responder a perguntas desagradáveis.

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Debates e entrevistas também revelam temperamento. Mostram como alguém reage à crítica, ao contraditório e à pressão – situações que fazem parte da rotina de qualquer presidente. O horário eleitoral será uma vitrine. Cabe ao eleitor olhar além dele.

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