A Petrobras confirmou no início da semana a descoberta de petróleo no poço Morpho, localizado a 175 quilômetros da costa do Amapá, em uma lâmina d'água de quase 3 mil metros, na bacia da Foz do Amazonas. O anúncio vem dias após a estatal ter identificado a presença de hidrocarbonetos no mesmo poço, e transforma o que era um indício promissor na primeira descoberta concreta de óleo na Margem Equatorial brasileira. O resultado confirma o potencial geológico da última grande fronteira exploratória offshore do Brasil e recoloca o país diante de uma de suas maiores encruzilhadas estratégicas. A campanha exploratória consumiu cerca de US$ 3 bilhões e anos de negociação com o Ibama para viabilizar o licenciamento ambiental. Mas o achado é apenas o marco zero de um processo longo e complexo, que testará a capacidade do Estado brasileiro de separar a técnica da retórica e o planejamento de longo prazo do oportunismo político.

As preocupações com a sensibilidade ambiental da região, especialmente nas proximidades da foz do Rio Amazonas, são legítimas e devem balizar qualquer avanço. O aquecimento global impõe ao planeta uma mudança inescapável no eixo da matriz energética, em direção às fontes renováveis. Contudo, ignorar que a transição levará décadas e que a demanda por derivados de petróleo continuará alta nesse meio tempo é uma miopia que flerta com a irresponsabilidade. A descarbonização da economia tem um custo trilionário e não será financiada apenas por boas intenções diplomáticas nem será feita com celeridade.

Se o rigoroso crivo do licenciamento ambiental atestar a viabilidade e a segurança da extração, o petróleo da Margem Equatorial deve ser explorado com extrema prudência, claro, mas com pragmatismo. O Brasil, que construiu excelência incontestável na operação em águas profundas, não tem o luxo de trancar reservas gigantescas no fundo do mar por dogmatismo ecológico. A cautela exigida pelos órgãos de controle tem o dever de proteger a região e mitigar riscos, mas não pode ser instrumentalizada para paralisar por inércia ou ativismo burocrático.

O impacto de renunciar a essa fronteira seria sentido no cotidiano da economia. Sem essa nova fronteira, o Brasil corre o risco concreto de retomar a dependência de importações: os campos do pré-sal, que hoje respondem por mais de 70% da produção nacional, deverão atingir seu pico produtivo ainda nesta década e entrar em declínio a partir de 2030.

A prova empírica desse poder de transformação está logo acima de nossas fronteiras, na vizinha Guiana. Há poucos anos um dos países mais frágeis da região, a nação tornou-se a economia que mais cresce no mundo após decidir explorar sua fatia geológica da mesma margem. O Brasil tem ali a chance de gerar riqueza estrutural para custear as dores de uma população que ainda convive com estagnação de renda, falta de saneamento básico e déficit crônico de infraestrutura.

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O alerta definitivo mora na memória recente do país. Os dividendos de uma eventual produção não podem repetir o roteiro visto no pré-sal, quando royalties foram sistematicamente pulverizados no custeio da máquina pública. O achado de agora é apenas um potencial, e não um cheque em branco. Se o petróleo se confirmar viável, deverá servir como ponte financeira para o futuro energético do Brasil e não como mais uma oportunidade desperdiçada.

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