O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, vem anunciar um pacote de sanções duro e amplo contra o Irã, destinado, nas suas palavras, a "asfixiar" a economia da República Islâmica. Quando antecipou a nova estratégia, com a guerra iniciada por Washington às portas de completar seis meses, o presidente Donald Trump empenhou-se em apresentá-la como um "movimento final" para levar o regime de Teerã à rendição – algo como um xeque-mate, no xadrez.
Sem resultados palpáveis das primeiras semanas de bombardeios maciços, seguidos pela batalha naval no Estreito de Ormuz – igualmente sem solucionar o impasse militar –, e aparentemente com munição escassa para retornar ao ritmo inicial no campo de batalha, Trump anunciou um "Dia D econômico". A referência é ao desembarque de tropas aliadas na França ocupada pela Alemanha nazista, na fase decisiva da 2ª Guerra Mundial.
O Irã, naturalmente, é o alvo imediato. Mas, pela extensão e profundidade, as medidas anunciadas pelo secretário do Tesouro prometem enviar ondas de choque pela economia global, ao passo em que forem colocadas em prática. A fim de levar ao colapso a economia do Irã, o sentido geral do pacote é deixá-la isolada por um "cordão sanitário", uma "cortina de ferro" – para evocar a linguagem geopolítica do pós-2ª Guerra. Países, empresas e entidades de todo tipo que "lavarem" ativos iranianos serão excluídos do sistema dólar e estarão sujeitos a outras sanções, como as sobretaxas comerciais.
Pelo sentido e pelo espírito, o pacote do Dia D econômico se assemelha ao bloqueio econômico imposto a Cuba há mais de meio século, e progressivamente acirrado, ao ponto do atual cerco energético. Não por acaso, o termo usado para ilustrar os objetivos contra a ilha comunista é o mesmo: asfixia.
A diferença principal é que, enquanto Cuba é impedida fundamentalmente de importar, o Irã é importante exportador – de petróleo e gás, assim como de insumos para fertilizantes. É o principal fornecedor dessas matérias-primas para a China, que já declarou sem rodeios sua recusa a acatar o ditame de Washington. Outros importadores se verão afetados pela alta das cotações, caso o óleo iraniano fique, efetivamente, fora dos mercados. Sem falar na ameaça de Teerã de impedir a passagem de "nenhuma gota sequer" de petróleo por Ormuz, caso não possa comerciar o próprio.
Desde que retornou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Donald Trump desdobrou-se em anunciar uma abordagem agressiva no concerto econômico global, sempre em nome de defender o que apresenta como os interesses dos EUA – e honrar o slogan de campanha de "fazer a América grande novamente". Afora proclamações quase ocas, como a de anexar a Groenlândia ou a de transformar o Canadá no "51º estado", reverberam ainda os impactos da guerra tarifária – inclusive, no momento, com o vizinho do norte. Também o Brasil segue às voltas com a imposição unilateral de sobretaxas comerciais.
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É cedo para determinar os efeitos do novo pacote na dinâmica de uma guerra truncada e sem desenlace à vista. Já são palpáveis, no entanto, os desdobramentos da política errática e agressiva da Casa Branca para a economia mundial – e mesmo a dos EUA. Os custos da energia subiram de patamar, pressionam a inflação e, por tabela, inibem as projeções de crescimento econômico. Parceiros estratégicos, como a Europa e o Japão, ressentem-se. Mesmo o Brasil, distante do conflito no Oriente Médio, vê-se forçado a traçar estratégias para contornar os efeitos de políticas fora de seu alcance. O "custo Trump", como um míssil sem sistema de direção, atinge alvos aleatórios e causa estragos para todos.